Não existe país que tenha se desenvolvido sem um pesado investimento em sua engenharia nacional. Não à toa, o mercado de engenharia é um indicativo forte para a situação econômica dos países. A China é um exemplo perfeito: enquanto o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia possui 1 milhão e 200 mil engenheiros registrados, o gigante asiático forma anualmente 15 milhões e 500 mil engenheiros por ano.
“É por isso que a China é a potência que conhecemos. Por isso, também, precisamos pensar o nosso país, que tem hoje uma engenharia abandonada. Nossas grandes empresas, mundialmente reconhecidas, foram destruídas pela Operação Lava Jato. Não haverá o desenvolvimento que queremos se a nossa engenharia não tiver condições para aproveitar nossos potenciais”, destaca Luiz Antonio Cosenza, entrevistado do Soberania em Debate no último mês.
Engenheiro eletricista e de segurança, Cosenza, que presidiu o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro e foi diretor do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro, defende as obras públicas e a proteção da engenharia brasileira como o principal vetor de desenvolvimento para o setor tecnológico e construtivo e para o próprio país.
“Precisamos defender as empresas brasileiras, parar de transferir nossas tecnologias sem contrapartidas para outros países. A Petrobras, por exemplo, é pioneira no mundo na extração de óleo e gás. Foram os técnicos brasileiros, nossos engenheiros, que descobriram como ultrapassar a camada do pré-sal e chegar ao petróleo, após a desistência estrangeira de prospectar sob 7 quilômetros de profundidade. Quando entregaram as várias áreas de exploração da Petrobras para empresas internacionais, entregamos tecnologias pioneiras para o exterior sem receber nada em retorno”, aponta.
Engenharia e soberania digital
Para Cosenza, a soberania de uma nação moderna passa, obrigatoriamente, pelos bits e códigos. Ele destaca que a engenharia de software e a Tecnologia da Informação (TI) deixaram de ser áreas acessórias para se tornarem o núcleo do desenvolvimento global.
“Tudo hoje depende de TI. O desenvolvimento dos países depende dessas novas tecnologias. Precisamos apoiar as grandes mentes que estão desenvolvendo sistemas e tecnologia para que esse conhecimento fique no país”, defende.
O engenheiro ilustra o potencial da capacidade técnica nacional citando um exemplo recente: uma fábrica em Itaguaí (RJ), altamente robotizada e gerida por profissionais brasileiros, que passou a produzir equipamentos antes importados pela Petrobras. “Toda a tecnologia foi desenvolvida por brasileiros e com uma qualidade superior aos importados. Isso é tecnologia, isso é soberania”, afirma.
Para além do canteiro de obras: segurança e saúde
Um dos pontos centrais da fala de Cosenza é a desmistificação da profissão. Ele ressalta que a engenharia está presente em quase tudo, desde a precisão de um exame de ressonância magnética até a segurança das instalações elétricas. Neste contexto, ele defende um rigor maior na fiscalização e a criminalização do exercício ilegal da profissão.
“Quando um médico comete um erro, ele pode matar uma pessoa. A engenharia, em um erro só, pode matar várias. Vimos o caso dos garotos do Flamengo: foi um erro fantástico de instalações elétricas. Precisamos que a sociedade e o poder público entendam que a engenharia é tudo o que se possa imaginar, e por trás dela deve haver um profissional habilitado e valorizado.”
A preocupação com a excelência acadêmica também pautou o debate. Cosenza manifestou forte oposição aos cursos de engenharia realizados 100% na modalidade de Ensino à Distância (EAD). Para ele, a formação de um engenheiro exige vivência prática e capacidade de decisão que o ambiente puramente virtual não supre.
“Engenharia 100% EAD não existe. Precisamos de mais aulas práticas. A engenharia serve para tomar decisões; em um problema sério em uma obra ou empresa, é o engenheiro quem decide. Não se trata apenas de fórmulas matemáticas, mas de saber como agir diante de um imprevisto real”, pontua o ex-presidente do CREA-RJ, que também defende uma maior aproximação entre os conselhos profissionais, o MEC e as universidades.
Mulheres na engenharia e justiça social
Ao abordar a desigualdade de gênero no setor, Cosenza relembrou que, em sua formação na engenharia elétrica, não havia mulheres em sua turma. Embora o cenário tenha mudado, a sub-representação feminina ainda é um desafio. Ele destaca que a mudança deve ser baseada no reconhecimento da competência: “No conselho, na minha presidência, 60% dos cargos de gerência eram ocupados por mulheres, por pura competência. Elas são fundamentais para salvar instituições e gerir projetos complexos”.
Sobre o sistema de cotas, o engenheiro avalia a medida como necessária para equilibrar uma desigualdade histórica, mas ressalta que o foco a longo prazo deve ser a recuperação do ensino público básico. “O sistema de cotas minimiza a diferença entre quem tem recurso e quem não tem, mas só resolveremos isso quando a escola pública — do primário ao científico — tiver a mesma qualidade da particular.”
Desenvolvimento sustentável e o futuro da nação
Questionado sobre a pauta ambiental, Cosenza criticou a visão de curto prazo que prioriza o lucro imediato em detrimento do futuro. Para ele, a engenharia ambiental e a agronomia são vitais para que a preservação seja uma decisão de Estado. “O sistema capitalista muitas vezes só visa o lucro, sem pensar no que estamos deixando. A fiscalização deve ser implacável: quem desmata e não replanta comete um crime contra o futuro.”
Ao projetar o amanhã, Luiz Antonio Cosenza é enfático: o Brasil precisa retomar as obras paralisadas e, acima de tudo, aprender a negociar sua tecnologia. Citando uma experiência na Coreia do Sul, ele lembrou como o país asiático exigiu a transferência de tecnologia francesa para desenvolver seu próprio trem de alta velocidade.
“Se uma empresa estrangeira quer atuar aqui, vender carros elétricos ou montar fábricas, o governo deve exigir a contrapartida: para cada técnico estrangeiro, quatro brasileiros devem ser treinados para aprender aquela tecnologia. Não podemos ser apenas montadores; precisamos ser desenvolvedores. A soberania e o desenvolvimento do Brasil dependem de valorizarmos a nossa engenharia”, concluiu.
O programa Soberania em Debate, projeto do SOS Brasil Soberano, do Sindicato dos Engenheiros no Rio de Janeiro (Senge RJ), é transmitido ao vivo pelo YouTube, todas as quintas-feiras, às 16h. A apresentação é da jornalista Beth Costa, com assessorias técnica e de imprensa de Felipe Varanda e Lidia Pena, respectivamente. Design e mídias sociais são de Ana Terra e redação de Rodrigo Mariano. As entrevistas também podem ser assistidas pela TVT, Canal do Conde, e são transmitidas pelas rádios comunitárias da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – Abraço Brasil. A temporada 2026 do Soberania em Debate começa no dia 05 de fevereiro.
Fonte: Senge-RJ