Falta de diálogo e transparência da Ford travam negociação em Camaçari

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A negociação entre a Ford e o Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari, na Bahia, sobre o Acordo Coletivo que trata da saída da multinacional americana do país e os impactos na vida dos trabalhadores e trabalhadoras, é sindical, política e jurídica. A falta diálogo e transparência dos representantes da montadora travam a negociação entre a empresa e a entidade.

A afirmação é do engenheiro na Ford em Camaçari e dirigente do Sindicato dos Engenheiros na Bahia (Senge-BA), Allan Yukio Hayama, que está acompanhando as assembleias da categoria de perto e também é um dos impactados. 

Segundo ele, a montadora acusa o sindicato pelo impasse das negociações e alega que a greve da categoria é ilegal, sendo que os trabalhadores e trabalhadoras não estão indo ao trabalho devido a unidade da luta em defesa dos empregos e a consciência de classe.

“Os trabalhadores e as trabalhadoras na Ford em Camaçari não estão indo ao trabalho porque entenderam a importância do protesto para não perderem seus empregos e não tem greve nenhuma, como acusa a empresa. A categoria quer trabalhar, mas a Ford não tem plano de trabalho, nem transparência e ainda fica assediando os trabalhadores e trabalhadoras para voltar a produzir sem garantia nenhuma”. Afirmou.

A multinacional americana está enviando e-mails para todos os funcionários e funcionárias, de forma individual, pedindo para que voltem ao trabalho sem explicar como se dará este retorno, quem vai voltar e como ficarão os empregos.

Segundo Allan, a empresa está desesperada e está perdendo o controle devido ao acordo que fez com o Procon São Paulo, com abrangência nacional, de que irá manter assistência ao consumidor no país, com operações de vendas, serviços, assistência técnica, peças de reposição e garantia para seus clientes.

“A Ford está tentando marginalizar o sindicato e não está sendo clara nos seus objetivos e enquanto isso o assédio moral está bem pesado contra os trabalhadores. Chefes de setores estão ligando para os trabalhadores e pedindo para voltar, inclusive os que estão afastados por doença. Além disso, estão chegando taxi nas portas das casas das pessoas para irem trabalhar e as assembleias estão sendo gravadas por drones”, afirma.

Segundo o dirigente, isso tudo mostra que a mobilização da categoria já é vitoriosa. “Além da marcação pesada da empresa nos trabalhadores, a categoria não ir trabalhar pela consciência da luta é uma grande conquista desta luta. A categoria só quer discutir um Acordo Coletivo para as negociações fluírem”.

Acordo Coletivo e a participação da CUT na luta

Os trabalhadores e as trabalhadoras da Ford em Camaçari querem uma reparação no Acordo Coletivo em vigor, que garante estabilidade coletiva até 2024, garantia de alguns direitos, como o plano de saúde, em meio a uma possível terceira onda da pandemia do novo coronavírus, e cobra da montadora a responsabilidade social, ou seja, os impactos que a saída da Ford causará no país. E isso depois de receber isenção em impostos, incentivos e bonificações do Brasil. 

“Não queremos dinheiro, queremos a reparação da Ford no acordo  que inclui as empresas terceirizadas, inclusive as que estão fora do complexo Industrial. Um pedido da CUT já integrado na proposta do sindicato, porque milhares de trabalhadoras e trabalhadores também poderão ficar sem empregos. A Ford está tratorando e colocando o sindicato numa situação complicada e não vamos permitir. Estaremos juntos na luta até que a decisão da Ford seja revertida”, ressaltou Allan.

A CUT também está em outras frentes de luta, a entidade debateu também a reindustrialização com o Consórcio Nordeste e a Central na Bahia pediu para compor a mesa de conversas que o governo do estado está coordenando para encontrar alternativas na negociação entre a Ford e trabalhadores. 

Caso de justiça

Nesta quinta-feira (18) está marcada mais uma audiência de negociação no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), da 5º Região, a partir das 10h. Na data, coincidentemente, completa 40 dias desde que a montadora anunciou o encerramento de suas atividades no Brasil.

O vai e vem das ações da Justiça do Trabalho, que uma hora determina que a Ford não pode demitir em massa até o fim das negociações e depois diz que a multinacional pode sim demitir todos os funcionários da planta baiana independente do resultado das negociações ainda é visto de forma confusa.  

O presidente do Sindicato, Júlio Bonfim, disse, em entrevista à RBA, que as empresas “parceiras” da Ford já demitiram mais de mil trabalhadores terceirizados e sem proteção nenhuma da responsabilidade social da empresa.

“Temos cinco empresas ligadas diretamente a esse processo, ligadas diretamente à Ford, que já demitiram todos os funcionários. Já ultrapassa 1.400 funcionários, sem nenhum tipo de reparação. É responsabilidade de vocês”, afirmou Júlio se dirigindo à multinacional americana.

Na semana passada, o desembargador Edilton Meireles de Oliveira Santos, do TRT baiano, concedeu liminar à empresa contra decisão de primeira instância. Mas o Ministério Público do Trabalho (MPT) informou que algumas determinações continuam mantidas. Assim, enquanto a negociação coletiva continuar, a Ford não pode efetuar dispensas coletivas, suspender pagamento de salários ou praticar assédio. Confira a nota do MPT.

 *Edição: Marize Muniz

Fonte: Érica Aragão/CUT