14º Consenge homenageia trajetórias forjadas na defesa da soberania, da categoria e da engenharia nacional

Na luta pela engenharia brasileira e pela soberania do país, grandes nomes se destacam. São aqueles e aquelas que dedicam a própria vida à causa, que colocam a categoria e o desenvolvimento do país no centro de seus propósitos e constroem a luta dia após dia. Homenageá-los é mais que reconhecer seu trabalho diligente e militância aguerrida: é reconhecer aqueles que abrem caminho na luta, assumem a linha de frente ao longo da vida e lideram pelo exemplo.

Em suas últimas edições, o Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros (CONSENGE) tem reservado em sua programação um momento para reconhecer esses e essas militantes que se destacam. São, como disse Roberto Freire, presidente da Fisenge, “companheiros e companheiras de grande valor, pessoas imprescindíveis”.

Na manhã do sábado, 29/08, último dia do 14º Consenge, a emoção foi grande no auditório do CREA-MG, onde três engenheiros e uma engenheira receberam, de surpresa, as homenagens de seus pares. 

Um reconhecimento merecido a Luduvice pela boa luta travada nas urnas e em uma vida pública dedicada à engenharia

Henrique Luduvice acumula conquistas em sua vida pública e profissional que justificam a homenagem que recebeu. Foi presidente do Confea por dois mandatos, de 1994 a 1996 e de 1998 a 1999, do CREA DF e da Mútua. Criou o TecnoPrev, ampliando a proteção previdenciária dos profissionais. Coordenou o programa Luz para Todos, levando energia para milhões de brasileiros e atuou no programa Paz no Trânsito. Fortaleceu o sistema em todo o país, defendendo políticas de inclusão e valorização profissional para diversas categorias, tirando o sistema das sombras e aproximando-o dos profissionais.

Mas foi a recente batalha de Luduvice nas eleições pela presidência do Sistema Confea/Creas, em momento difícil para as forças progressistas não só no sistema, mas em todo o cenário de conselhos e entidades de classe das mais diversas categorias, que, somada às lutas das décadas anteriores, lhe rendeu uma moção de reconhecimento no 14º Consenge.

“Nossa moção de reconhecimento hoje vai para um engenheiro que não é, institucionalmente, da Fisenge. Não está entre nós como delegado ou observador do congresso. Mas é um companheiro do nosso campo político e da nossa organização que acabou de enfrentar uma grande batalha como nosso candidato à presidência do Confea. Honestidade, para Luduvice, não é só obrigação, é princípio. Ele demonstrou bravura e disposição para enfrentar esse sistema que não é fácil. Demonstrou firmeza para não cair nas armadilhas típicas dos cargos públicos que ocupou. Mostrou, também, prática política para ocupar os espaços na defesa da engenharia, da democracia e da soberania nacional que queremos. Viva Luduvice!”, declarou Roberto Freire, ao entregar seu diploma.

Surpreso pela homenagem, Luduvice agradeceu o reconhecimento da forma com que costuma fazer sempre que tem a oportunidade de falar para um grupo de engenheiros e engenheiras e profissionais das geociências: cobrar o compromisso de cada um e cada uma com a construção de um Brasil digno de sua vocação como nação soberana e protagonista. Um país que, segundo ele, “precisa acordar para a realidade que, sem engenharia, não há desenvolvimento. O Brasil precisa entender isso de forma definitiva. Sem Engenharia não se transforma conhecimento em tecnologia e processos produtivos”, defendeu.

Para a extração ambientalmente responsável do petróleo na margem equatorial e beneficiamento dos minerais críticos e terras raras e para a superação dos gargalos no setor energético, Luduvice lembra que as gerações anteriores nos legaram instituições e um sistema que deve ser colocado a serviço do país, para construí-lo e defendê-lo. É com elas que, ele destaca, venceremos interesses estrangeiros e aqueles que entre nós escolhem representá-los. “A defesa da área tecnológica de um país não é corporativismo, é a defesa da viabilidade de um projeto de nação. Eu me recuso a falar de engenharia apenas como uma profissão. A engenharia é muito mais do que uma profissão, é o destino do Brasil, a ferramenta que vai garantir a viabilidade de um projeto de país, assegurando para a juventude e para os nossos sucessores, uma nação soberana”, destacou.

Maria Helena Barbosa, uma revolucionário que não perdeu a ternura

“Pessoas valorosas e singulares, a gente percebe quando chega perto delas. Ela é assim: onde chega, ela é luz. Ela irradia”. Foi assim que Freire abriu a homenagem a Maria Helena Barbosa. A segunda homenageada do dia foi a “revolucionária que não perdeu a ternura”.

Engenheira Eletricista, aposentada da CEMIG, diretora do Senge-MG e da Fisenge e mãe de duas filhas, Andreia e Ana Paula, Maria Helena vem de uma família de lutadores. Sua mãe era uma artista que fazia bonecas de pano e se filiou a um partido comunista por volta dos 80 anos. Quando chegou à CEMIG, Maria Helena fundou a Comissão de Mães, lutando por creches e benefícios para as mulheres. Conquistaram os direitos e, desde então, ela não parou mais. “Grávida, ela dirigiu assembleias com centenas de trabalhadores, enfrentando o machismo e todo tipo de adversidade. Na CEMIG, atingiu o posto de gerente de recursos humanos e junto com suas companheiras de luta, era chamada de ‘vermelha’, sofrendo perseguições na empresa”, contou Freire. “Durante uma greve de fome de dirigentes sindicais por melhores condições de trabalho na CEMIG, Maria Helena, que já era dirigente, estava grávida e ficou sozinha nas negociações”.

 
Dona de um sorriso marcante e de uma personalidade que transborda carisma, Maria Helena fundou e coordenou o programa “Felicidade Interna Bruta” (FIB), reconhecido pela ONU, que promovia a humanização nas relações de trabalho, além de práticas de meditação e relaxamento. Ela também lutou pela implantação do horário corrido na CEMIG, para que a empresa adotasse a escala reduzida de 6 horas por dia, pensando no bem-estar e no tempo dos trabalhadores. Fez peças de teatro no Dia da Secretária para denunciar os assédios e lutar pelos direitos das mulheres.

A homenagem contou com afirmações de amigos que ajudaram a delinear a homenageada para os que não a conhecem: Alexandre a descreveu como “uma das companheiras mais confiáveis por quem podemos colocar a mão no fogo”. Sua amiga Zulmira disse que Maria Helena “valoriza toda relação humana e sempre está com um sorriso no rosto”. Grace, sua amiga desde os tempos de CEMIG e ida ao sindicato, confirma que ela sempre foi uma liderança e muito agregadora.

A diretora do Senge-MG, que atua pelos direitos das mulheres, das crianças com deficiência, contra as privatizações das empresas públicas e está lutando pela implementação do plano de saúde para os trabalhadores e as trabalhadoras aposentados da CEMIG, recebeu emocionada a placa das mãos de Freire.

“Quando eu era bem pequena, minha mãe levava a gente nos comícios, logo depois da missa. Foi minha irmã, comunista, que a filiou ao Partido Comunista. Na ditadura, vi ela esconder seus livros e sofrer com uma das filhas deixando o país até a anistia. Nós éramos uma família rural. Eu aprendi a ler com minha mãe, que escrevia com giz no fogão a lenha. Quando entrei na escola, já sabia ler e escrever por isso. Foi pela afinidade com um irmão que cheguei à engenharia. Tive muita dificuldade no início, com aquela engenharia dura, até ler no dicionário que a engenharia é trabalhar os conhecimentos e as forças da natureza a serviço da sociedade e eu pensei ‘eu tô dentro’”, lembrou.

Na CEMIG, quando conheceu o programa Felicidade Interna Bruta (FIB), organizou o projeto piloto dentro da empresa, em paralelo ao seu trabalho. Buscou a representante do projeto no Brasil e a levou para a companhia. Organizou os trabalhadores e as turmas foram se sucedendo em treinamentos que focavam na melhoria da qualidade de vida no trabalho. “Foram cerca de 300 pessoas treinadas e foi transformador. Criamos um círculo de afeto e confiança que precisamos nas nossas atividades políticas, que exigem muito de nós. Não precisamos ser desumanizados para sermos fortes e resistir aos ataques. Precisamos de círculos de afeto e confiança. Eu acredito muito na nossa capacidade de amar, não no sonho, no concreto mesmo”, defendeu Maria Helena que foi a homenageada indicada pelo Coletivo de Mulheres da Fisenge.

Clovis Nascimento e Olímpio Santos: a homenagem a uma amizade forjada na defesa da soberania e da engenharia nacional

No histórico de lutas e militância, as trajetórias de algumas pessoas são indissociáveis de outras. São histórias de companheiros e companheiras que, na linha de frente, encontraram um amigo/irmão e alcançaram, juntos, tantas realizações que deixaram uma marca que supera o personalismo e provam que a vida, quando acompanhada, é mais bem vivida; que a luta, quando não se está só, é mais potente.

Em 2026, o Consenge homenageou uma dessas duplas em seu encerramento. As fotos provaram: quando os cabelos ainda não eram brancos, Clovis Nascimento e Olímpio Alves dos Santos, hoje presidente e diretor de Comunicação, respectivamente, do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro e ambos ex-presidentes da Fisenge, já estavam juntos na luta contra as privatizações e o avanço do neoliberalismo, contra o fascismo e a financeirização da vida, pelos direitos dos trabalhadores, por um Brasil soberano e por uma engenharia consciente de seu papel social.

São décadas de parceria nas trincheiras da esquerda, ambos parte de um grupo de engenheiros progressistas que inaugurou a fase que o SENGE/RJ vive desde a redemocratização do país, unindo a luta sindical, pela categoria, à luta pela construção de um país mais justo, dono de si mesmo, consciente de seus algozes e ativo na batalha pela emancipação de seu povo.

No final da manhã de sábado (29/08), quando recebeu de Roberto Freire a placa que o homenageia, Clovis lembrou, bastante emocionado, como a luta colocou o amigo inseparável na sua vida: “Mesmo militando no SENGE/RJ, nós não nos conhecíamos, mas tínhamos um amigo em comum, o Cândido, que falava que ‘quando vocês se conhecerem, serão grandes amigos”. Cândido estava certo. Lá se vão 30 anos de parceria, cuidado e afeto entre os dois companheiros. Olímpio lembrou: “eu tive um irmão mais novo, que faleceu antes de eu nascer. Acho que, por isso, eu busco um irmão. E Clovis é meu irmão. Assim como a Vanessa, minha querida amiga, que trabalha comigo”.

Vanessa Abreu estava na homenagem feita a Olímpio. Coordenadora de Apoio Logístico do SENGE/RJ, ao longo de 19 anos de trabalho e parceria, eles construíram uma relação sólida de companheirismo. Freire também destacou a vida laboral de Olímpio, na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), no Ministério de Minas e Energia e na CERJ (atual Ampla). No sindicalismo, Olímpio foi fundador da Central Única dos Trabalhadores (CUT), presidente da Fisenge e do Senge/RJ, onde hoje dirige a comunicação. A homenagem fechou com um trecho de seu depoimento para o livro de 20 anos da Fisenge: “Tínhamos a certeza de que iríamos construir algo profundo. Não sabíamos o caminho, mas sabíamos o que queríamos: um sindicalismo combativo e democrático. Queríamos construir um país com igualdade, liberdade, democracia e soberania. Tivemos a coragem de mudar e fundamos a Fisenge”. Freire finalizou: “hoje, em 2026, sabemos o caminho e ele é o norte da sua trajetória: a luta! Viva Olímpio”! 

As homenagens a Clovis também voltaram à infância e adolescência, à formação, ao trabalho na CEDAE, desde 1973 e à fundação do PT e da CUT. No Senge/RJ, lembrou Freire, Clovis dirigiu assembleias, promoveu debates políticos, aliou cultura e cinema com os filmes de Silvio Tendler, lutou contra as privatizações. Na Fisenge, enfrentou um dos períodos mais duros da recente história da política brasileira. Quando foi presidente da Federação, aconteceu o golpe contra a presidente Dilma Rousseff e a aprovação das reformas trabalhista e previdenciária.

“Foi em seu mandato que teve a coragem de estampar na capa da revista da Fisenge uma charge de Latuff representando Temer puxando o tapete de Dilma. Clovis sempre foi um visionário, na vanguarda do sindicalismo brasileiro. E coerente em seus posicionamentos políticos. Jamais tergiversou na luta em defesa da engenharia, democracia e da soberania nacional. Também foi durante a sua presidência na Fisenge que levou toda a diretoria para Curitiba, onde o presidente Lula esteve preso e ali no acampamento ‘Lula Livre’ expressou e demonstrou a solidariedade revolucionária”, lembrou Freire.

O destaque, porém, estava em sua marca pessoal: a generosidade e o apoio e contribuição constantes com os movimentos sociais e as lutas da classe trabalhadora e a postura aguerrida de um verdadeiro lutador em defesa da engenharia, da democracia e da soberania nacional.

Texto: Rodrigo Mariano – SENGE/RJ

Fotos: Fábio Ortolan