Entrevista: engenheiro Ricardo Canese deve assumir negociações de Itaipu

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O engenheiro Ricardo Canese é especialista em hidroeletricidade e uma das principais lideranças do Movimento Popular Tekojoja, que ajudou Fernando Lugo a se eleger como presidente do Paraguai e encerrar 61 anos de centralismo político do Partido Colorado. Canese é tido como uma das pessoas mais bem preparadas para discutir com o Brasil a questão de Itaipu. Na entrevista abaixo ele fala sobre política, Mercosul e integração energética.

 

 

Setores progressistas da sociedade latino-americana comemoraram a vitória de Fernando Lugo para a presidência do Paraguai. Dentro de qual contexto se insere essa vitória?

É uma mudança depois de mais de 60 anos de governos autoritários, corruptos e excessivamente conservadores, passando pelas mãos de oligarquias conservadoras, como também por uma ditadura que durou 34 anos. A Aliança Patriótica para a Mudança (coligação de partidos e movimentos sociais que apóiam Fernando Lugo), conseguiu importantes vitórias, no entanto há muito o que se fazer para inverter o modelo político sustentado pelas oligarquias paraguaias. Mas, o dia 20 de abril pode, sim, ser considerado uma virada histórica, principalmente para os partidos políticos e movimentos da esquerda paraguaia. Foi importante para presenciarmos o fim de um modelo oligárquico que não se sustenta mais, que não possui aprovação popular e que não garante melhorias para as pessoas. O mais importante é que Fernando Lugo é um líder muito querido no país e, neste momento, ele está aglutinando forças junto com a sociedade para realizar as mudanças necessárias para o país.

 

 

 

O Partido Colorado tem feito algum tipo de manobra para atrapalhar o bom clima do país? Que tipos de dificuldades o novo governo pode encontrar para governar?

Não nego que existam dificuldades, mas pode-se dizer que já passamos da fase de maior preocupação, que foi durante as eleições, e agora estamos vivendo um período de mais tranqüilidade no país. No momento, os movimentos populares e os setores democráticos estão em alta e o Partido Colorado está bastante dividido. Isso, de certa forma, impede que este partido dê demonstrações de força. Nós acreditamos que seguiremos o caminho correto para realizar as mudanças sociais que tanto precisamos. Estamos muito bem alinhados com os movimentos sociais, os sindicatos e partidos de esquerda, e confiantes nas políticas de cunho social que pretendem abraçar a todos os movimentos populares.

 

 

 

Com a retomada de governos progressistas na América do Sul, fica impossível não estabelecer uma relação entre Lugo e Evo Morales ou Hugo Chávez. Você vê mais semelhanças ou mais diferenças entre essas lideranças políticas?

Eu vejo mais diferença. O governo de Fernando Lugo será mais parecido com o governo Lula, no Brasil, ou de Tabaré Vasquez, no Uruguai, por causa da composição das forças políticas que governarão com ele. Nem todos são partidos de esquerda. O Partido Liberal, por exemplo, está coligado com o atual governo. Para ter governabilidade, o governo Fernando Lugo fez alianças com distintos setores que não são de esquerda, então, dificilmente, vamos conseguir avançar com um programa muito radical, porque não temos a maioria no Congresso. Mas, garantimos que será um governo democrático, que vai institucionalizar o país, vai combater a corrupção e, sobretudo, ter uma sensibilidade social que permitirá aos movimentos sociais crescerem para, então, possibilitar uma mudança mais profunda que não sairá do seio de um partido de esquerda, mas das demandas desses movimentos. Sem dúvida será um governo de identidade nacional com orientação social.

 

 

 

Em relação ao Mercosul, Lugo levantou a bandeira de um Paraguai mais atuante. De que forma o novo governo conseguirá elevar o país à igualdade com demais membros do bloco?

A igualdade, neste caso, seria algo parecido com respeito e reconhecimento de que está nascendo um governo digno. Claro que o Paraguai, por ser um país menor, que produz menos e tem menos população, não seria, ainda, capaz de competir economicamente com esses países. Mas, a Europa nos dá bons exemplos de políticas de diminuição das assimetrias entre os países da União Européia, e o Mercosul deve desenvolver mecanismos que também retrocedam as disparidades. Se não for assim, o Mercosul continuará tendo muita resistência por parte dos paraguaios. Os últimos governos não conduziram o país ao patamar que deveria alcançar dentro do bloco. São três as nossas dificuldades: somos o menor país, não temos uma saída para o mar e possuímos um índice de pobreza enorme. Somos mais parecidos com o nordeste brasileiro do que com o Uruguai, que possui uma renda per capita bem maior do que a nossa. No Mercosul, temos que começar a resolver essas assimetrias, que não são somente as diferenças entre nações, mas as disparidades dentro de cada país. A questão das dimensões de cada país também precisa ser analisada e a falta de uma saída pro mar, questão que compartilhamos com a Bolívia, se configura em um grande entrave para o nosso desenvolvimento.

 

 

 

A questão da soberania energética é crucial para o Paraguai. No Brasil, a mídia empresarial coloca o tema da hidrelétrica de Itaipu como um objeto de disputa entre os governos dos dois países. Como essa questão está sendo tratada no Paraguai e de que forma esse debate está sendo trazido para o Brasil?

Durante um Fórum, em São Paulo, que reuniu partidos políticos de esquerda e movimentos sociais, fomos amplamente apoiados. São diversas entidades demonstrando solidariedade com a causa paraguaia. A partir de 15 de agosto, data da posse de Lugo, iniciaremos conversas oficiais entre governos. Queremos tratar deste assunto com o máximo de cautela que a questão merece, não queremos que a questão de Itaipu se torne um motivo de discórdia entre os dois países ou se configure em um escândalo com repercussão internacional. No dia 1º de abril, um dia antes das eleições no Paraguai, nós fomos recebidos pelo presidente Lula, que foi bastante compreensivo com o tema ao dizer que trataríamos a questão de Itaipu com grande respeito e prioridade. Ele mesmo disse, na ocasião, que não pretende ver o Brasil crescendo às custas da pobreza de seus vizinhos. Temos que buscar um trato que seja capaz de superar um tratado que remete às ditaduras militares. Nós acreditamos em uma integração energética dentro do continente, somos os únicos com excedente de energia elétrica e podemos crescer com isso. O Chile, por exemplo, precisa de energia elétrica. Temos que tomar como exemplo a Bolívia, que possui excedente de gás e tem implantado medidas de valorização do seu potencial gasifico. Com um bom manejo entre os países, podemos sair todos fortalecidos com essa integração, não só o Paraguai. Eu te dou um exemplo: no ano passado, a Argentina perdeu quatro bilhões de dólares pela falta de energia elétrica. Com isso, tiveram que parar a indústria, ocasionando grandes perdas. Se tivéssemos uma interconexão elétrica, a Argentina poderia ter evitado uma crise neste sentido. Então, temos que criar uma proposta onde todos ganhem. Assim, poderemos obter o reconhecimento de que também estamos contribuindo para reduzir os custos energéticos das nações vizinhas. Querer alcançar a nossa soberania energética não é um desejo egoísta do Paraguai, mas uma questão de necessidade e sobrevivência.

 

 

 

O senhor não gostou do nome escolhido pelo novo governo para a direção da hidrelétrica de Itaipu. O que lhe incomoda com esta decisão?

Não foi uma objeção só minha, mas de todo o Movimento Popular Tekojoja, dos sindicatos elétricos, das frentes sociais populares e partidos de esquerda. Nós criticamos a nomeação de uma pessoa que não tem nenhuma experiência no campo energético, que nunca mostrou interesse com esse tema. Temos muitos outros nomes de pessoas comprometidas com questões energéticas, que dedicaram anos de suas vidas ao tema. Como companheiros que somos de Fernando Lugo, fizemos esta crítica. Mas foi uma decisão soberana do governo paraguaio, nós já felicitamos a Carlos Mateo Balmelli e estamos prontos para ajudar. Não o critico por ele ser membro do Partido Liberal e eu representar outro partido, tanto que falo abertamente que existem pessoas extremamente competentes neste partido para tratar de questões energéticas. Mas, estou certo que a opção por esse nome se deu mais pela sua importância como dirigente no seio do Partido Liberal do que pela sua experiência no campo energético.

 

 

 

Sabemos que muitos setores da sociedade paraguaia querem tê-lo como membro desse novo governo. Existe essa possibilidade?

Eu fui eleito para o Parlamento do Mercosul, com maior número de votos dentre os candidatos de esquerda do Paraguai. Sei que nesta função poderei ajudar o governo Lugo dentro do bloco. Nesse sentido, se Fernando Lugo me convidasse para assumir um cargo em seu governo, isto implicaria em renunciar a meu cargo de parlamentar no Mercosul. Mas, o presidente eleito me ofereceu coordenar uma equipe de renegociação de Itaipu e acho bastante razoável, pois não precisarei renunciar ao meu cargo atual dentro do bloco regional e poderei contribuir com a minha experiência para a questão de Itaipu.