Vivemos um período de profundas transformações tecnológicas. Inteligência artificial, automação, conectividade e novas plataformas digitais são frequentemente apresentadas como símbolos inevitáveis do progresso. Entretanto, uma pergunta precisa ser feita: esse progresso está beneficiando toda a sociedade ou apenas aprofundando desigualdades já existentes?
A resposta exige olhar além da inovação tecnológica em si. O problema não é a tecnologia. O problema é quem tem acesso a ela, quem a produz, quem define seus objetivos e quem fica excluído desse processo.
Ainda hoje, milhões de brasileiros sequer possuem acesso adequado à internet. Grande parte da população depende exclusivamente do telefone celular para acessar serviços públicos, procurar emprego, estudar ou exercer sua cidadania. Essa realidade limita oportunidades e produz uma falsa sensação de inclusão digital.
Ter um celular não significa estar incluído digitalmente. Inclusão digital pressupõe acesso à internet de qualidade, equipamentos adequados, capacitação permanente e autonomia para utilizar a tecnologia como instrumento de produção de conhecimento, trabalho e participação social.
A pandemia deixou isso evidente. Enquanto algumas crianças acompanharam as aulas em computadores com internet de alta velocidade, outras dividiam um único celular entre vários membros da família ou simplesmente ficaram excluídas do processo educacional.
Essa desigualdade possui rosto, gênero e raça. No Brasil, a pobreza continua sendo majoritariamente feminina e negra. São justamente essas mulheres, muitas vezes chefes de família, que enfrentam as maiores barreiras de acesso às tecnologias digitais. Além da limitação econômica, convivem com jornadas múltiplas de trabalho e pesadas responsabilidades familiares, o que reduz sua disponibilidade para a qualificação tecnológica. Portanto, quando falamos de inclusão digital, estamos falando também de justiça social.
Outro aspecto que merece atenção é a forma como a inteligência artificial vem sendo construída. Os sistemas aprendem com os dados disponíveis. Se esses dados refletem uma sociedade marcada pelo racismo, pelo sexismo e por outras formas de discriminação, essas tecnologias tendem a reproduzir os mesmos vieses.
Já vimos algoritmos de recrutamento favorecerem homens em processos seletivos porque aprenderam com históricos predominantemente masculinos. Também observamos mecanismos de busca associarem determinados grupos sociais a conteúdos preconceituosos ou estereotipados.
A inteligência artificial não cria preconceitos do nada. Ela reproduz aquilo que a sociedade produziu e registrou. Por isso, discutir governança da inteligência artificial significa discutir diversidade, participação social, transparência e responsabilidade.
Mas existe uma segunda desigualdade que cresce silenciosamente: a exploração de quem já está conectado. As tecnologias de comunicação eliminaram as fronteiras entre o tempo de trabalho e o tempo da vida pessoal. O trabalhador permanece permanentemente disponível. Mensagens chegam durante a noite, aos finais de semana e nas férias. Reuniões virtuais ultrapassam os limites da jornada. A expectativa de resposta imediata tornou-se uma regra informal.
Essa realidade produz ansiedade, adoecimento e intensificação do trabalho. Ao contrário do que alguns ainda pensam, o direito à desconexão superou a ideia de privilégio e consolidou-se como uma exigência de saúde laboral.
É preciso compreender que disponibilidade permanente não significa produtividade permanente. A tecnologia deve servir às pessoas e não transformar trabalhadores e trabalhadoras em profissionais conectados vinte e quatro horas por dia.
Também precisamos superar outro equívoco recorrente: acreditar que distribuir celulares resolve o problema da inclusão. Não resolve.
As pessoas precisam de computadores, tablets, internet de qualidade e, acima de tudo, de políticas públicas permanentes de formação digital. Precisam desenvolver pensamento crítico, capacidade de produzir conhecimento e autonomia para utilizar as tecnologias além das redes sociais. Caso contrário, permanecerão apenas como consumidoras de conteúdo produzido por outros.
Essa discussão alcança também povos indígenas, comunidades tradicionais e populações periféricas. Sou uma mulher indígena não aldeada e frequentemente escuto comentários que questionam a presença de indígenas utilizando celular, computador ou internet, como se a tecnologia fosse incompatível com nossa identidade.
Esse é um novo tipo de preconceito, ou quem sabe o preconceito antigo como nova roupagem? Ter acesso à tecnologia não significa abandonar a cultura. Significa ampliar possibilidades, garantir direitos e participar das transformações do mundo contemporâneo sem abrir mão da própria identidade.
Nenhum povo deve ser condenado ao isolamento para provar sua autenticidade. A verdadeira inclusão acontece quando diferentes culturas podem utilizar as tecnologias em benefício próprio, preservando seus conhecimentos e fortalecendo sua autonomia.
Por fim, é importante compreender que toda inovação tecnológica deve estar acompanhada de políticas públicas. Foi assim com a energia elétrica, que iluminou cidades inteiras; com a educação pública, que formou gerações; com o saneamento, que salvou vidas; e com as telecomunicações, que encurtaram distâncias. O mercado, sozinho, não leva infraestrutura para onde ela é menos lucrativa. É papel do Estado garantir que os benefícios do desenvolvimento alcancem toda a população.
A tecnologia continuará avançando. A questão é decidir se ela será instrumento de concentração de riqueza e poder ou ferramenta de democratização de oportunidades. O futuro não pode ser construído apenas para quem já está incluído.
Precisamos construir uma transformação digital que reduza desigualdades, fortaleça direitos e respeite a diversidade, colocando a dignidade humana no centro de todas as decisões. Esse talvez seja o maior desafio tecnológico do nosso tempo.
Esse artigo foi elaborado a partir das ideias apresentadas pela autora durante sua participação no podcast da Engenharia, do SENGE-PE: “Os impactos dos avanços tecnológicos nas desigualdades”.
Autora: Simone Baía. Engenheira Química, Especialista em Hidrogeologia Aplicada às Águas Subterrâneas, Mestra em Geoquímica Ambiental
Diretora da Mulher da Federação Interestadual dos Sindicatos de Engenheiros e Vice-presidenta global do setor de Profissionais e Gerentes (P&M) da UNI Global Union, representando o continente americano.
e-mail: sbaia3000@yahoo.com.br
Fonte: SENGE-PE
Imagem: SENGE-PE