Em janeiro, enquanto muitos aproveitavam o tão aguardado período de férias, uma professora e oito alunas do 2º ano do ensino médio de escolas públicas estaduais e uma graduanda participaram, na Uerj, da Imersão Científica 2025 do programa Futuras Cientistas. A iniciativa, lançada em 2012 pelo Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene), órgão vinculado ao Governo Federal, busca incentivar a inserção feminina nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM, na sigla em inglês). Neste 11 de fevereiro, Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, conheça o projeto da Uerj “Nanotecnologia e inovação: da mecânica à cosmética”, contemplado no edital do Cetene.

Coordenado pela professora Suzana Bottega Peripolli, o projeto conta com o apoio do Departamento de Inovação da Uerj (InovUerj) e de pós-graduandos, técnicos e docentes da Faculdade de Engenharia (FEN), do Instituto de Química (IQ) e de estudantes envolvidas no projeto de extensão “Elas fazem ciência, sim” e também de profissionais da UFRJ. “Somos poucas mulheres atuando nas Engenharias, e na Mecânica o número é ainda menor. Muitas meninas questionam se vão precisar trabalhar embaixo de um carro para fazer manutenções preventivas e corretivas, mas sabemos que vai muito além disso. Essa área abrange desde a fabricação de peças para a indústria automobilística até o estudo e modificação de estruturas de diferentes tipos de macro, micro e nanomateriais, tornando-os com maior resistência mecânica e maior vida útil, por exemplo”, explica Suzana. “As atividades da imersão evidenciam as diversas possibilidades de atuação das mulheres na ciência, ampliando seus horizontes profissionais e promovendo a equidade de gênero”, complementa.

Oficina ensinou a obter hidroxiapatita da casca de ovo

Ao longo do mês, no turno da manhã, foram realizadas atividades práticas multidisciplinares, abordando conceitos de química, física e matemática, nos laboratórios do curso de Engenharia Mecânica, no Complexo Fonseca Teles, em São Cristóvão. Por meio das aulas e oficinas, as alunas produziram batons com cera de abelha, lanolina e manteiga de cacau, conheceram os processos de fundição, corrosão e preparação de amostras metálicas e ainda observaram nanoestruturas. “Com propriedades únicas, os nanomateriais possuem dimensões extremamente pequenas, invisíveis a olho nu. Em uma parte do projeto, trabalhamos com o biomaterial hidroxiapatita (HAP), que pode ser obtida a partir da casca de ovo de galinha. Durante o processo, as meninas fizeram a coleta, limpeza e sinterização da casca dos ovos, transformando-a em um pó branco que pode ser futuramente utilizado como osso sintético em implantes dentários ou ortopédicos”, relata Suzana.

No Laboratório Multiusuário de Nanofabricação e Caracterização de Nanomateriais (Nanofab) da Uerj, as estudantes visualizaram as nanoestruturas resultantes da HAP em um microscópio eletrônico de varredura (MEV), equipamento que produz imagens de alta resolução da superfície dos materiais. “Os nanomateriais podem apresentar diferentes tamanhos e morfologias, tais como estrelas, agulhas, esferas ou elipses, cada uma com aplicações específicas. Nesse projeto, mostramos, portanto, que é possível transformar um resíduo, que iria para um aterro sanitário, em um biomaterial de alto valor agregado”, afirma a coordenadora.

Além da imersão científica, as estudantes visitaram o campus Maracanã, onde conheceram as instalações do InovUerj, assistiram a uma palestra do diretor, José Brant, e conversaram com a pró-reitora de Pós-graduação e Pesquisa (PR2), Elizabeth Macedo. Também conheceram as instalações da Biblioteca Comunitária da Rede Sirius e do pré-vestibular social do Sintuperj e ainda almoçaram no Restaurante Universitário. Após a parte prática, serão realizados encontros remotos durante o mês de fevereiro, por meio de videoaulas ministradas pela equipe do Cetene.

Em todo o país, o programa, criado pela pesquisadora Giovanna Machado, do Cetene, selecionou 470 participantes e mais 100 alunas para a banca de estudos. Em ambos os módulos, elas recebem um auxílio de R$ 600, custeado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Já as instituições responsáveis pelas atividades, como a Uerj, são beneficiadas com os materiais necessários para a execução dos projetos.

Experiência proveitosa

Marlucia Nascimento, que leciona Biologia, Química e Física em escolas públicas de Duque de Caxias, participou das oficinas, acompanhando quatro de suas alunas. “É motivo de orgulho e alegria para o professor ver o brilho nos olhos dessas meninas, que agora descobriram um mundo de possibilidades de trabalho, do qual elas também podem fazer parte, contribuindo para a sociedade”, diz.

Equipe do projeto “Nanotecnologia e inovação: da mecânica à cosmética”

Cursando Administração na Faetec, Geovanna Vitoria Teixeira da Silva, 18, nunca imaginou ter uma experiência imersiva na área de Engenharia Mecânica durante o ensino médio. “Para quem estuda na rede pública, geralmente é difícil ter aula prática, pois muitas escolas não têm laboratório. Aqui tivemos a oportunidade de conhecer pessoas e professores experientes e ‘colocamos a mão na massa’, aprendendo a fazer o que antes só tínhamos acesso por vídeo”, conta.

Segundo Letícia Lima dos Santos Amaro, 16, estudante do Instituto de Educação Governador Roberto Silveira, em Caxias, o projeto mudou sua percepção sobre a ciência. “Lidamos muito com a teoria, mas nem sempre sabemos como aplicá-la no nosso dia a dia. Com as aulas, conseguimos ver os processos e mudanças acontecendo, e assim ficamos interessadas em descobrir mais. Além disso, nós, mulheres, temos experiências e pontos de vista diferentes dos homens, logo, podemos trazer soluções distintas para problemas científicos”, argumenta.

Outra participante que também deseja seguir carreira acadêmica na área de Ciências Exatas é Maria Eduarda Alves, 17, aluna do Colégio Estadual Carlos Arnoldo Abruzzini da Fonseca, em Sepetiba, na Zona Oeste do Rio. “Considero muito importante a questão da representatividade feminina. Às vezes, temos vontade de cursar Matemática ou Engenharia, por exemplo, mas alguns dizem que ‘isso não é coisa de menina’. Porém, a ciência é, sim, um lugar de mulher”, frisa.

Já Beatriz Ribeiro Amorim Mattos, 16, aluna do Ciep 117 Carlos Drummond de Andrade Brasil Estados Unidos, localizado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, pensava em cursar Letras – Inglês / Português e se tornar professora. “Estudando em uma escola integral bilíngue, desde o começo tive como foco a área de Linguagens, mas sempre gostei das ciências, algo que considerava um sonho impossível sendo mulher. Por isso, projetos como esse da Uerj são extremamente importantes, porque abrem as portas das Ciências Exatas e Engenharias para meninas, nos motivam a ser pesquisadoras e mostram que podemos ocupar esses espaços majoritariamente masculinos”, conclui.