por Camila Marins

Fortalecer a indústria nacional para a economia crescer

Foto: Adriana Medeiros

Propostas para reverter a desnacionalização da infraestrutura, da indústria, e dos patrimônios naturais do país, especialmente nos segmentos de petróleo, inovação e desenvolvimento tecnológico são fundamentais. Para o engenheiro naval Alan Paes Leme Arthou, o Brasil precisa priorizar a tecnologia nacional.

Quais os pontos de uma política de ampliação e valorização da indústria e da engenharia brasileira?

Não é possível crescer economicamente sem produção. E não é possível crescer a produção sem engenharia. Temos uma engenharia civil que, graças às nossas necessidades de infraestrutura, tem nível internacional. No entanto, nas áreas de mecânica e eletrônica somos, na maioria dos casos, meros montadores de projetos oriundos do exterior. Na verdade, existem poucas empresas realmente brasileiras. Somos hospedeiros de empresas que vêm aqui para explorar nosso mercado e que não têm interesse em exportar. Produtos industrializados são mais caros quanto mais moderna for a tecnologia envolvida. No Brasil só produzimos produtos de baixa e média tecnologia e, mesmo assim, uma parcela cada vez maior do preço de compra do produto que fabricamos aqui tem que ir para outros países, por conta do projeto que não é nacional.

Quais deveriam ser as prioridades em uma agenda positiva para a ciência e a tecnologia nacional?

Existem vários indicadores que falam do pouco recurso sendo encaminhado à ciência e tecnologia, mas é difícil encontrar dados que mostrem o resultado desses investimentos. Fica muito difícil justificar a necessidade de investimento em um setor sem mostrar resulta-
dos. Quanto desses recursos são aplicados em tecnologia voltada à produção nacional?

Quantos desses recursos trazem resultados positivos?

Não temos esses dados. Se conseguirmos pensar de forma multidimensional, a pergunta seria qual o resultado econômico, de capacitação técnica e de melhoria social e ambiental? Não temos essas respostas, mas não é algo difícil de ser realizado. Como podem priorizar as pesquisas que receberão recursos sem respostas a essas perguntas? Acho que o primeiro passo para uma agenda positiva seria estipular, de forma quantitativa, as regras para a escolha de quem receberá recursos. Infelizmente, os nossos pesquisadores, na maioria, são divorciados de nossas indústrias.

O próximo governo deveria tomar quais medidas ao tomar posse?

Infelizmente, os problemas imediatos são tantos que é difícil responder a essa pergunta. Não adianta simplesmente fazer remendos. Tem que atacar os problemas que dificultam a produção e o desenvolvimento de empresas nacionais, entre eles, prioritariamente, a infraestrutura (principalmente a de energia e a de logística e de transporte), o ambiente macroeconômico (principalmente simplificando o recolhimento de impostos), a saúde e educação primária e superior e treinamento, a eficiência do mercado de bens (principalmente com uma justiça mais rápida e barata, pois onde a justiça é lenta facilita o aparecimento de aventureiros), a eficiência do mercado de trabalho (não é necessário tirar direitos para aumentar a eficiência), o desenvolvimento do mercado financeiro, a prontidão tecnológica (no sentido de ter gente preparada e pesquisas encaminhadas para novos passos de nossa indústria), o mercado interno, a sofisticação nos negócios e o incentivo à inovação.

 

 

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Ataques à Norma Regulamentadora 12, do Ministério do Trabalho, e precarização expõe trabalhador a riscos maiores. "Reforma" afeta Previdência com queda de receita e aumento de despesas

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FOTO: Arquivo/Governo Federal

De 2012 a 2017 foram registrados 4.269.648 acidentes de trabalho. Um a cada 48 segundos. O total de mortes no período 15.874. Só em São Paulo, foram 3.517 acidentes com mortes. As principais causas são lesões como cortes, lacerações, feridas contusas, esmagamento, fratura, distensão e torção. Os dados são do Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho, uma plataforma desenvolvida e mantida pelo Ministério Público do Trabalho em Cooperação com a Organização Internacional do Trabalho (OIT)

O número de acidentes aumenta a cada ano, segundo o coordenador da Comissão Intersetorial de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Geordeci Menezes de Souza. Representante da CUT no colegiado, ele afirma que o Brasil é o país onde mais se morre e mais se acidenta no trabalho. "Pelos dados oficiais, são 750 ocorrências por ano. Mas o número tem de ser multiplicado por três. Ou seja, a gente continua matando muita gente no trabalho”.

Tamanha insegurança, que adoece, incapacita e tira vidas que não têm preço, custa à Previdência Social R$ 74 bilhões por ano só com o pagamento de benefícios. A título de comparação, o orçamento do Ministério da Saúde é de R$ 120 bilhões. Ou seja, além de provocar a queda da receita previdenciária com o desemprego, o subemprego e a informalidade, a "reforma" trabalhista produz despesas para a seguridade social.

E as expectativas não são das melhores. As normas que deveriam garantir a segurança do trabalhador – que nunca foram aplicadas de maneira integral – estão sendo revogadas a partir de 2016. É o caso da Norma Regulamentadora (NR) 12, que em 1978 estabeleceu referências técnicas, princípios fundamentais e medidas de proteção para garantir a saúde e a integridade física dos trabalhadores.

Além de fixar requisitos mínimos para a prevenção de acidentes e doenças do trabalho nas fases de projeto e de utilização de máquinas e equipamentos de todos os tipos, inclusive na sua fabricação, importação, comercialização, exposição e cessão a qualquer título, em todas as atividades econômicas.

Se a NR 12 tivesse sido implementada integralmente, não seriam comuns as serras elétrica do tipo fita, como as usadas em açougues, por exemplo. Das mais perigosas entre as máquinas existentes, podem amputar membros com facilidade. E até matar quando se rompem, dependendo da parte atingida pela serra no momento da ruptura.

Segundo Geordaci, o empresariado nunca cumpriu a NR 12 apesar de nesses anos todos o governo teve de prorrogar diversas vezes os prazos para adequação, além de abrir linhas de crédito para financiar reformas, adaptações e substituições de máquinas. Ao contrário disso, por pressão da ala conservadora do empresariado, ganhou força nas comissões tripartites o lobby de patrões preocupados em aumentar a competitividade sem se preocupar com a integridade, a saúde ou a vida de seus empregados.

"Portarias têm revogado boa parte da NR 12, elogiada internacionalmente, e construída pelo consenso entre governo, patrões e trabalhadores. E aumenta a pressão para alterações na NR 1. Querem matar essa que a 'mãe' de todas as outras NRs. Se mexer nessa, há impactos em todas as demais", afirma o conselheiro do CNS.

Na sua avaliação, o adoecimento e os acidentes tendem a ser mais comuns devido à precarização ampliada por mudanças na legislação trabalhista, que aumentam a pressão e o assédio sobre os trabalhadores. Não é à toa que de cada três acidentes, dois são sofridos por terceirizados.

E também por causa das novas tecnologias, ainda pouco estudadas, como a nanotecnologia. Sedutores do ponto de vista comercial por agregar vantagens, como um para-brisa cujo revestimento espalha rapidamente a água da chuva, dispensando os tradicionais limpadores, produtos feitos a partir de nanomateriais. Ou um artefato em geladeiras que impede o mau cheiro. "O fabricante, no entanto, não esclarece que minúsculas partículas do nitrato de prata, cancerígeno, estão sendo usado dentro da geladeira, podendo contaminar os alimentos, em nome desse diferencial", explica.

Cada vez mais utilizada na indústria, a nanotecnologia é uma incógnita ainda em termos de impactos à saúde do trabalhador e ao meio ambiente. Por isso o Conselho Nacional de Saúde vem pressionando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária a estabelecer protocolos de segurança.

 

FONTE: CUT / Escrito por: Cida de Oliveira, da RBA

 
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Capes avisa que corte no orçamento vai promover a suspensão de 198 mil bolsas de pesquisa em 2019

Abilio Baeta Neves, presidente da Capes – Foto: Daniela Barcellos/ Palácio Piratini

O governo Temer vai suspender o pagamento de todas as bolsas de incentivo à pesquisa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a partir de agosto de 2019. O teto de gastos imposto à entidade para o ano que vem corta os recursos que atenderiam a um total de 93 mil pesquisadores de mestrado, doutorado e pós-doutorado, e a outros 105 mil, de três programas —  Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), Programa de Residência Pedagógica e Programa Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor).

O alerta foi feito em ofício do Conselho Superior da Capes enviado ao ministro da Educação, Rossieli Soares da Silva, que “solicita uma ação urgente em defesa do orçamento do MEC”.

De acordo com o documento, assinado pelo presidente da Capes, Abílio Afonso Baeta Neves, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2019 aprovada no Congresso Nacional, no seu artigo 22, manteve para a instituição os valores de 2018, reajustados pela inflação, o que garantiria as bolsas no ano que vem. “Em contraponto a essa importante conquista”, diz o ofício, “foi repassado à Capes um teto limitando seu orçamento para 2019, que representa um corte significativo em relação ao próprio orçamento de 2018, fixando um patamar muito inferior ao estabelecido pela LDO.”

Segundo Flávia Calé, presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), que também integra o Conselho da Capes, “a nota é um alerta e um apelo à sociedade brasileira, para que se mobilize na defesa das verbas da Educação.” De acordo com dados da Folha de S. Paulo, de R$ 7,77 bilhões em 2015, ainda no governo Dilma Rousseff, o orçamento da Capes caiu para R$ 4,96 em 2017, quando acabou o Programa Ciência sem Fronteiras, e para R$ 3,94 bilhões em 2018, dos quais R$ 1,95 bilhão já foram gastos. A candidata do PCdoB à Presidência, Manuela D’ávila, publicou no seu perfil no Facebook que a Capes precisaria de mais R$ 300 milhões no orçamento do ano que vem para manter o pagamento das bolsas.

Clique para ler o ofício na íntegra

 

FONTE: SOS BRASIL SOBERANO / Escrito por Verônica Couto

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Alunos da UFF desenvolvem próteses robóticas de baixo custo

O Brasil registra anualmente cerca de 40 mil casos de amputação por motivos de acidente ou doença. O Sistema Único de Saúde (SUS), por sua vez, não consegue atender a demanda da população, pois a maioria das próteses robóticas são importadas e caras. Com foco nessa realidade, um grupo interdisciplinar formado por alunos dos cursos de Medicina, Computação, Engenharia e de Telecomunicações da UFF se reuniu e criou o Projeto da Rede Acadêmica de Cibernética e Humanidades (Reach), com a finalidade de desenvolver próteses de baixo custo.

De acordo com o coordenador do Núcleo de Estudos de Tecnologias Avançadas (NETAv), Ricardo Campanha Carrano, a preocupação com a causa social, em especial com os pacientes amputados atendidos pelo SUS, mobilizou alunos e professores a participarem do trabalho. Para facilitar essa integração, foi criado um grupo no aplicativo WhatsApp chamado de “Reach - Nave Mãe”, com 63 participantes. São cinquenta alunos envolvidos, sendo dez de maneira mais ativa, dez professores de diversas unidades da UFF, além de pessoas que ajudam o projeto e que não têm vínculo com a universidade. “Todo o design de logomarcas e banners, por exemplo, foi elaborado voluntariamente pela jornalista Erika France, formada pela UFF. Ela cedeu seu tempo, por acreditar na causa”, destaca.

Segundo ele, o Projeto Reach, que completará um ano em junho, é uma iniciativa exclusivamente de alunos. O grupo empreendedor bateu de porta em porta nos laboratórios e departamentos, angariando apoio. A iniciativa fez com que muitos professores se prontificassem a ajudar, orientando alunos, apresentando a outros parceiros, dentro e fora da UFF. “O professor da Engenharia de Telecomunicações, João Marcos Meirelles, e o pesquisador do Laboratório MidiaCom, Flávio Seixas, são exemplos de docentes que se dispuseram a ajudar e hoje são peças chave na iniciativa”, ressalta.

Onde tudo começou

Antes do Reach, o NETAv foi criado por meio de um acordo de cooperação acadêmica, técnica e científica, celebrado em 18 de março de 2011, entre a UFF e a Marinha do Brasil. O núcleo atende à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SecCTM), sendo um facilitador e mantenedor da relação entre a instituição e a força armada. Em 2016, sua área de atuação foi ampliada, visando o desenvolvimento de programas e projetos de ensino, pesquisa e extensão, em parceria com as demais forças armadas e outras instituições, públicas e privadas. Hoje, segundo Carrano, o núcleo é um órgão de integração de expertise e competências dentro da UFF com know-how suficiente para oferecer seus projetos a outras organizações e entidades externas.

O Projeto Reach, por sua vez, surgiu por iniciativa do aluno do sexto período de medicina, Robinson Simões Júnior, que numa primeira etapa utilizou como protótipo uma mão de robô adaptada. Com isso, a equipe teve a oportunidade de aprender sobre os aspectos mecânicos e eletrônicos envolvidos no processo de criação e montagem de uma prótese, e principalmente como ocorre a captura do sinal mioelétrico - impulso nervoso que resulta de uma ação de controle do cérebro humano sobre os músculos do corpo. “Contamos também com a parceria da aluna da Medicina, Angela Tsuda, que por iniciativa própria já tinha começado a imprimir uma mão robótica, utilizando uma impressora 3D cedida pela professora Yolanda Boechat, do Departamento de Telecom. O Reach a localizou e ela se tornou uma importante colaboradora”, enfatiza o professor.

Atualmente a equipe está trabalhando num segundo protótipo que será operado brevemente como uma verdadeira prótese, ou seja, acoplado a um paciente com amputação. As duas mãos robóticas em teste são controladas por movimentos humanos, por meio da plataforma Arduino, um software aberto. Ele captura os sinais musculares por meio de eletrodos afixados no paciente, transmite ao computador, que os reenvia em segundos à prótese, criando o movimento.

A aluna Giulia dos Santos Dias, do curso de Engenharia Mecânica, acrescentou que o projeto teve também a participação de alunos de graduação e mestrado de cursos de engenharia elétrica, biomedicina e ciência da computação. Para ela, a multidisciplinaridade do Reach é o que o diferencia de outras iniciativas dentro da universidade, fazendo com que a equipe ganhe conhecimentos de diversas áreas e possa observar diferentes problemas, com pontos de vistas distintos, facilitando a resolução deles.

“Os recursos que usamos para a compra de materiais e equipamentos necessários para o projeto vêm exclusivamente de doações dos próprios alunos e professores membros do Projeto Reach, uma vez que ainda não possuímos parcerias para o recebimento de fundos”, ressaltou Giulia.

Parceria

Os protótipos das mãos estão sendo montados no Laboratório de Telemetria e Telecontrole (LaTelCo), vinculado ao Departamento de Engenharia de Telecomunicações. Num segundo passo, a mão robótica será destinada a pacientes amputados do SUS. Nesse sentido, a equipe está buscando firmar uma parceria com a Associação Fluminense de Reabilitação (AFR). “Há um ciclo a ser vencido, até que tenhamos confiança na maturidade do produto. E claro que ser ofertado pelo SUS é o nosso grande objetivo”, afirma Robinson Júnior.

Já de acordo com Carrano, a ideia é que a mão robótica seja patenteada, produzida em escala industrial e oferecida gratuitamente ao público. Para isso, as patentes do projeto eventualmente geradas serão da universidade, até como forma de proteger a propriedade intelectual e seu objetivo social. “Ainda não vivenciamos a fase de buscar empresas para a produção da mão. Estamos nas etapas iniciais do projeto, testando conceitos e técnicas”, esclarece.

Contudo, os recursos dos projetos e inventos da UFF, segundo o professor, poderão retornar à universidade na forma de patentes que gerarão royalties, isso quando há interesse comercial pelo licenciamento da tecnologia desenvolvida. No entanto, o grande retorno para a universidade, que advêm do Reach, é a inserção dos alunos em projetos transdisciplinares que conciliam os objetivos primeiros e nobres de uma instituição pública: o ensino, a pesquisa e a extensão. “É a UFF cumprindo seu papel na sociedade, que é a grande beneficiária do projeto”, conclui.

Na entrevista a seguir o aluno Robinson Simões Júnior fala sobre o Projeto Reach:

Como se deu a iniciativa para criar o projeto Reach?

Sou um grande entusiasta da integração do ser humano com as tecnologias. Ver um ramo em que eu poderia atuar nesse sentido e ao mesmo tempo lidar de forma tão impactante na Saúde Pública me inspirou muito a criar o Reach.

E como foi o processo de reunir alunos de áreas tão distintas?

Primeiramente, procurei ver se tinha algum projeto existente na UFF ao qual pudesse me associar. Como não encontrei, decidi primeiro formar um time inicial de professores que pudesse contribuir com a criação de algo que seria totalmente novo na universidade. Então, fui de porta em porta, de departamento em departamento, e recebendo vários “nãos”. Finalmente, consegui reunir docentes das áreas de Engenharia, Computação e Medicina. Depois disso, cada professor ficou responsável por recrutar alunos em suas respectivas disciplinas, que estivessem interessados em participar.

Como se dá a divisão do trabalho?

Após essa movimentação, resolvemos nos estruturar internamente em três frentes: Captação, lidando diretamente com o paciente em si e descobrindo de que forma poderíamos capturar os sinais mioelétricos; Processamento, analisando os dados e programando para ativar a prótese; e por fim, a Atuação, que lida com a confecção da prótese em si e todo o seu design. Cada frente atuando com focos diferentes, mas concomitantes e com um fim em comum.  E por tudo isso, agradeço a colaboração e o entusiasmo dos alunos Angela Tsuda, Giulia Dias, da Engenharia Mecânica, Yago Rezende e Rafael Vaz, da Engenharia de Telecomunicações; e a Marcela Tuler, do Mestrado em Telecomunicações.

Há uma estratégia para captar futuros recursos que darão prosseguimento ao projeto?

Atualmente estamos discutindo algumas possibilidades, como, por exemplo, a criação de uma emenda parlamentar, “crowdfunding” (financiamento coletivo), ou parcerias com outras instituições.

Quais são os nomes das duas mãos robóticas batizadas pelo grupo?

A Riri Williams, a primeira mão, é uma homenagem à sucessora de Tony Stark, o personagem Homem de Ferro da Marvel. Já a segunda se chama Hackberry, em alusão a Exiii Hackberry, empresa japonesa na qual nos baseamos para confeccionar a atual prótese.

Quanto tempo você acredita que ainda levará para a mão robótica estar efetivamente no mercado?

Tudo depende das parcerias que formarmos. Já evidenciamos alguns grandes obstáculos, como a produção em larga escala, a logística de confecção, distribuição, a reabilitação dos pacientes e o custo de tudo isso. Então, se obtivermos auxílio do Estado e de instituições que já atuam nesse sentido, como a AFR (Associação Fluminense de Reabilitação), creio que boa parte dessas questões serão solucionados rapidamente, tornando possível uma distribuição de próteses, numa quantidade razoável.

 

FONTE: Universidade Federal Fluminense (UFF)

 

 

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Foi aprovada a lei que garante a licença-maternidade para pós-graduandas. Agora, as mulheres podem prorrogar os prazos de vigência das bolsas de estudo concedidas por agências de fomento em função de maternidade.

A lei abrange bolsas de estudo com duração mínima de 12 meses, beneficiando as bolsistas de mestrado, doutorado, graduação sanduíche, pós-doutorado ou estágio sênior. Ficará garantida a prorrogação da bolsa por um período de até 120 dias a estudantes que derem à luz, adotarem ou obtiverem a guarda judicial de crianças durante o período de vigência da bolsa original. Agora, é garantido que a bolsista ficará dispensada das atividades acadêmicas durante o afastamento temporário em virtude de parto, adoção ou obtenção de guarda judicial. É proibido a suspensão do pagamento da bolsa nesse período.

As novas regras transformam em lei uma prática que vem sendo adotada por algumas das principais agências de fomento a estudos e pesquisas no Brasil. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) já possuem normas internas que concedem essa prorrogação a bolsistas que recebem o auxílio por 24 meses ou mais (mestrado e doutorado).

História de luta

A ANPG (Associação Nacional de Pós-Graduandos) apresentou as reenvicações e a deputada Alice Portugal ainda em 2015 e ela abraçou a causa. “É uma reivindicação das pós-graduandas do Brasil inteiro, que têm suas bolsas reduzidas do tempo da licença-maternidade, sem o direito de usufruir dos primeiros momentos com seus filhos. O tempo de apresentação dos seus trabalhos finais também é reduzido. Por isso, a aprovação da lei é uma grande vitória, pois estende direitos para um universo maior de mulheres”, disse Alice.

Para Tamara Naiz, presidenta da ANPG essa é uma conquista que precisa ser comemorada. “As mulheres têm sido fundamentais para os avanços e para o bom desempenho da Ciência brasileira, nós sabemos que 90% das pesquisas realizadas no Brasil são feitas no âmbito da pós-graduação e metade destes pós-graduandos são mulheres. Essas mulheres superam e lutam contra todos os empecilhos de uma sociedade machista, inclusive no acadêmico, e por vezes elas têm que optar entre ser mãe e pesquisadora. A ANPG acredita que essa escolha é absurda e um tremendo atraso e é por isso que lutamos para garantir que existam mecanismos de proteção para que a mulher exerça plenamente todos os seus direitos em um ambiente seguro”, comemora Tamara Naíz, presidenta da ANPG.

Fonte: Associação Nacional de Pós-Graduandos

Foto: Pixabay (imagens públicas)

Aprovada lei que garante licença-maternidade na pós-graduação

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Corte nos recursos federais afeta de forma alarmante o orçamento destinado à ciência e tecnologia brasileira. Cientistas estão buscando melhores condições fora do país.

 

 Por Laura Ralola com entrevistas de Camila Marins

 

Em março deste ano o governo anunciou corte de 44% no orçamento federal destinado à Ciência, Tecnologia e Inovação. A redução de investimentos em uma área tão importante para o desenvolvimento do país preocupa especialistas, que caracterizam a ação como irresponsável e desprovida de senso de futuro. A medida compromete o incentivo à pesquisa e o funcionamento de centros e laboratórios. Em consequência, cientistas estão deixando o país em busca de condições de trabalho propícias, levando com eles importantes saberes para bem longe de nossos quintais.

O governo Temer deu indícios precoces que o incentivo à pesquisa, ciência e  tecnologia (C&T) não estava na lista de prioridades do plano não eleito nas urnas. Logo quando tomou posse, em maio de 2016, o presidente anunciou a junção do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações com o Ministério das Comunicações. A ação foi bastante criticada na época por resultar em menos atenção para ambos. No mesmo contexto, a Pec do Teto dos gastos públicos aprovada, que congela por 20 anos investimentos, fragiliza ainda mais a situação, inviabilizando futuros projetos para a inovação nacional.

O diretor do Sindicato dos Engenheiros do Estado do Rio de Janeiro (Senge - RJ), Agamenon Oliveira, define como alarmante o contexto político e econômico atual. “É uma questão da crise do Estado nacional”, enfatiza. Para ele, uma série de medidas que caminham para o desmonte de nossa soberania estão sendo tomadas. Em pouco mais de um ano, o governo Temer já representa uma série de retrocessos. Pensando especificamente na C&T, o governo levou o país para mais de uma década no passado. 

O orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações já estava em um patamar baixo antes do corte recente. O Projeto de Lei Orçamentária anunciado no fim de 2016 prometia para a área investimento de R$ 5,2 bilhões (praticamente metade do que foi investido em 2014). Em 2017 este número foi cortado em R$ 2,2 bilhões, ou seja, em 44% do orçamento previsto para o ano.

Foi no contexto dos cortes em C&T que a pesquisadora Suzana Herculano-Houzel optou por deixar o país. O desmonte da produção científica e tecnológica está levando muitos pesquisadores a, assim como ela, buscarem alternativas no exterior, com o intuito de garantir a continuidade de suas pesquisas. Suzana é mundialmente conhecida por seu trabalho de pesquisa em neurociência e há alguns meses, impossibilitada de dar continuidade à pesquisa no país, migrou da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para a Vanderblit University, nos Estados Unidos. O caso de Suzana ganhou repercussão e intensificou a discussão sobre o fenômeno chamado de Fuga de Cérebros, que se fortalece no atual cenário. 

 

CORTES DRÁSTICOS

O orçamento em queda do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações nos últimos anos. Despesas MCTIC (bilhões de reais). 

Vermelho: Proposto.

Verde: Gasto.

 Uma ‘fuga de cérebros’ ameaça o Brasil e a soberania nacional

 

Fonte: Reportagem Nature, principal revista de conhecimento científico do mundo, publicada em abril de 2017. 

http://www.sbq.org.br/noticia/brazilian-scientists-reeling-federal-funds-slashed-nearly-half

 

Ciência, tecnologia e desenvolvimento nacional

A saída de cientistas e pesquisadores do país representa uma enorme ameaça à produção nacional do conhecimento. Em entrevista à Fisenge a Presidente de Honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Naider, afirmou que conhecimento significa hoje desenvolvimento econômico e social. “Significa produção de riqueza, ou seja, lucro para as empresas, salário para os trabalhadores e impostos para o governo; significa garantir a qualidade de vida das pessoas”. Para Helena, a principal fonte de sustentação de uma economia está no desenvolvimento e aplicação do conhecimento científico e tecnológico. “O mundo vive hoje a economia do conhecimento”, completa.

De acordo com o ex-Ministro de C&T, Clélio Campolina, ciência e tecnologia são fundamentais para um projeto de desenvolvimento nacional. Para ele é necessário não apenas apoiar e incentivar a produção científica, mas também “fazer a ponte da produção científica com as políticas públicas e sistema produtivo”. Agamenon Oliveira aponta que a ciência está diretamente ligada com a própria tecnologia. Isso quer dizer que as tecnologias são, em grande parte, aplicações de conhecimento científico. “O próprio desenvolvimento da ciência fertiliza o desenvolvimento tecnológico”, explica.   

Campolina acredita que a engenharia possui um papel central na construção de um projeto de desenvolvimento. De acordo com ele, “toda a base material depende do avanço da C&T, e a engenharia é a instância que operacionaliza concretamente todo esse avanço científico e tecnológico do ponto de vista produtivo”. 

Agamenon aponta os trabalhos realizados pela Petrobrás e importantes centros de pesquisa, como, por exemplo, o Instituto Luiz Alberto Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da UFRJ. “Somos hoje liderança na área de petróleo e gás e isso é um reflexo de investimento em C&T”, afirma. Os trabalhos realizados pela Petrobrás e institutos de pesquisa se tornaram referências mundiais e são, segundo o engenheiro, fundamentais para o desenvolvimento na área. O ex-ministro Campolina enfatiza que o Brasil mostrou competência científica e tecnológica em relação ao petróleo, que deveria ser uma prioridade social. 

De acordo com Helena, mesmo a geração de produtos primários exige, hoje, a participação intensa da ciência e da tecnologia. A professora cita como exemplo o crescimento da produção brasileira em alimentos, resultado do trabalho da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), juntamente com as faculdades de agronomia, zootecnia e veterinária. “Há trinta anos, importávamos alimentos; hoje, somos um dos maiores produtores e exportadores mundiais”, aponta. Ainda para a professora, o governo está cometendo o equívoco de considerar educação e ciência, tecnologia e inovação como despesas, e não como investimentos. Ao limitar bruscamente os investimentos em ciência, o governo joga o Brasil para o retrocesso econômico e social.

 

Desmonte das instituições de pesquisa

Desde que os cortes se intensificaram, a situação se alarma em universidades, laboratórios e centros de pesquisa espalhados pelo país. A crise na ciência pode ser percebida em nível nacional com redução do quadro de bolsas, liberação de recursos a conta gotas, sucateamento de laboratórios e até mesmo projetos já aprovados estão tendo seus orçamentos reduzidos. 

De acordo com Paulo Lyra, professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), C&T não pode ter descontinuidade, pois isso “gera desmonte de equipe e impasses no planejamento, colocando em risco o estudo como um todo e representando enorme perdas para avanços científicos e tecnológicos do país”, aponta o professor. Rita Ferreira, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), também relata problemas com os cortes governamentais para a Educação Pública Superior na instituição.

O orçamento em queda do MCTIC ameaça o trabalho de importantes laboratórios que atuam nas mais diversas áreas. O Brasil possui hoje importantes centros de pesquisa, como o Centro Nacional de Biologia Estrutural e Bioimagem, a Fundação Oswaldo Cruz de Recife, que vem realizando necessárias pesquisas sobre o Zika Vírus, o Centro de Pesquisa da Petrobrás (CENPES) e o Centro de Pesquisa de Energia Elétrica (CEPEL), dentre tantos outros.

O programa Ciências Sem Fronteiras teve seu fim anunciado em março de 2017, após cinco anos de atividades. De acordo com o portal oficial do programa, foram mais de 73 mil bolsas de graduação e 9 mil de doutorado concedidas. Neste mesmo contexto, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) vive a maior crise de sua história. Desta forma, fica realmente complicado para o pesquisador fazer ciência no país. 

Quem se beneficia com o desmonte da produção científica e tecnológica?

A existência de um sistema dinâmico e robusto de geração de ciência, tecnologia e inovação é, para Helena Naider, um traço que caracteriza os países desenvolvidos, juntamente com um sistema educacional eficiente e universal. A professora enfatiza que as atuais medidas distanciam o Brasil desses países, que investem cada vez mais em C&T. Ela afirma, ainda, que a brusca limitação de investimentos afeta a dignidade dos pesquisadores: “seremos impedidos de trabalhar com um mínimo de condições e com certeza olhados com comiseração e pena pelos cientistas de todo o mundo”.

Helena menciona o caso da China, que, diante de uma crise econômica, optou pelo incentivo à C&T, entendendo ser esta uma plataforma importante para alavancar a economia do país. De acordo com Agamenon, empresas chinesas estão bastante interessadas na compra de ativos brasileiros, especialmente nos setores de energia, transporte e agronegócio. “As empresas chinesas têm um interesse estratégico na região [norte/nordeste], buscando montar um enclave que ameaça a soberania nacional”. 

A crise que o Brasil vive gera, por fim, oportunidade para outros países. O desmonte da produção científica e tecnológica compromete a autonomia nacional. Significa entregar nossos recursos ao capital estrangeiro para que façam por nós algo que temos condições de fazer. “O comportamento do mercado internacional é extremamente capitalista e quem sai perdendo é o consumidor, já que as empresas chegam visando lucro e implementando o que lhes for conveniente”, aponta Agamenon.

Campolina afirma que a situação é conturbada e que é difícil prever os acontecimentos. Para o ex-ministro, entretanto, é justamente na crise que temos que construir a busca de saídas e alternativas. “Conseguiremos resultado se mobilizarmos a sociedade. Não adianta uma reflexão acadêmica, teórica, de forma isolada. Ela tem que ganhar a sociedade e as ruas, em termos de mobilização, para que se viabilize”, enfatiza.

Neste contexto surge a campanha Conhecimento Sem Cortes, mobilizada por cientistas, estudantes, professores, pesquisadores e técnicos. Lançado em junho deste ano, o principal objetivo do movimento é denunciar o desmonte das instituições de pesquisa por consequência das reduções do orçamento e buscar o apoio da sociedade para reverter o cenário.

A campanha é uma realização da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (AdUFRJ), o Sindicato dos Institutos Federais do Rio de Janeiro (Sintifrj), a Associação dos Professores da Universidade Federal de Minas Gerais (Apubh) e a Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), em parceria com várias organizações, dentre elas a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Apesar das pistas e indícios, a ciência não é um campo certo em termos de resultado, não é possível prever o resultado de um estudo. Ciência só se faz com muita pesquisa e dedicação, e não se faz pesquisa sem financiamento. “Às vezes se estuda algo por vinte ou trinta anos e não se chega a resultado nenhum. O que é, por si, um grande resultado”, explica Agamenon. 

Para chegar às respostas, é necessário focar nas perguntas. A qualidade dos investimentos vai determinar as descobertas. As perguntas precisam ser boas e estimuladas para que encontremos respostas precisas. 

 

Uma ‘fuga de cérebros’ ameaça o Brasil e a soberania nacional

Crédito foto: Fotos Públicas

 

 

 

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Empoderar e dar visibilidade às mulheres negras e indígenas nas áreas tecnológicas. Este é o objetivo da Pretalab, uma iniciativa que utiliza a tecnologia como ferramenta de transformação social, buscando mudar o que está culturalmente associado às mulheres negras e indígenas, no Rio de Janeiro. De acordo com Silvana Bahia, comunicadora social e diretora de projetos do Olabi, depois de perceber a baixa representação de mulheres negras e indígenas na tecnologia, as fundadoras da organização social sentiram a necessidade de alterar essa realidade. Isso porque, das 19 mulheres citadas na história científica no Brasil, nenhuma é negra; apenas 10 mulheres negras se formaram na Escola Politécnica da USP em 120 anos; e 4% é o percentual de negras entre as fundadoras de startups de tecnologia comandadas por mulheres nos EUA. O projeto PretaLab possibilita o mapeamento e a participação de mulheres negras e indígenas na área de tecnologia, fazendo uma rede de colaboração, além de oferta de oficinas como o WordPretas, em parceria com "minasqueprogramam".

Por Camila Marins (jornalista Fisenge)

 Como surgiu a Pretalab?

 A Pretalab é uma iniciativa do Olabi - organização social com foco na promoção da diversidade na produção de novas tecnologias. Nós nascemos em 2014 com a missão de democratizar o acesso às ferramentas e às máquinas de fabricação digital, partindo da ideia de que a inovação está na mão de quem tem as ideias, e não apenas nos grandes centros de pesquisa. Em 2016, já tínhamos a ideia de criar um hub [centro] para mulheres negras trocarem saberes em tecnologia. Só que não conhecíamos mais do que dez meninas negras no Rio de Janeiro que trabalhassem no campo da inovação e tecnologia, considerando os limites da nossa bolha. Decidimos mudar de estratégia, porque, quando começamos a pesquisar dados sobre gênero e raça nas tecnologias, vimos que esse recorte interseccional não é feito nas pesquisas, geralmente. Hoje, temos muitos dados sobre mulheres nas tecnologias (o que é muito bom), mas é complicado olhar para essa questão sem a interseccionalidade que ela demanda, sobretudo quando falamos de Brasil - o último país a abolir a escravidão. A gente olha para os dados do levantamento feito pelo grupo Poligen da USP que diz que em 120 anos a Escola Politécnica da USP não formou nem 10 mulheres negras, mas quando a gente pensa que esse ano completou 130 anos da abolição, a gente entende por que é impossível a USP formar mais mulheres negras em 120 anos.

 

Hoje, a Pretalab é uma iniciativa com dois objetivos gerais: levantar dados sobre mulheres negras e indígenas nas tecnologias a partir de um mapeamento colaborativo na rede e uma ação de comunicação: estamos fazendo dez vídeos para a internet com meninas e mulheres que consideramos referência nesses campos para inspirar outras meninas e para que elas possam considerar esse universo para elas também.

 Como você avalia a participação de mulheres negras e indígenas na produção de ciência e tecnologia?

 Sabemos que somos poucas, mas sabemos que existimos. Porém quando a gente não tem informação ou dados é difícil até dizer que existimos. No final do dia, o que a gente quer é levantar essa pauta e influenciar políticas de acesso e permanência dessas mulheres, no mercado de trabalho ou em instituições de ensino formal. Acreditamos no protagonismo de negras e indígenas nesses campos, porque sabemos que existem muitas de nós produzindo e usando tecnologias para diferentes fins.

 Temos uma teoria de que essa ausência está ligada diretamente a dois fatores: falta de acesso e referência. Acesso porque estudar no Brasil é privilégio e aqui classe tem cor. Dentro do guarda-chuva “acesso” também estão questões econômicas e de língua. A maioria desses conteúdos é em inglês e sabemos que poucos são os pobres que falam outro idioma em nosso país. É muito difícil você imaginar algo ou atuar em algum campo que você não vê ninguém parecido contigo. Normalmente, esses lugares techs estão destinados aos filhos e às filhas dos patrões. Para nós, negras e indígenas, ter a profissão de empregada doméstica é um destino quase certo. Minha avó era empregada doméstica, minha mãe é empregada doméstica. Costumo dizer que contrariei as estatísticas quando não me tornei uma.

 As mulheres ainda são minoria nessas áreas ainda predominantemente masculinas. Que iniciativas podem contribuir para a inclusão?

 A primeira iniciativa é olhar para essa questão e discutir muito, tanto no campo profissional como no campo da educação. Não é possível a sociedade achar normal só ver homens brancos ocupando esses espaços. É só a gente olhar para esses eventos de tecnologia e inovação, normalmente quem está nas mesas discutindo são homens, brancos e de classe média alta. De alguma forma isso hoje está mudando, embora precisemos avançar muito. Mas também acho que, mesmo entre as mulheres brancas, tem que existir uma solidariedade para que as mulheres negras estejam lá também e isso se passa primeiramente por olhar essas questões. Nós, negras, somos a base da pirâmide social, lideramos os piores índices quando o assunto é mercado de trabalho, saúde e educação. Somos as mais desempregadas, as que mais morrem em situação de partos, feminicídio, entre outros índices que são tão tristes e me deixam angustiada. Isso significa que ser mulher é um guarda-chuva mais amplo do que parece e dentro dele existem muitas camadas. Mulheres negras não são todas iguais, precisamos reconhecer a diversidade que existe quando usamos essas categorias.

 Qual a importância da apropriação das tecnologias?

 Hoje, o mundo é cada vez mais digital. Não voltaremos ao analógico. E se a gente não entender minimamente os processos em que estamos inseridas, isso nos deixa com muita desvantagem. Essas desvantagens são fruto de um processo histórico e precisamos olhar para elas. Não é uma ou duas iniciativas que vão dar conta de resolver o todo, mas podemos influenciar esse olhar e as pessoas para que pensem “fora das caixinhas”. Mesmo quando a gente não se considera alguém das tecnologias é preciso entender que na contemporaneidade estamos o tempo todo lidando com elas, seja na rede social ou na nota fiscal de uma compra na farmácia. Estamos gerando dados e informações sobre nossas vidas a todo tempo, mas a quem servem esses dados?

 Além disso, todas as tecnologias que usamos, desde os aplicativos às redes sociais, são desenvolvidas por pessoas que carregam visões de mundo, culturas. Todas as tecnologias são dotadas da visão de mundo e cultura de quem as cria. Então, não existe neutralidade. Se só usamos coisas feitas por homens, brancos e de classe média como poderemos ser entendidas nas nossas completudes? O que pode mudar quando as tecnologias são desenvolvidas por pessoas negras, trans, deficientes? É essa pergunta que norteia boa parte do que fazemos no Olabi, mas ainda estamos numa fase de mais perguntas do que respostas.

De que forma as mulheres engenheiras podem contribuir?

Primeiro de tudo é reconhecendo que existem essas diferenças dentro dos feminismos e que a questão de raça/etnia também é uma categoria social que exclui muitas mulheres. Segundo, fortalecendo outras meninas e mulheres que estão a fim de entender mais sobre esse universo, para que possam se inspirar e fortalecer esse movimento.

 Projeto dá visibilidade a mulheres negras e indígenas na área tecnológica

Crédito Foto: Divulgação/Olabi MakerSpace

 

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O estrangulamento da rede federal de ensino superior e de institutos de pesquisa por meio de cortes no orçamento já defasado, para beneficiar o mercado financeiro privilegiado pela política de Michel Temer (PMDB) está levando o país a um franco retrocesso. E mesmo tecnologias que o país já domina há tempos, como vacinas, por exemplo, podem vir a ser sucateadas e a ponto de inviabilizar a produção. E o país voltará a ser totalmente dependente de tecnologia estrangeira, mais cara, e seguirá na contramão de países avançados que investiram no setor como saída para a crise.

‘Voltaremos a depender totalmente de tecnologia estrangeira’, diz presidente da SBPC

É o que teme o novo presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ildeu de Castro Moreira, que tomou posse na última quinta-feira (20). Físico, professor e pesquisador do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele participou dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff à frente do Departamento de Popularização e Difusão da C&T do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação de 2004 a 2013.

Segundo Ildeu, o orçamento deste este ano, defasado, que sofreu ainda contingenciamento de 44%, é de R$ 2,5 bilhões e corresponde a 25% do orçamento de 2010. E com a Emenda Constitucional 95/2016, que congela investimentos federais em saúde, educação, ciência e tecnologia, entre outras áreas estratégicas, o panorama é desanimador.

Reportagem da TVT

"Programas estratégicos, conduzidos nos institutos nacionais de pesquisa e em universidades, correm sério risco. Dos 252 existentes, apenas 101 têm sido contemplados. A expectativa é dramática porque está em risco a continuidade de pesquisas. Muitos jovens que estão se formando ou vindo de especialização não têm onde ingressar", disse.

O desafio da SBPC, segundo ele, é reverter esse quadro por meio do descontingenciamento dos recursos e de melhorar o orçamento de 2018 – uma luta sobretudo política. E assim conseguir retomar o trabalho que vinha sendo feito.

"O Brasil reagiu de maneira rápida ao surto de microcefalia causado pelo zika vírus porque tem competência científica em várias áreas, como vacinas, por exemplo. Competência que vinha sendo estimulada nos últimos anos, quando a ciência produzida no país aumentou, assim como o número de doutores e de pesquisas publicadas literatura científica internacional."

A entidade criada em 1948 e que teve papel de destaque na resistência contra a ditadura civil-militar, com muitos de seus dirigentes presos e exilados, percorre atualmente gabinetes de deputados e senadores em busca de apoio para a derrubada dos cortes orçamentários.

Além da questão de financiamento, Ildeu destacou os ataques à autonomia universitária e lembrou a proposta que descaracteriza totalmente a Universidade Federal de Integração Latino-Americana (Unila). Criada no governo de Luiz Inácio Lula da Silva para produzir conhecimento em prol do fortalecimento regional, a universidade está na mira de uma emenda que poderá transformá-la em universidade voltada aos interesses do agronegócio. A proposta inclui a anexação de dois campi da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A assembleia geral da SBPC aprovou moções de repúdio à proposta, bem como de apoio a outras universidades públicas, como a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Fonte: Rede Brasil Atual

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Estudo divulgado, no dia 22/6, pela Editora Elsevier, considerada referência em produção científica no mundo, revela que Brasil e Portugal têm os maiores percentuais de participação feminina na produção científica dos países: 49%, considerando o quinquênio 2011-2015. No caso brasileiro, houve um crescimento significativo na comparação com 1996-2000, quando 38% da pesquisa do país eram feitos por mulheres.

O estudo Gender in the Global Research Landscape (Gênero no Cenário Global de Pesquisa, em tradução livre) mede o desempenho da pesquisa e representação de gênero em 12 países ou regiões geográficas (somente a Comunidade Europeia tem 28 países) e 27 disciplinas.

“O Brasil evoluiu bem em termos de presença feminina na pesquisa científica. No primeiro quinquênio pesquisado, já havia uma participação importante e nesse último quinquênio, a participação feminina pulou para 49%, colocando o Brasil em primeiro lugar junto com Portugal”, disse o vice-presidente de Relações Acadêmicas para a América Latina da Elsevier, Dante Cid.

Segundo ele, a participação das mulheres na pesquisa científica tem crescido em todas as regiões analisadas. No Brasil, está “praticamente com empate técnico” em relação aos homens, que aparecem com 51%. Nesse último quinquênio, o país que ficou mais abaixo em termos de participação feminina foi o Japão (20% contra 80% de presença masculina), embora o número de pesquisadoras tenha evoluído em comparação ao quinquênio analisado anteriormente (15%). “Mas ainda é bastante baixo por questões culturais, profissionais locais. Já o Brasil está conseguindo equilibrar bastante essa questão.”

Entre 1996 e 2000, nos 12 países ou regiões estudados, apenas em Portugal o percentual de participam mulheres na produção científica superava 40% do total. Já no período 2011-2015, nove países ou regiões mostraram participação de pesquisadoras igual ou superior a 40% (Austrália, Brasil, Canadá, Dinamarca, União Europeia, França, Portugal, Reino Unido e Estados Unidos). De acordo com o estudo, apenas Chile, México e Japão têm participação de mulheres na produção científica abaixo desse percentual.

Disciplinas

A análise feita por disciplinas revela que a presença feminina na pesquisa científica é muito maior que a masculina no Brasil em áreas ligadas à saúde, como medicina, bioquímica, genética, odontologia e enfermagem. Já os homens são maioria nas ciências exatas, entre as quais engenharia, física, computação, energia e ciências econômicas.

Segundo Dante Cid, entre as pesquisadoras da base de dados da Elsevier, 24% se dedicam à medicina; entre os homens, esse percentual é de 17%, ou 80,6 mil mulheres e 65 mil homens, em números absolutos.

Por causa desse perfil, o representante da Elsevier calcula que no próximo quinquênio a ser analisado, a participação de mulheres na produção científica brasileira deve ultrapassar de homens, em especial na área de saúde. “É muito possível que o percentual de mulheres no futuro próximo venha superar o dos homens."

De acordo com a diretora da Academia Brasileira de Ciências (ABC), a doutora em física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Márcia Barbosa, a menor presença feminina na área das ciências exatas é um fenômeno mundial. “Eu descobri que era um ET[extraterrestre] no primeiro dia na faculdade de física”, lembrou. Dos 40 alunos no curso, segundo ela, quatro eram mulheres, mas apenas ela se formou.

Para a pesquisadora, as origens da baixa participação das mulheres nas áreas exatas está relacionada à maneira como se educam e ensinam as crianças, que associam desde pequenas máquinas e equipamentos a atividades masculinas, ao passo que as mulheres são ensinadas a ser mais sociais e a não serem vistas como “nerds”, pessoas muito dedicadas aos estudos.

Patentes

O estudo constatou também que a presença feminina em relação a patentes é muito baixa no mundo inteiro. “Não chega a 20%”, destacou Cid. O país que tem presença maior feminina neste setor é Portugal, com 26%. O Brasil aparece em segundo lugar, com 19%, contra 11% no quinquênio anterior, superando países como França (17%), Estados Unidos (14%), Reino Unido (12%), Austrália (12%).

Igualdade

Na avaliação da diretora da ABC , o crescimento da participação feminina nas publicações científicas é um bom sinal para as pesquisadoras brasileiras.

“Significa que as coisas, lentamente, estão melhorando, mas, ao mesmo tempo, ainda não refletiu no poder. A gente está em igualdade de posições entre as pesquisadoras, mas o grande desafio é tentar manter essas pesquisadoras no mercado de trabalho, na medida em que avançam na carreira”, ponderou.

Segundo Márcia, é preciso estimular a presença e permanência de mulheres na produção científica. “Ter mais diversidade, pessoas com culturas diferentes, traz ideias novas para o ambiente de trabalho”, destacou. “O que a gente precisa fazer agora é manter essas mulheres no ambiente de pesquisa, viabilizando que elas possam crescer na carreira”, acrescentou.

Edição: Luana Lourenço
Foto: Marcello Casal/ Agência Brasil
Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

Brasil e Portugal têm maior percentual de mulheres na produção científica

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Dados divulgados pelo coletivo Poligen, grupo de estudos de gênero da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), apresentam uma dura realidade. Em 121 anos de existência, apenas sete mulheres negras se formaram na faculdade de Engenharia da USP. Entre as 19 pioneiras da ciência brasileira homenageadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), nenhuma era negra.

Quando o assunto é remuneração, elas também são as mais desfavorecidas. De acordo com dados de estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2016, as mulheres negras ganham um salário 40% mais baixo que o de homens brancos. Os números divulgados são da pesquisa Mulheres e Trabalho: Breve Análise do Período 2004-2014, e mostram que, apesar de a situação ter melhorado, essa parte da população ainda é a que recebe menores salários.

Projeto luta para a inclusão de mulheres negras em áreas da tecnologia

Diante desse quadro, a Olabi, empresa focada em criatividade e tecnologia para a inclusão social, criou o PretaLab. A iniciativa, lançada oficialmente em março deste ano e idealizada por mulheres negras, tem como principal objetivo realizar um levantamento sobre a participação de negras e indígenas nos campos de inovação e tecnologia.

A pesquisa, que coletará histórias de diversas mulheres, criou um formulário em seu site. De acordo com as organizadoras, com tão poucos dados disponíveis sobre a participação de mulheres negras na tecnologia, fica difícil criar ou orientar políticas públicas de inclusão de gênero e racial. Além de engenheiras e profissionais da computação, são convidadas a participar do projeto profissionais de outros campos da informação, como cientistas de dados, youtubers e analistas de mídias sociais.

Em geral, a participação de mulheres em cargos relacionados à tecnologia está longe do ideal. Conforme levantamento feito pelo Ministério da Educação em 2013, apenas 15,53% dos ingressantes em cursos relacionados a computação e tecnologia são mulheres.

Globalmente, o problema é similar: estudo realizado pela revista Harvard Business Review indica que as mulheres compõem 41% dos empregos ligados a tecnologia e ciência nos Estados Unidos. No entanto, 52% delas abandonam a área — o ambiente machista é um dos principais fatores que as levam a desistir de seus empregos.

Fonte: Revista Galileu

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