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Corte nos recursos federais afeta de forma alarmante o orçamento destinado à ciência e tecnologia brasileira. Cientistas estão buscando melhores condições fora do país.

 

 Por Laura Ralola com entrevistas de Camila Marins

 

Em março deste ano o governo anunciou corte de 44% no orçamento federal destinado à Ciência, Tecnologia e Inovação. A redução de investimentos em uma área tão importante para o desenvolvimento do país preocupa especialistas, que caracterizam a ação como irresponsável e desprovida de senso de futuro. A medida compromete o incentivo à pesquisa e o funcionamento de centros e laboratórios. Em consequência, cientistas estão deixando o país em busca de condições de trabalho propícias, levando com eles importantes saberes para bem longe de nossos quintais.

O governo Temer deu indícios precoces que o incentivo à pesquisa, ciência e  tecnologia (C&T) não estava na lista de prioridades do plano não eleito nas urnas. Logo quando tomou posse, em maio de 2016, o presidente anunciou a junção do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações com o Ministério das Comunicações. A ação foi bastante criticada na época por resultar em menos atenção para ambos. No mesmo contexto, a Pec do Teto dos gastos públicos aprovada, que congela por 20 anos investimentos, fragiliza ainda mais a situação, inviabilizando futuros projetos para a inovação nacional.

O diretor do Sindicato dos Engenheiros do Estado do Rio de Janeiro (Senge - RJ), Agamenon Oliveira, define como alarmante o contexto político e econômico atual. “É uma questão da crise do Estado nacional”, enfatiza. Para ele, uma série de medidas que caminham para o desmonte de nossa soberania estão sendo tomadas. Em pouco mais de um ano, o governo Temer já representa uma série de retrocessos. Pensando especificamente na C&T, o governo levou o país para mais de uma década no passado. 

O orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações já estava em um patamar baixo antes do corte recente. O Projeto de Lei Orçamentária anunciado no fim de 2016 prometia para a área investimento de R$ 5,2 bilhões (praticamente metade do que foi investido em 2014). Em 2017 este número foi cortado em R$ 2,2 bilhões, ou seja, em 44% do orçamento previsto para o ano.

Foi no contexto dos cortes em C&T que a pesquisadora Suzana Herculano-Houzel optou por deixar o país. O desmonte da produção científica e tecnológica está levando muitos pesquisadores a, assim como ela, buscarem alternativas no exterior, com o intuito de garantir a continuidade de suas pesquisas. Suzana é mundialmente conhecida por seu trabalho de pesquisa em neurociência e há alguns meses, impossibilitada de dar continuidade à pesquisa no país, migrou da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para a Vanderblit University, nos Estados Unidos. O caso de Suzana ganhou repercussão e intensificou a discussão sobre o fenômeno chamado de Fuga de Cérebros, que se fortalece no atual cenário. 

 

CORTES DRÁSTICOS

O orçamento em queda do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações nos últimos anos. Despesas MCTIC (bilhões de reais). 

Vermelho: Proposto.

Verde: Gasto.

 Uma ‘fuga de cérebros’ ameaça o Brasil e a soberania nacional

 

Fonte: Reportagem Nature, principal revista de conhecimento científico do mundo, publicada em abril de 2017. 

http://www.sbq.org.br/noticia/brazilian-scientists-reeling-federal-funds-slashed-nearly-half

 

Ciência, tecnologia e desenvolvimento nacional

A saída de cientistas e pesquisadores do país representa uma enorme ameaça à produção nacional do conhecimento. Em entrevista à Fisenge a Presidente de Honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Naider, afirmou que conhecimento significa hoje desenvolvimento econômico e social. “Significa produção de riqueza, ou seja, lucro para as empresas, salário para os trabalhadores e impostos para o governo; significa garantir a qualidade de vida das pessoas”. Para Helena, a principal fonte de sustentação de uma economia está no desenvolvimento e aplicação do conhecimento científico e tecnológico. “O mundo vive hoje a economia do conhecimento”, completa.

De acordo com o ex-Ministro de C&T, Clélio Campolina, ciência e tecnologia são fundamentais para um projeto de desenvolvimento nacional. Para ele é necessário não apenas apoiar e incentivar a produção científica, mas também “fazer a ponte da produção científica com as políticas públicas e sistema produtivo”. Agamenon Oliveira aponta que a ciência está diretamente ligada com a própria tecnologia. Isso quer dizer que as tecnologias são, em grande parte, aplicações de conhecimento científico. “O próprio desenvolvimento da ciência fertiliza o desenvolvimento tecnológico”, explica.   

Campolina acredita que a engenharia possui um papel central na construção de um projeto de desenvolvimento. De acordo com ele, “toda a base material depende do avanço da C&T, e a engenharia é a instância que operacionaliza concretamente todo esse avanço científico e tecnológico do ponto de vista produtivo”. 

Agamenon aponta os trabalhos realizados pela Petrobrás e importantes centros de pesquisa, como, por exemplo, o Instituto Luiz Alberto Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da UFRJ. “Somos hoje liderança na área de petróleo e gás e isso é um reflexo de investimento em C&T”, afirma. Os trabalhos realizados pela Petrobrás e institutos de pesquisa se tornaram referências mundiais e são, segundo o engenheiro, fundamentais para o desenvolvimento na área. O ex-ministro Campolina enfatiza que o Brasil mostrou competência científica e tecnológica em relação ao petróleo, que deveria ser uma prioridade social. 

De acordo com Helena, mesmo a geração de produtos primários exige, hoje, a participação intensa da ciência e da tecnologia. A professora cita como exemplo o crescimento da produção brasileira em alimentos, resultado do trabalho da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), juntamente com as faculdades de agronomia, zootecnia e veterinária. “Há trinta anos, importávamos alimentos; hoje, somos um dos maiores produtores e exportadores mundiais”, aponta. Ainda para a professora, o governo está cometendo o equívoco de considerar educação e ciência, tecnologia e inovação como despesas, e não como investimentos. Ao limitar bruscamente os investimentos em ciência, o governo joga o Brasil para o retrocesso econômico e social.

 

Desmonte das instituições de pesquisa

Desde que os cortes se intensificaram, a situação se alarma em universidades, laboratórios e centros de pesquisa espalhados pelo país. A crise na ciência pode ser percebida em nível nacional com redução do quadro de bolsas, liberação de recursos a conta gotas, sucateamento de laboratórios e até mesmo projetos já aprovados estão tendo seus orçamentos reduzidos. 

De acordo com Paulo Lyra, professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), C&T não pode ter descontinuidade, pois isso “gera desmonte de equipe e impasses no planejamento, colocando em risco o estudo como um todo e representando enorme perdas para avanços científicos e tecnológicos do país”, aponta o professor. Rita Ferreira, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), também relata problemas com os cortes governamentais para a Educação Pública Superior na instituição.

O orçamento em queda do MCTIC ameaça o trabalho de importantes laboratórios que atuam nas mais diversas áreas. O Brasil possui hoje importantes centros de pesquisa, como o Centro Nacional de Biologia Estrutural e Bioimagem, a Fundação Oswaldo Cruz de Recife, que vem realizando necessárias pesquisas sobre o Zika Vírus, o Centro de Pesquisa da Petrobrás (CENPES) e o Centro de Pesquisa de Energia Elétrica (CEPEL), dentre tantos outros.

O programa Ciências Sem Fronteiras teve seu fim anunciado em março de 2017, após cinco anos de atividades. De acordo com o portal oficial do programa, foram mais de 73 mil bolsas de graduação e 9 mil de doutorado concedidas. Neste mesmo contexto, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) vive a maior crise de sua história. Desta forma, fica realmente complicado para o pesquisador fazer ciência no país. 

Quem se beneficia com o desmonte da produção científica e tecnológica?

A existência de um sistema dinâmico e robusto de geração de ciência, tecnologia e inovação é, para Helena Naider, um traço que caracteriza os países desenvolvidos, juntamente com um sistema educacional eficiente e universal. A professora enfatiza que as atuais medidas distanciam o Brasil desses países, que investem cada vez mais em C&T. Ela afirma, ainda, que a brusca limitação de investimentos afeta a dignidade dos pesquisadores: “seremos impedidos de trabalhar com um mínimo de condições e com certeza olhados com comiseração e pena pelos cientistas de todo o mundo”.

Helena menciona o caso da China, que, diante de uma crise econômica, optou pelo incentivo à C&T, entendendo ser esta uma plataforma importante para alavancar a economia do país. De acordo com Agamenon, empresas chinesas estão bastante interessadas na compra de ativos brasileiros, especialmente nos setores de energia, transporte e agronegócio. “As empresas chinesas têm um interesse estratégico na região [norte/nordeste], buscando montar um enclave que ameaça a soberania nacional”. 

A crise que o Brasil vive gera, por fim, oportunidade para outros países. O desmonte da produção científica e tecnológica compromete a autonomia nacional. Significa entregar nossos recursos ao capital estrangeiro para que façam por nós algo que temos condições de fazer. “O comportamento do mercado internacional é extremamente capitalista e quem sai perdendo é o consumidor, já que as empresas chegam visando lucro e implementando o que lhes for conveniente”, aponta Agamenon.

Campolina afirma que a situação é conturbada e que é difícil prever os acontecimentos. Para o ex-ministro, entretanto, é justamente na crise que temos que construir a busca de saídas e alternativas. “Conseguiremos resultado se mobilizarmos a sociedade. Não adianta uma reflexão acadêmica, teórica, de forma isolada. Ela tem que ganhar a sociedade e as ruas, em termos de mobilização, para que se viabilize”, enfatiza.

Neste contexto surge a campanha Conhecimento Sem Cortes, mobilizada por cientistas, estudantes, professores, pesquisadores e técnicos. Lançado em junho deste ano, o principal objetivo do movimento é denunciar o desmonte das instituições de pesquisa por consequência das reduções do orçamento e buscar o apoio da sociedade para reverter o cenário.

A campanha é uma realização da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (AdUFRJ), o Sindicato dos Institutos Federais do Rio de Janeiro (Sintifrj), a Associação dos Professores da Universidade Federal de Minas Gerais (Apubh) e a Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), em parceria com várias organizações, dentre elas a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Apesar das pistas e indícios, a ciência não é um campo certo em termos de resultado, não é possível prever o resultado de um estudo. Ciência só se faz com muita pesquisa e dedicação, e não se faz pesquisa sem financiamento. “Às vezes se estuda algo por vinte ou trinta anos e não se chega a resultado nenhum. O que é, por si, um grande resultado”, explica Agamenon. 

Para chegar às respostas, é necessário focar nas perguntas. A qualidade dos investimentos vai determinar as descobertas. As perguntas precisam ser boas e estimuladas para que encontremos respostas precisas. 

 

Uma ‘fuga de cérebros’ ameaça o Brasil e a soberania nacional

Crédito foto: Fotos Públicas

 

 

 

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Empoderar e dar visibilidade às mulheres negras e indígenas nas áreas tecnológicas. Este é o objetivo da Pretalab, uma iniciativa que utiliza a tecnologia como ferramenta de transformação social, buscando mudar o que está culturalmente associado às mulheres negras e indígenas, no Rio de Janeiro. De acordo com Silvana Bahia, comunicadora social e diretora de projetos do Olabi, depois de perceber a baixa representação de mulheres negras e indígenas na tecnologia, as fundadoras da organização social sentiram a necessidade de alterar essa realidade. Isso porque, das 19 mulheres citadas na história científica no Brasil, nenhuma é negra; apenas 10 mulheres negras se formaram na Escola Politécnica da USP em 120 anos; e 4% é o percentual de negras entre as fundadoras de startups de tecnologia comandadas por mulheres nos EUA. O projeto PretaLab possibilita o mapeamento e a participação de mulheres negras e indígenas na área de tecnologia, fazendo uma rede de colaboração, além de oferta de oficinas como o WordPretas, em parceria com "minasqueprogramam".

Por Camila Marins (jornalista Fisenge)

 Como surgiu a Pretalab?

 A Pretalab é uma iniciativa do Olabi - organização social com foco na promoção da diversidade na produção de novas tecnologias. Nós nascemos em 2014 com a missão de democratizar o acesso às ferramentas e às máquinas de fabricação digital, partindo da ideia de que a inovação está na mão de quem tem as ideias, e não apenas nos grandes centros de pesquisa. Em 2016, já tínhamos a ideia de criar um hub [centro] para mulheres negras trocarem saberes em tecnologia. Só que não conhecíamos mais do que dez meninas negras no Rio de Janeiro que trabalhassem no campo da inovação e tecnologia, considerando os limites da nossa bolha. Decidimos mudar de estratégia, porque, quando começamos a pesquisar dados sobre gênero e raça nas tecnologias, vimos que esse recorte interseccional não é feito nas pesquisas, geralmente. Hoje, temos muitos dados sobre mulheres nas tecnologias (o que é muito bom), mas é complicado olhar para essa questão sem a interseccionalidade que ela demanda, sobretudo quando falamos de Brasil - o último país a abolir a escravidão. A gente olha para os dados do levantamento feito pelo grupo Poligen da USP que diz que em 120 anos a Escola Politécnica da USP não formou nem 10 mulheres negras, mas quando a gente pensa que esse ano completou 130 anos da abolição, a gente entende por que é impossível a USP formar mais mulheres negras em 120 anos.

 

Hoje, a Pretalab é uma iniciativa com dois objetivos gerais: levantar dados sobre mulheres negras e indígenas nas tecnologias a partir de um mapeamento colaborativo na rede e uma ação de comunicação: estamos fazendo dez vídeos para a internet com meninas e mulheres que consideramos referência nesses campos para inspirar outras meninas e para que elas possam considerar esse universo para elas também.

 Como você avalia a participação de mulheres negras e indígenas na produção de ciência e tecnologia?

 Sabemos que somos poucas, mas sabemos que existimos. Porém quando a gente não tem informação ou dados é difícil até dizer que existimos. No final do dia, o que a gente quer é levantar essa pauta e influenciar políticas de acesso e permanência dessas mulheres, no mercado de trabalho ou em instituições de ensino formal. Acreditamos no protagonismo de negras e indígenas nesses campos, porque sabemos que existem muitas de nós produzindo e usando tecnologias para diferentes fins.

 Temos uma teoria de que essa ausência está ligada diretamente a dois fatores: falta de acesso e referência. Acesso porque estudar no Brasil é privilégio e aqui classe tem cor. Dentro do guarda-chuva “acesso” também estão questões econômicas e de língua. A maioria desses conteúdos é em inglês e sabemos que poucos são os pobres que falam outro idioma em nosso país. É muito difícil você imaginar algo ou atuar em algum campo que você não vê ninguém parecido contigo. Normalmente, esses lugares techs estão destinados aos filhos e às filhas dos patrões. Para nós, negras e indígenas, ter a profissão de empregada doméstica é um destino quase certo. Minha avó era empregada doméstica, minha mãe é empregada doméstica. Costumo dizer que contrariei as estatísticas quando não me tornei uma.

 As mulheres ainda são minoria nessas áreas ainda predominantemente masculinas. Que iniciativas podem contribuir para a inclusão?

 A primeira iniciativa é olhar para essa questão e discutir muito, tanto no campo profissional como no campo da educação. Não é possível a sociedade achar normal só ver homens brancos ocupando esses espaços. É só a gente olhar para esses eventos de tecnologia e inovação, normalmente quem está nas mesas discutindo são homens, brancos e de classe média alta. De alguma forma isso hoje está mudando, embora precisemos avançar muito. Mas também acho que, mesmo entre as mulheres brancas, tem que existir uma solidariedade para que as mulheres negras estejam lá também e isso se passa primeiramente por olhar essas questões. Nós, negras, somos a base da pirâmide social, lideramos os piores índices quando o assunto é mercado de trabalho, saúde e educação. Somos as mais desempregadas, as que mais morrem em situação de partos, feminicídio, entre outros índices que são tão tristes e me deixam angustiada. Isso significa que ser mulher é um guarda-chuva mais amplo do que parece e dentro dele existem muitas camadas. Mulheres negras não são todas iguais, precisamos reconhecer a diversidade que existe quando usamos essas categorias.

 Qual a importância da apropriação das tecnologias?

 Hoje, o mundo é cada vez mais digital. Não voltaremos ao analógico. E se a gente não entender minimamente os processos em que estamos inseridas, isso nos deixa com muita desvantagem. Essas desvantagens são fruto de um processo histórico e precisamos olhar para elas. Não é uma ou duas iniciativas que vão dar conta de resolver o todo, mas podemos influenciar esse olhar e as pessoas para que pensem “fora das caixinhas”. Mesmo quando a gente não se considera alguém das tecnologias é preciso entender que na contemporaneidade estamos o tempo todo lidando com elas, seja na rede social ou na nota fiscal de uma compra na farmácia. Estamos gerando dados e informações sobre nossas vidas a todo tempo, mas a quem servem esses dados?

 Além disso, todas as tecnologias que usamos, desde os aplicativos às redes sociais, são desenvolvidas por pessoas que carregam visões de mundo, culturas. Todas as tecnologias são dotadas da visão de mundo e cultura de quem as cria. Então, não existe neutralidade. Se só usamos coisas feitas por homens, brancos e de classe média como poderemos ser entendidas nas nossas completudes? O que pode mudar quando as tecnologias são desenvolvidas por pessoas negras, trans, deficientes? É essa pergunta que norteia boa parte do que fazemos no Olabi, mas ainda estamos numa fase de mais perguntas do que respostas.

De que forma as mulheres engenheiras podem contribuir?

Primeiro de tudo é reconhecendo que existem essas diferenças dentro dos feminismos e que a questão de raça/etnia também é uma categoria social que exclui muitas mulheres. Segundo, fortalecendo outras meninas e mulheres que estão a fim de entender mais sobre esse universo, para que possam se inspirar e fortalecer esse movimento.

 Projeto dá visibilidade a mulheres negras e indígenas na área tecnológica

Crédito Foto: Divulgação/Olabi MakerSpace

 

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O estrangulamento da rede federal de ensino superior e de institutos de pesquisa por meio de cortes no orçamento já defasado, para beneficiar o mercado financeiro privilegiado pela política de Michel Temer (PMDB) está levando o país a um franco retrocesso. E mesmo tecnologias que o país já domina há tempos, como vacinas, por exemplo, podem vir a ser sucateadas e a ponto de inviabilizar a produção. E o país voltará a ser totalmente dependente de tecnologia estrangeira, mais cara, e seguirá na contramão de países avançados que investiram no setor como saída para a crise.

‘Voltaremos a depender totalmente de tecnologia estrangeira’, diz presidente da SBPC

É o que teme o novo presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ildeu de Castro Moreira, que tomou posse na última quinta-feira (20). Físico, professor e pesquisador do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele participou dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff à frente do Departamento de Popularização e Difusão da C&T do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação de 2004 a 2013.

Segundo Ildeu, o orçamento deste este ano, defasado, que sofreu ainda contingenciamento de 44%, é de R$ 2,5 bilhões e corresponde a 25% do orçamento de 2010. E com a Emenda Constitucional 95/2016, que congela investimentos federais em saúde, educação, ciência e tecnologia, entre outras áreas estratégicas, o panorama é desanimador.

Reportagem da TVT

"Programas estratégicos, conduzidos nos institutos nacionais de pesquisa e em universidades, correm sério risco. Dos 252 existentes, apenas 101 têm sido contemplados. A expectativa é dramática porque está em risco a continuidade de pesquisas. Muitos jovens que estão se formando ou vindo de especialização não têm onde ingressar", disse.

O desafio da SBPC, segundo ele, é reverter esse quadro por meio do descontingenciamento dos recursos e de melhorar o orçamento de 2018 – uma luta sobretudo política. E assim conseguir retomar o trabalho que vinha sendo feito.

"O Brasil reagiu de maneira rápida ao surto de microcefalia causado pelo zika vírus porque tem competência científica em várias áreas, como vacinas, por exemplo. Competência que vinha sendo estimulada nos últimos anos, quando a ciência produzida no país aumentou, assim como o número de doutores e de pesquisas publicadas literatura científica internacional."

A entidade criada em 1948 e que teve papel de destaque na resistência contra a ditadura civil-militar, com muitos de seus dirigentes presos e exilados, percorre atualmente gabinetes de deputados e senadores em busca de apoio para a derrubada dos cortes orçamentários.

Além da questão de financiamento, Ildeu destacou os ataques à autonomia universitária e lembrou a proposta que descaracteriza totalmente a Universidade Federal de Integração Latino-Americana (Unila). Criada no governo de Luiz Inácio Lula da Silva para produzir conhecimento em prol do fortalecimento regional, a universidade está na mira de uma emenda que poderá transformá-la em universidade voltada aos interesses do agronegócio. A proposta inclui a anexação de dois campi da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A assembleia geral da SBPC aprovou moções de repúdio à proposta, bem como de apoio a outras universidades públicas, como a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Fonte: Rede Brasil Atual

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Estudo divulgado, no dia 22/6, pela Editora Elsevier, considerada referência em produção científica no mundo, revela que Brasil e Portugal têm os maiores percentuais de participação feminina na produção científica dos países: 49%, considerando o quinquênio 2011-2015. No caso brasileiro, houve um crescimento significativo na comparação com 1996-2000, quando 38% da pesquisa do país eram feitos por mulheres.

O estudo Gender in the Global Research Landscape (Gênero no Cenário Global de Pesquisa, em tradução livre) mede o desempenho da pesquisa e representação de gênero em 12 países ou regiões geográficas (somente a Comunidade Europeia tem 28 países) e 27 disciplinas.

“O Brasil evoluiu bem em termos de presença feminina na pesquisa científica. No primeiro quinquênio pesquisado, já havia uma participação importante e nesse último quinquênio, a participação feminina pulou para 49%, colocando o Brasil em primeiro lugar junto com Portugal”, disse o vice-presidente de Relações Acadêmicas para a América Latina da Elsevier, Dante Cid.

Segundo ele, a participação das mulheres na pesquisa científica tem crescido em todas as regiões analisadas. No Brasil, está “praticamente com empate técnico” em relação aos homens, que aparecem com 51%. Nesse último quinquênio, o país que ficou mais abaixo em termos de participação feminina foi o Japão (20% contra 80% de presença masculina), embora o número de pesquisadoras tenha evoluído em comparação ao quinquênio analisado anteriormente (15%). “Mas ainda é bastante baixo por questões culturais, profissionais locais. Já o Brasil está conseguindo equilibrar bastante essa questão.”

Entre 1996 e 2000, nos 12 países ou regiões estudados, apenas em Portugal o percentual de participam mulheres na produção científica superava 40% do total. Já no período 2011-2015, nove países ou regiões mostraram participação de pesquisadoras igual ou superior a 40% (Austrália, Brasil, Canadá, Dinamarca, União Europeia, França, Portugal, Reino Unido e Estados Unidos). De acordo com o estudo, apenas Chile, México e Japão têm participação de mulheres na produção científica abaixo desse percentual.

Disciplinas

A análise feita por disciplinas revela que a presença feminina na pesquisa científica é muito maior que a masculina no Brasil em áreas ligadas à saúde, como medicina, bioquímica, genética, odontologia e enfermagem. Já os homens são maioria nas ciências exatas, entre as quais engenharia, física, computação, energia e ciências econômicas.

Segundo Dante Cid, entre as pesquisadoras da base de dados da Elsevier, 24% se dedicam à medicina; entre os homens, esse percentual é de 17%, ou 80,6 mil mulheres e 65 mil homens, em números absolutos.

Por causa desse perfil, o representante da Elsevier calcula que no próximo quinquênio a ser analisado, a participação de mulheres na produção científica brasileira deve ultrapassar de homens, em especial na área de saúde. “É muito possível que o percentual de mulheres no futuro próximo venha superar o dos homens."

De acordo com a diretora da Academia Brasileira de Ciências (ABC), a doutora em física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Márcia Barbosa, a menor presença feminina na área das ciências exatas é um fenômeno mundial. “Eu descobri que era um ET[extraterrestre] no primeiro dia na faculdade de física”, lembrou. Dos 40 alunos no curso, segundo ela, quatro eram mulheres, mas apenas ela se formou.

Para a pesquisadora, as origens da baixa participação das mulheres nas áreas exatas está relacionada à maneira como se educam e ensinam as crianças, que associam desde pequenas máquinas e equipamentos a atividades masculinas, ao passo que as mulheres são ensinadas a ser mais sociais e a não serem vistas como “nerds”, pessoas muito dedicadas aos estudos.

Patentes

O estudo constatou também que a presença feminina em relação a patentes é muito baixa no mundo inteiro. “Não chega a 20%”, destacou Cid. O país que tem presença maior feminina neste setor é Portugal, com 26%. O Brasil aparece em segundo lugar, com 19%, contra 11% no quinquênio anterior, superando países como França (17%), Estados Unidos (14%), Reino Unido (12%), Austrália (12%).

Igualdade

Na avaliação da diretora da ABC , o crescimento da participação feminina nas publicações científicas é um bom sinal para as pesquisadoras brasileiras.

“Significa que as coisas, lentamente, estão melhorando, mas, ao mesmo tempo, ainda não refletiu no poder. A gente está em igualdade de posições entre as pesquisadoras, mas o grande desafio é tentar manter essas pesquisadoras no mercado de trabalho, na medida em que avançam na carreira”, ponderou.

Segundo Márcia, é preciso estimular a presença e permanência de mulheres na produção científica. “Ter mais diversidade, pessoas com culturas diferentes, traz ideias novas para o ambiente de trabalho”, destacou. “O que a gente precisa fazer agora é manter essas mulheres no ambiente de pesquisa, viabilizando que elas possam crescer na carreira”, acrescentou.

Edição: Luana Lourenço
Foto: Marcello Casal/ Agência Brasil
Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

Brasil e Portugal têm maior percentual de mulheres na produção científica

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Dados divulgados pelo coletivo Poligen, grupo de estudos de gênero da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), apresentam uma dura realidade. Em 121 anos de existência, apenas sete mulheres negras se formaram na faculdade de Engenharia da USP. Entre as 19 pioneiras da ciência brasileira homenageadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), nenhuma era negra.

Quando o assunto é remuneração, elas também são as mais desfavorecidas. De acordo com dados de estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2016, as mulheres negras ganham um salário 40% mais baixo que o de homens brancos. Os números divulgados são da pesquisa Mulheres e Trabalho: Breve Análise do Período 2004-2014, e mostram que, apesar de a situação ter melhorado, essa parte da população ainda é a que recebe menores salários.

Projeto luta para a inclusão de mulheres negras em áreas da tecnologia

Diante desse quadro, a Olabi, empresa focada em criatividade e tecnologia para a inclusão social, criou o PretaLab. A iniciativa, lançada oficialmente em março deste ano e idealizada por mulheres negras, tem como principal objetivo realizar um levantamento sobre a participação de negras e indígenas nos campos de inovação e tecnologia.

A pesquisa, que coletará histórias de diversas mulheres, criou um formulário em seu site. De acordo com as organizadoras, com tão poucos dados disponíveis sobre a participação de mulheres negras na tecnologia, fica difícil criar ou orientar políticas públicas de inclusão de gênero e racial. Além de engenheiras e profissionais da computação, são convidadas a participar do projeto profissionais de outros campos da informação, como cientistas de dados, youtubers e analistas de mídias sociais.

Em geral, a participação de mulheres em cargos relacionados à tecnologia está longe do ideal. Conforme levantamento feito pelo Ministério da Educação em 2013, apenas 15,53% dos ingressantes em cursos relacionados a computação e tecnologia são mulheres.

Globalmente, o problema é similar: estudo realizado pela revista Harvard Business Review indica que as mulheres compõem 41% dos empregos ligados a tecnologia e ciência nos Estados Unidos. No entanto, 52% delas abandonam a área — o ambiente machista é um dos principais fatores que as levam a desistir de seus empregos.

Fonte: Revista Galileu

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O III Simpósio SOS Brasil Soberano, realizado na quinta-feira (8), em Belo Horizonte (MG), teve entre os palestrantes Clélio Campolina Diniz, engenheiro mecânico e de operação, ex-reitor da UFMG e Ministro de Ciência e Tecnologia e Inovação em 2014, durante o governo da presidenta Dilma Rousseff (PT). Na avaliação de Diniz, diante o cenário de crise mundial, “o capitalismo formal fracassou e o futuro está politicamente indeterminado”.

“No meu entendimento o capitalismo é um produto histórico, e tudo que é produto histórico tem um fim histórico. A grande pergunta é quando ele será destruído, em quanto tempo e o que virá no lugar. Eu acho que isso é uma tarefa nossa. Nós temos que encontrar a saída”, provoca.

“O capitalismo formal fracassou”, diz ex-ministro de Ciência e Tecnologia

Segundo o ex-ministro, a crise estrutural internacional contemporânea é profunda e diferente das anteriores, pelas seguintes características: o desemprego é estrutural; há uma proliferação de armas e guerras – e as guerras nunca ocorrem nos territórios das potências dominantes, que sempre estão no ataque; a imigração ocorre em massa, mostrando o colapso das antigas colônias; há um avanço do fundamentalismo religioso, com novas formas de conflito; a corrupção é generalizada; a concentração de renda cresce e se converte em um problema até para o capitalismo, que precisa de mercado; os problemas climático e ambientais se aprofundam; e a insegurança digital avança, a exemplo do que aconteceu nas eleições americanas e a desconfiança de que houve interferência da russa.

“Os paradigmas de sociedade que estão aí estão superados. A história não anda para trás”, completou.

Geopolítica mundial

Em sua explanação, Diniz apresentou dados e análises sobre o cenário mundial de crise política e econômica, e da fragilização do modelo capitalista. O engenheiro mostrou mapas mundiais com a comparação do tamanho dos territórios, dos PIBs e da população. A desproporção das imagens demonstra a centralidade destes três fatores para a análise global. Quando o fator em jogo é o PIB, o mapa da escala geográfica, conhecidos nos mapas tradicionais, incha da metade norte e encolhe no sul do globo. Já com quando o recorte é o tamanho da população, a Ásia se destaca. “São variáveis importante para discutir uma geopolítica do mundo”.

Europa Ocidental, Japão e EUA concentram 78% do PIB mundial e 64% das exportações, enquanto ocupam apenas 13% da área global e têm 12% da população.

Diniz chama atenção para o crescimento da China no que diz respeito ao PIB e às exportações. Com relação ao PIB, a potência saiu de 1,6% em 2000 para 9,8% do ranking global em 2014. O Brasil, no mesmo período, passou de 0,8% para 2,1%. Nas exportações, os chineses comprovam a intencionalidade dos investimentos na indústria: em 2000, o índice era de 0,6%, e 14 anos depois chega a 33,5%. No Brasil, o crescimento foi de 0,1% em 2000 para 1,1% em 2014.

No ranking de exportação de manufaturas, a China passa da 6ª posição em 2000, com 4,7%, para a 1ª posição, com 18,8%, em 2015. O mesmo se repete com a produção de manufaturas, em que o país ocupa o topo da lista, com 19,8%.

No Brasil, os setores mais sofisticados tecnologicamente são os que mais estão perdendo com a crise, de acordo com o Diniz. “Voltamos a ser um exportador de produtos primários”, lamenta. Segundo ele, neste período ficam evidentes as marcas escravidão, de um campo com concentração fundiária e com agricultor sem-terra, e de um Estado patrimonialista e cartorial.

A ciência e a tecnologia, na avaliação do ex-ministro, não servem para o bem da vida, e sim tem sido, ao longo da história do capitalismo, armas de competição. “Se nós vamos ser capazes de dominá-la, eu não sei”.

Saídas

Como bases para uma mudança de paradigmas da organização do Estado, Diz aponta a necessidade de garantir bem estar material, justiça social, sustentabilidade ambiental e soberania dos povos. Mas alerta para a necessidade de um planejamento estrutural e intecionalizado, que leve em conta a complexidade da sociedade brasileira, e que seja aplicado com um processo em constante avaliação e adaptação.

Entre as mudanças estruturais mais urgentes, aponta a reforma do Estado por meio de uma Constituinte, feita com participação popular. A reforma tributária deve passar a onerar mais as faixa da população com maiores rendimentos, e não o contrário, como ocorre no sistema atual.

Educação básica integral e de qualidade é outra proposta de Diniz, para o avanço em “igualdade de condições”. Na avaliação dele, manter a qualidade da educação precária é parte de uma estratégia de submissão. “O dia que você resolver a educação básica, você deixa de ter serviçais”.

O problema habitacional e de mobilidade urbana também precisa ser enfrentado. De acordo com pesquisas feitas a partir da renda de capitais brasileiras, o pesquisador constata uma profunda desigualdade: o rendimento médio da população do centro é 20 vezes maior do que a da periferia. A disparidade se repete quanto o índice medido é o de educação.

Diniz sugere uma reorganização territorial do país, com a criação de “policentros urbanos” nas regiões ainda não urbanizadas. Hoje com a densidade demográfica urbana está concentrado na faixa litorânea. E cobra o desenvolvimento de infraestruturas a partir do interesse público: “A infraestrutura não pode ser feita pela lógica do mercado, tem que ser para o bem da sociedade”. Para a reforma estrutural do Estado, aponta a convocação de uma Constituinte como essencial.

Diante do cenário de crise e da necessidade de construção de novas alternativas para a democracia brasileira, Diniz cobra uma autoavaliação sincera por parte das forças progressistas: “A gente tem que fazer autocrítica também, se não nós não vamos construir soluções. É desagradável, mas nós temos que fazer”.

“Nós temos que ser dialéticos na análise e cartesianos na ação. Nós temos que discutir os problemas, identifica-los, mas nós temos que politiza-los e partir imediatamente para a busca de caminhos de ação. Ou ficamos no nível do discurso, sem conseguir concretizar”, conclui.

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Por Ednubia Ghisi, do Senge-PR / Foto: Alessandro Carvalho

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No dia 4 de maio, o Brasil lançou o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas. O Sistema SGDC é um projeto estratégico nacional desenvolvido no governo Dilma, pela Telebrás, juntamente com os Ministérios das Comunicações, da Defesa e da Ciência e Tecnologia, dentro de uma visão pública de contribuir no enfrentamento da desigualdade social e promover a inclusão digital no Brasil.

Atualmente, os 50 satélites que prestam serviço no Brasil ou são controlados por estações que estão fora do país ou estão nas mãos de empresas com capital estrangeiro. O atual governo federal, do golpista Michel Temer, quer entregar 80% da capacidade desse sistema à iniciativa privada. 

O projeto inicial do SGDC previa:

1) Levar banda larga às regiões mais carentes que são precariamente ou não são atendidas por redes terrestres. Hoje existem cerca de dois mil municípios distantes e isolados.

2) Permitiria a conexão em alta velocidade nas escolas rurais e escolas da periferia das grandes e médias cidades.

3) Garantiria a interligação dos postos de saúde, hospitais e outras unidades de saúde pública em locais que não disponham de redes terrestre.

4) Fortaleceria os mecanismos de aplicação de internet das coisas, como cidade inteligente.

 

Foram investidos cerca de R$ 3 bilhões. No contrato do satélite há uma ênfase em relação à transferência de tecnologia. A Telebrás qualificou muitos de seus engenheiros e técnicos nesse processo. O segundo satélite dessa geração seria construído em território brasileiro. 

Com o golpe que derrubou o governo legítimo de Dilma Rousseff, foi suspenso o processo de compra dos equipamentos que interligam o satélite à rede terrestre de comunicações e dos terminais que ficam nas casas dos futuros usuários. Não temos, portanto, toda a rede de comunicação de satélite, o que significa enorme prejuízo para todos nós. 

Em movimentos rápidos do MCTIC, o governo golpista quer entregar a exploração do satélite ao mercado, o que comprometerá o atendimento de áreas geográficas com problemas de acesso à banda larga, mudando por completo o escopo do projeto inicial. As empresas privadas, obviamente, só escolherão regiões com alto poder aquisitivo. Não iluminarão áreas de baixa renda ou de baixa densidade demográfica, como é o caso da Amazônia.

Não haverá nenhum compromisso para resolver o problema da exclusão digital, serviços de governo. O próprio Gesac (programa Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão) não será transferido para o novo satélite brasileiro.

Portanto, é mais um crime de lesa-pátria elaborado e posto em movimento pelas forças empresariais externas e internas que apoiaram o golpe e cobram a peso de ouro o seu pagamento. Querem fazer tudo rapidamente, transferindo todo esse investimento público para a iniciativa privada, numa clara ilegalidade e inconstitucionalidade em relação aos objetivos públicos, nacionais, populares e democráticos.

Fonte: Instituto Telecom

Instituto Telecom: Satélite brasileiro entregue de bandeja

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O engenheiro Alan Paes Leme Arthou, ex-coordenador do Programa de Desenvolvimento de Submarino com Propulsão Nuclear da Marinha (Prosub), defende uma política de ampliação e valorização da indústria e da engenharia brasileira. Entre medidas importantes nessa direção, ele cita a inclusão da tecnologia no conceito de conteúdo nacional e a formação de clusters, para melhor aproveitamento dos recursos de infraestrutura local. “Temos um nível de engenharia bom e, na infraestrutura, deve-se pensar o máximo possível nas tendências regionais para fazer clusters”, disse, durante o I Simpósio SOS Brasil Soberano, realizado na sexta-feira (31), no auditório da Faculdade Mackenzie, pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro e pela Federação dos Sindicatos de Engenheiros (Fisenge).

Ex-coordenador do Prosub defende clusters e tecnologia nacional

Os clusters são uma concentração de empresas com perfis semelhantes, colaborando entre si e compartilhando recursos. Podem incluir, diz Arthou, escolas técnicas voltadas para aquela linha específica de produção e outras facilidades logísticas, além de pesquisas realizadas em parceria com a indústria. O modelo ideal, na opinião do engenheiro, é aquele adotado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com vários escritórios regionais. “É preciso buscar eficiência coletiva”, disse. “Um plano de industrialização deve ser pensado em termos regionais, para desenvolver regionalmente o que é possível e conseguir uma malha em rede capaz de distribuir esse conhecimento.”

Ao contrário do Brasil, que não investe na relação entre indústria e unidades de pesquisa, os EUA, segundo Arthou, abriram um centro tecnológico em São Paulo para recrutar e contratar pesquisadores brasileiros. “Quando nós produzímos o boro [elemento químico usado, por exemplo, em reatores nucleares, no freio de nêutron, e em proteção balística], encontramos uma professora da Unicamp que estava fazendo pesquisa nessa área para o Exército dos EUA, com financiamento de Londres”, conta Arthou. “Precisamos ter consciência da engenharia que temos.”

Ex-coordenador do Prosub, um dos mais estratégicos projetos na área de Defesa do país, ele alerta para o impacto econômico do esvaziamento da engenharia brasileira. “O motor da economia está falhando, estamos com pouco sangue”, advertiu. As indústrias instaladas no país, na sua avaliação, têm baixo conteúdo local, e o país tem formado poucos engenheiros por ano, um sinal crítico de baixo desenvolvimento tecnológico nacional.

No Brasil, ele estima que sejam pouco mais de 900 mil engenheiros, menos de 0,5% da população, ou menos de 1% da população economicamente ativa, da ordem de 105 milhões. Por ano, formam-se entre 40 mil e 45 mil profissionais de engenharia, em comparação a mais de 100 mil advogados. “Em 30 anos, teríamos 1,2 milhão de engenheiros. É pouco”, afirmou.

Um dos motivos para essa fragilidade, na sua opinião, é que o Brasil atua basicamente como “hospedeiro de indústrias estrangeiras”, e não investe no desenvolvimento tecnológico local. “Por exemplo, nas métricas do BNDES, não se leva em conta a tecnologia para pontuação de conteúdo nacional. Se a empresa compra um ativo no exterior, pode abater no IR, se for desenvolvê-lo aqui, não. Eu não consigo entender conteúdo nacional sem conteúdo tecnológico.”

Há, contudo, na sua avaliação, um grande potencial na indústria brasileira. A WEG, lembra o engenheiro, não conseguiu financiamento no Brasil para desenvolver um motor de polo permanente, componente necessário para os futuros carros elétrios. Decidiu, então, comprar um laboratório na Europa para realizar o projeto. “Isso é competitividade. Se não tivermos nossa própria indústria, não vamos conseguir chegar lá”. Na Alemanha, 24% da população estão empregados na indústria; 18% nos EUA, e 14% no Brasil. “Temos que defender os nossos interesses.”

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Nos últimos dias, a Petrobras foi criticada pela imprensa e sindicatos dos petroleiros após anunciar as empresas convidadas a concorrer à licitação para retomada das obras da Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN) no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí, na região metropolitana. A repercussão se deu após divulgação da lista das 30 empresas concorrentes na qual constam apenas nomes estrangeiros para disputa da concorrência da maior obra da estatal nos próximos anos.

Após a polêmica, a Petrobras divulgou uma nota para tentar rebater as críticas. Nela, a estatal ratifica a sua escolha e enfatiza que “argumentos simplistas sobre uma inexistente preferência por empresas estrangeiras versus empresas brasileiras nessa retomada não colaboram, além de serem desrespeitosos aos milhões de brasileiros que neste momento buscam trabalho".

Em seguida, a empresa diz que “não diferencia empresas de acordo com a origem do seu capital”. No entanto, para o diretor de comunicação do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF), Marcelo Nunes Coutinho, a exclusividade de estrangeiras na lista de concorrência prejudica o desenvolvimento econômico e a soberania do país.

“Mesmo que seja uma empresa estrangeira em solo brasileiro, o lucro continua indo para a matriz, em outro país. Então, eles tentam otimizar os custos ao máximo, contratando menos pessoal, entregando uma obra de pior qualidade. Além disso, com a flexibilização das leis trabalhistas, os contratos preveem salários menores para realizar as mesmas funções que fazíamos antes”, explica.

Para o diretor do Sindicato de Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (Senge-RJ), Victor Marchesini, outra questão é que a escolha de uma empresa estrangeira inviabiliza que novas tecnologias sejam desenvolvidas no Brasil.

“Na prática, por mais que os trabalhadores estejam aqui, o corpo técnico mais qualificado fica na sede. Então, os projetos mais inovadores, desenvolvimento de novas tecnologias e centros de pesquisa ficam na matriz. No Brasil fica a parte do gerenciamento da obra, dessa forma, sobram para nós os serviços de menor qualificação”, acrescenta.

Em meio à repercussão, jornais e portais de notícia publicaram matérias que apontavam que mais de 20 das 30 empresas, selecionadas pela Petrobras, são envolvidas em escândalos de corrupção. No entanto, a nota divulgada pela estatal não rebateu essa informação.

“A corrupção apurada pela Lava Jato foi usada para uma questão política, queriam tirar as empresas nacionais e abrir caminho para as estrangeiras. Então, percebemos que o fundamental de tudo o que aconteceu no Brasil nos últimos meses não é corrupção, têm interesses que estão falando mais alto. Vale lembrar que além da posição da diretoria da Petrobras tem uma questão jurídica que respalda a escolha pelas empresas estrangeiras”, acrescenta Victor Marchesini.

O diretor do Senge se refere ao bloqueio cautelar da Justiça Federal que suspendeu negócios da petroleira com 23 empresas citadas na investigação, desde dezembro de 2014. Para Marcelo Nunes, do Sindipetro-NF, os impactos da preferência por empresas estrangeiras já estão sendo sentidos, mesmo antes do retorno das obras do Comperj.

“Trabalho há 14 anos na Petrobras e posso dizer que houve uma grande diferença no modo de produção na empresa nos últimos anos, após o governo Lula, quando começamos a construir plataformas no país. Conseguimos desenvolver conhecimento e técnica. Hoje já existem produções que voltaram a ser feitas China e na Coreia, nos tirando de jogo”, conclui.

Fonte: Brasil de Fato

Para sindicalistas, suspensão de empresas brasileiras é prejudicial para a inovação tecnológica no país 

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Vinte e quatro anos atrás, a pesquisadora Giovanna Machado se formava em química na PUC do Rio Grande do Sul. Em 1990, poucos anos antes da graduação de Giovanna, o mundo da ciência era majoritariamente masculino. Dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) da década de 1990 mostravam que apenas 18,5% das bolsas concedidas aos principais pesquisadores do País eram destinadas a elas.

Atualmente, apenas 10,97% das mulheres que fizeram mestrado em 2016 optaram pelas áreas de engenharia, ciências exatas e da terra. Depois de mestrado, doutorado e pós-doutorado - este último no renomado Massachusetts Institute of Technology (MIT) -, Giovanna luta para conquistar as cabeças de jovens de escolas públicas da Região Metropolitana do Recife e do Interior de Pernambuco.
A pesquisadora idealizou e coordena o programa Futuras Cientistas, no Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene), na Cidade Universitária, Zona Oeste do Recife. O nome já adianta o que o edital confirma: só são aceitas meninas do ensino médio e professoras. Todas mulheres, todas da rede pública. Sem vagas para meninos, que historicamente sempre tiveram mais espaço na ciência.

É a equidade de gênero na prática, termo que significa que mulheres e homens são tratados de forma justa, de acordo com as respectivas necessidades. Segundo a publicação Princípios de Empoderamento das Mulheres, da ONU, equidade não é somente sobre igualar direitos, mas deixá-los equivalentes entre gêneros.

“A ideia do projeto surgiu exatamente para aumentar o número de mulheres interessadas na ciência, que é tão pequeno hoje. Pensei nisso após uma viagem que fiz com outras cientistas para verificar que ações políticas estavam sendo realizadas fora do País para aumentar a participação das mulheres na ciência e tecnologia. Quando voltei, pensei que seria bom transformar esse conhecimento em algo prático. Algumas alunas diziam que nunca tinham se imaginado em um laboratório. A maioria quer fazer humanas e aqui elas acabam conhecendo exatas e ciências. Percebi que é a falta de conhecimento de que esse meio está no alcance delas”, contou Giovanna, que trabalha há oito anos no Cetene.

Transformar meninas em cientistas
Este ano foram 12 estudantes entre 15 e 18 anos e três professoras. Cada uma ganha uma bolsa de incentivo de R$ 400. O Cetene oferece aulas com especialistas em laboratórios de microscopia eletrônica, nanotecnologia, biotecnologia, biofábrica e circuitos integrados, que podem ser escolhidos na inscrição. É um mês de aula, inspirado nos projetos de verão norte-americanos, com apresentação de um trabalho de conclusão ao final do curso. Na última semana, quatro estudantes do MIT ofereceram work-shops para o grupo. “Hoje estamos na terceira edição do projeto, com um orçamento pequeno de US$ 2 mil do Consulado dos Estados Unidos, parceiro do projeto. Fizemos um piloto em 2012 com apenas R$ 2 mil, mas tivemos que parar por quatro anos por falta de dinheiro”, relata a pesquisadora.

Amanda Nascimento, 17 anos, vai começar o 3º ano do ensino médio na Escola de Referência de Beberibe, Zona Norte do Recife, com a experiência de transformar luz solar em hidrogênio. “Infelizmente ainda hoje há muita discriminação. As pessoas dizem que mulher não pode isso ou aquilo. Esse projeto também é para dar força. Mulher pode, sim, tanto quanto o homem pode. Giovanna bate muito nessa tecla”, afirma a estudante. Já Ana Karoline Silva, 16, da escola Poeta Manoel Bandeira, na área central do Recife, investiga as bactérias que causam doenças na cana-de-açúcar depois de fazer extrações do DNA da planta. “Eu não tinha ideia nenhuma do que fazer no vestibular, mas agora estou pensando em seguir carreira nisso, mais voltada à ciência da saúde”, conta Ana.

Fonte: Moema França/ Folha de Pernambuco de 23/1/2017

Projeto estimula meninas a seguir carreira na pesquisa

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