O que o Brasil fará com suas riquezas naturais diante de um mundo em transformação energética, marcado simultaneamente pela emergência climática, pela disputa internacional por recursos estratégicos e pela corrida tecnológica? Esta é a pergunta que está no centro do livro Energia e Soberania: seremos capazes de transformar nossas riquezas naturais em desenvolvimento autônomo e bem-estar para o nosso povo? de Guilherme Estrella, ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobras e um dos nomes associados à descoberta do pré-sal. A obra foi lançada, nesta sexta-feira (28/8), durante o 14º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros (Consenge), em Belo Horizonte. O lançamento contou com a participação do engenheiro e secretário-geral da Fisenge, Clovis Nascimento; e o presidente da Fisenge, Roberto Freire; e reuniu mais de 200 profissionais.
Geólogo formado pela UFRJ, Estrella ingressou na Petrobras em 1965 e passou décadas construindo o conhecimento brasileiro sobre exploração de petróleo. Como diretor de Exploração e Produção, entre 2003 e 2012, esteve à frente da área durante o período da descoberta do pré-sal. Depois da estatal, ampliou sua atuação no debate público em defesa da soberania energética, da tecnologia nacional e de um projeto de desenvolvimento capaz de transformar recursos naturais em autonomia econômica.
No lançamento, Estrella contou alguns momentos emblemáticos de décadas de história da Petrobras, como o anúncio do presidente Lula sobre a descoberta do pré-sal. O livro resgata este histórico de pesquisa, conhecimento e investimentos maciços na produção energética, incluindo o reconhecimento internacional do Brasil na área.
O debate entre os engenheiros e o lançamento do livro ocorre em um momento em que a questão energética deixou de ser apenas um debate sobre petróleo, eletricidade ou combustíveis. A energia está no centro das disputas por desenvolvimento industrial, segurança nacional, tecnologia, minerais estratégicos e enfrentamento da crise climática, temas trazidos para o 14º Consenge.
Neste sentido, a pergunta de Estrella tem uma dimensão estratégica: seremos capazes de transformar o nosso alto potencial de produção energética em capacidade tecnológica e industrial própria? Na visão de Estrella, a engenharia nacional é um elemento estratégico do ponto de vista técnico e político, começando pela capacidade de exploração do petróleo brasileiro e de transição, até a sustentação da soberania energética. “O Brasil tem capacidade de produzir conhecimento, pesquisa, indústria, tecnologia e decisão nacional. Nós provamos isso com a descoberta do pré-sal”, exemplificou.
Segundo Estrella, “o Brasil tem toda capacidade de produzir energia mais barata e alimentar uma indústria mais competitiva, que expande e gera empregos, que por sua vez aumenta a demanda por engenheiros — fortalecendo a engenharia nacional, a capacidade tecnológica e a soberania do país”.
Projeto Nacional
Estrella defendeu a estatização do setor energético no país, mas reiterou a importância de lutar pela retomada do poder do Estado, retirados pelo Governo Temer. Ele até admite participação privada e empresas de capital misto, mas defende que, em setores estratégicos, o Estado mantenha poder de decisão, inclusive por meio de mecanismos como a golden share, que impediria a transferência de empresas estratégicas para controle estrangeiro. Defende também que política industrial e política energética andem juntas, e trata a geração de emprego como parte constitutiva da própria soberania.
A frase que resume a posição de Estrella e sintetiza a tese do livro é: “Se você abre mão do que é estratégico para o Brasil, você está abrindo mão do próprio Brasil.”
A pergunta que fica para o Brasil
Lançar Energia e Soberania num congresso que escolheu a defesa da soberania nacional como tema central, é reforçar o caráter político do debate energético como uma questão mais ampla. O Brasil tem petróleo, gás, água, sol, vento, biomassa e minerais estratégicos — e também universidades, centros de pesquisa, empresas de engenharia e uma matriz elétrica majoritariamente renovável.
“O desafio de tornar este projeto uma realidade é de toda nação. Cabe aos engenheiros e lideranças nacionais, a articulação de forças políticas comprometidas com os interesses do povo, para que a luta englobe desenvolvimento autônomo, indústria, tecnologia e bem-estar social”, destacou.
A questão é sobre decidir os rumos da própria matriz energética e tecnológica do país — ou se o Brasil continuará como uma neocolônia, apenas fornecedor de matéria-prima para o desenvolvimento de outras nações.
O 14º Consenge conta com apoio do Crea-MG e do Dieese e patrocínio da FINEP e da Mútua Nacional.
Texto: Adriana Borges – Jornalista
Foto: Camila Marins