No segundo dia do 14º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros (Consenge), no dia 28/8, palestras sobre o ensino da engenharia e sobre ética e tecnologia digital se encontram no mesmo ponto: a pergunta sobre a quem serve, afinal, o conhecimento que produzimos.
Formar mais engenheiros está entre as principais necessidades do Brasil se quisermos mesmo alcançar o desenvolvimento sustentável ou, ao menos, conquistar um espaço menos subserviente em tempos de neocolonialismo fascista. Estamos muito distantes de atingir este objetivo. A provocação do professor Valter Lúcio, professor da UFMG, abriu a palestra “Ensino da engenharia e inteligência artificial: formação, conflitos éticos e mundo do trabalho”, no segundo dia do 14º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros (Consenge).
Com um gráfico comparando o número de engenheiros a cada 10 mil habitantes, o professor ilustrou o tamanho do problema: mostrou o Brasil na cauda do ranking, muito atrás de China, Coreia do Sul e do Irã, país que, segundo o professor, deve parte de sua capacidade de resistência geopolítica justamente ao investimento robusto em ciência, tecnologia e matemática.
O aumento do número de formandos, no entanto, não seria suficiente, sem uma demanda de mercado que absorvesse essa mão de obra. Hoje, muitos dos engenheiros em idade laboral, não estão todos empregados, uma situação que se agravou após a política de terra arrasada praticada pela Operação Lava Jato, que dizimou as empresas de engenharia nacionais. O problema, segundo o professor, não é de demanda – o Brasil tem necessidades de sobra para a engenharia no saneamento, no transporte, na energia, nas cidades – mas de vontade política e políticas públicas. “Não há políticas públicas para absorver os profissionais, que acabam trabalhando com Uber. Os que conseguem exercer a função enfrentam situações difíceis. Precisam lutar pelo piso salarial para ganhar o mínimo e nem metade dos formados sequer fazem registro no sistema, porque não vêem perspectiva”, alerta Valter.
Uma engenharia que não pisa no barro
O número de engenheiros no mercado não é o único desafio da engenharia nacional. Segundo Valter, sequer é o mais preocupante. No centro do debate proposto pelo professor está a própria função da engenharia dentro de um contexto de país ainda tão precário em tantas áreas.
“A engenharia é feita por pessoas e para pessoas, mas a formação fundamentalmente técnica acaba afastando a maioria das importantes funções sociais da categoria. É preciso motivar nossos futuros profissionais a conhecer o Brasil. Leonardo Boff nos diz que ‘a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam’. E se nossos profissionais só lidam com a técnica, com a matemática, química, física, mas desconhece o contexto social, o lado humano. Pecamos muito nisso, que precisa ser pensado na formação. Não dá pra lidar com a engenharia apenas em termos de números, enquanto milhões de Brasileiros precisam viver de forma precária. Elas precisam da engenharia, mas ela não chega a elas”, lembra o professor.
As Diretrizes Curriculares Nacionais estão atentas e buscam corrigir este descompasso: exigem dos cursos de engenharia uma “visão holística e humanista”, a capacidade de “reconhecer as necessidades dos usuários”. Mas a responsabilidade social, na prática pedagógica, costuma ficar apenas no papel.
Para exemplificar esta realidade, Valter trouxe dados impactantes: o semiárido brasileiro, disse ele, é o mais chuvoso do mundo. Chove, em média, cerca de 700 mm por ano, mais do que em Londres. A escassez crônica de água na região, portanto, não se explica pela falta de chuva, mas pela ausência de captação e armazenamento adequados. Um cálculo simples apresentado por ele mostrou que captar apenas 1% da água de chuva do Ceará seria suficiente para abastecer toda a população do estado com os 200 litros por habitante/dia usados como referência técnica no dimensionamento de sistemas de abastecimento. O problema, concluiu, nunca foi a falta de capacidade técnica da engenharia brasileira. Ele é político.
A engenharia não pode esquecer
Valter Lúcio também trouxe para o debate um capítulo sombrio da história da engenharia brasileira: o desabamento de uma obra no bairro Gameleira, em Belo Horizonte, em 4 de fevereiro de 1971, durante a ditadura militar. Pressionados por prazos políticos, os responsáveis pela obra ignoraram relatos de trabalhadores que ouviram estalos incomuns na estrutura. Uma viga rompeu no horário de almoço, matando 69 pessoas. O engenheiro responsável pelos cálculos, Joaquim Cardoso, colaborador de Oscar Niemeyer, conhecido como “o poeta dos cálculos”, foi injustamente responsabilizado pela tragédia; anos depois ficou provado que o erro fora de execução, não de projeto. Cardoso entrou em depressão e morreu pouco tempo depois.
O professor citou ainda o incêndio do Gran Circo Norte-Americano, em Niterói, em 1961, que matou 503 pessoas, e o rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019, ilustrado pelo relato pessoal de uma engenheira que perdeu a irmã, grávida de sete meses, soterrada pela lama. Para Lúcio, ensinar engenharia exige contar essas histórias e recusar a neutralidade diante delas: “ou a gente está deturpando a forma como ensina, ou está claramente a favor do lado do poder econômico e esquecendo a população”.
Inteligência Artificial: um desafio a mais na era digital
Redes sociais que prometem conectar pessoas, mas fragmentam a esfera pública; a conexão ampliada que estimula o isolamento; a inteligência artificial que hipertrofia a estupidez humana; o aprendizado de máquinas que promove a ignorância humana; o acesso à informação que alimenta o negacionismo… a flexibilização do trabalho que esgota trabalhadores e trabalhadoras. Contradições agudas, constantes, que se aprofundam e se agigantam a cada ano. Os problemas da tecnologia subjugada à lógica econômica do capitalismo na chamada “era digital”, tema da palestra do professor Arthur Coelho Bezerra, pesquisador titular do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), dialogou diretamente com os limites da engenharia sem consciência social, trazidos por Valter antes dele. Hoje, há uma dimensão tecnológica que promove o mesmo distanciamento, mas que faz isso do bolso de cada cidadão e cidadã.
A Inteligência Artificial fornece o exemplo mais contundente dessa realidade. Arthur lembrou que, para tornar sistemas como o ChatGPT menos ofensivos e menos propensos a alucinações, empresas como a OpenAI recorreram a plataformas de microtrabalho, como a Mechanical Turk, por meio da qual pessoas são contratadas, muitas vezes no Quênia, na Índia, no Brasil ou na Argentina, pagas por hora para assistir a vídeos de conteúdo extremamente violento e classificá-los. “Essas pessoas vendem a sua saúde mental porque precisam vender. Há um fetichismo que esconde o trabalho humano por trás das máquinas, mas ele está lá, invisibilizado e mal pago, e não é pouco”, destacou.
Soberania digital em quatro pilares
Sérgio Amadeu da Silveira, da Universidade Federal do ABC (UFABC) e Jeff Xiong, da East China Normal University desenvolveram o Índice de Soberania Digital. São quatro dimensões que os países precisam conquistar: independência sobre a localização e propriedade dos dados; independência da infraestrutura digital (chips, servidores, sistemas operacionais); independência da capacidade digital (formação de profissionais que permaneçam no país); e independência da governança digital, ou seja, marcos legais capazes de regular essas questões.
Segundo Arthur, o Brasil está fraco nos quatro, mas é justamente na regulação, o pilar mais barato e mais rápido de fortalecer, que o país tem obtido os avanços mais concretos. Ele citou o Marco Civil da Internet, que se tornou referência internacional ao estabelecer privacidade, neutralidade de rede e a discussão sobre a responsabilização de plataformas, e o mais recente ECA Digital, voltado à proteção de crianças e adolescentes nas redes.
“É um assunto que consegue furar a bolha de esquerda e direita porque ninguém quer seu filho conversando com um adulto no Roblox ou no Discord, pedindo fotos íntimas, fazendo pornografia de vingança. Eu não costumo ser muito otimista, mas a Meta acaba de pagar alguns bilhões em multa após processo movido por 29 estados norte-americanos. Quero acreditar que é o início de uma nova jurisprudência. Minha esperança está nessa parte, da regulação das plataformas”, disse Arthur.
Formar gente inteira, para um país soberano
Ao final do debate, tanto Valter Lúcio quanto Arthur Coelho convergiram para uma mesma conclusão, ainda que partindo de campos de conhecimento diferentes: não existe solução puramente técnica para os dilemas que a engenharia e a inteligência artificial colocam ao país.
A engenharia brasileira tem capacidade técnica de sobra, mas falta, seguidamente, a coragem política de ouvir quem está no chão da obra, de reconhecer os impactos sobre comunidades atingidas e de resistir à pressão de prazos e lucros que colocam vidas em risco.
Da mesma forma, a inteligência artificial não é boa ou má em si mesma, mas uma ferramenta que, hoje, está subordinada aos interesses financeiros de um punhado de empresas e de um governo estrangeiro que já deixou claro, publicamente, seu alinhamento com essas plataformas. Por isso, o momento não é de rejeição às tecnologias, mas de disputa: investir em capacidade digital nacional, fortalecer a regulação e recusar o discurso de que “o futuro é inevitável” tal como ele está sendo vendido.
“A gente tem que usar essas ferramentas a nosso favor e fazer a crítica e, no limite, restringir, banir certos usos, impedir que certas coisas sejam feitas.”, finalizou Arthur. O desafio, para engenheiros e cientistas da informação, sindicalistas e formuladores de política pública, é o mesmo: garantir que o desenvolvimento técnico do país esteja a serviço da soberania nacional e da vida das pessoas, e não o inverso.
Texto: Rodrigo Mariano/Senge-RJ
Foto: Agência Movimento