“Nós já chegamos aos pontos de não retorno”, alerta a engenheira agrônoma Marina Bezerra durante o Consenge

No terceiro dia do 14º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros (CONSENGE), em 28 de agosto, a emergência climática foi o tema das discussões no período da manhã, com a palestra “Emergência climática, políticas públicas e a responsabilidade social” ministrada pela engenheira agrônoma, mestre em meio ambiente e diretora do Senge-SE Marina Franca Leite; e pelo doutor em Ciências Sociais e secretário nacional de Pesca Artesanal do Ministério da Pesca e Aquicultura no governo federal, Cristiano Ramalho.

A mesa que foi coordenada pela vice-presidente da Fisenge, a engenheira civil Elaine Santana e pelo diretor do Senge-PR, o engenheiro agrônomo e de Segurança do Trabalho Verginio Luiz Satngherlin – que fizeram a apresentação dos palestrantes e ao final conduziram os blocos de perguntas e respostas com a participação do público presente.

 

Crise climática e pontos de não retorno

A primeira exposição foi conduzida por Marina, que apresentou aspectos centrais da emergência climática, entre eles as emissões de CO relacionadas aos setores da agricultura e da silvicultura, os desafios para o cumprimento do Acordo de Paris, que completou dez anos, o uso de agrotóxicos na agropecuária e a dependência de insumos.

A engenheira agrônoma e extensionista também chamou atenção para os chamados pontos de não retorno, relacionados a alterações ambientais que podem provocar mudanças permanentes ou de difícil reversão nos ecossistemas.

“Nós já chegamos aos pontos de não retorno. Já existem lugares no Nordeste que eram semiáridos e agora são áridos, e não há retorno. Existe também um discurso negacionista de que isso seria um ciclo natural do meio ambiente, e não é”, enfatizou Franca.

 

Políticas públicas e justiça ambiental

Na sequência, Cristiano Ramalho abordou a relação entre emergência climática, preservação dos territórios e relações sociais. Com 20 anos de atuação nas áreas de pesca e aquicultura, o pesquisador destacou sua experiência na formulação de políticas públicas voltadas às comunidades pesqueiras.

Segundo Ramalho, não é possível discutir preservação ambiental e enfrentamento da emergência climática sem considerar as populações que vivem e trabalham nos territórios. Para ele, as políticas públicas precisam incorporar essas questões sociais.

“Se nós quisermos enfrentar a emergência climática, precisamos de políticas públicas para incentivar as pessoas que produzem de forma sustentável em seus territórios. Para além disso, não podemos esquecer o racismo ambiental, que ainda é pouco debatido nos espaços da engenharia”, declarou.

Durante o debate, Verginio Luiz Satngherlin complementou a discussão ao destacar a dimensão cultural presente na preservação dos territórios, especialmente em comunidades onde a agricultura familiar é uma das principais fontes de renda.

“Estamos esquecendo a questão cultural em torno da produção agrícola, que é o ensinamento que passa dos pais para os filhos. Isso é a preservação da cultura de uma comunidade, de um povo. Nós precisamos fazer com que as pessoas se sintam parte do processo de produção, que não sejam meros executores, porque, na verdade, eles também são detentores do conhecimento. Um exemplo é o MST, que faz muito bem isso”, afirmou Satngherlin.

 

Boas práticas ambientais

Como um dos encaminhamentos, ao final da atividade, durante o bloco de perguntas e respostas, Elaine Santana agradeceu a participação dos palestrantes e do público e propôs a criação de um formulário para reunir sugestões de boas práticas ambientais que possam ser incorporadas às próximas edições do CONSENGE.

“Nós vamos enviar um formulário para todos os participantes do CONSENGE, para que possamos coletar sugestões de boas práticas ambientais que possamos adotar no próximo CONSENGE”, finalizou Santana.

 

Texto: Mariana Figueiredo

Foto: Fabio Ortolan