Obra lançada durante encontro na CUT-SP retrata que abrir mão do papel do Estado significa ampliar a desigualdade

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Foto: CUT SP

As políticas públicas de inclusão no Brasil em pouco mais de uma década promoveram mudanças significativas na realidade da população brasileira. A vida de mulheres e homens em situação de exclusão quanto ao acesso a bens e serviços no país melhorou.  Mas, na contramão desses avanços, as políticas de austeridade fiscal implementadas a partir de um novo contexto político alteraram a condição de vida do povo brasileiro, impactando de forma mais perversa as mulheres – especialmente as negras.

Esta foi a avaliação da pesquisadora e doutora em Economia, Marilane Teixeira, nesta quinta-feira (2), durante o Encontro de Mulheres Sindicalistas, organizado pela Secretaria da Mulher Trabalhadora da CUT São Paulo, no centro da capital paulista. Na ocasião, ela lançou o livro “Economia Para Poucos: impactos sociais da austeridade e alternativas para o Brasil”, da editora Autonomia Literária, organizado por Pedro Rossi, Esther Dweck e Ana Luíza, no qual é uma das autoras.

“Quando se compara o orçamento público de 2014 ao de 2018, percebemos que algumas políticas praticamente desapareceram. No caso das políticas para as mulheres houve uma queda de mais 80%, em ações que envolvem, por exemplo, o combate à violência, que é uma política importante e que costuma ter resultados efetivos”, afirma a economista.

As decisões governamentais atingem tanto mulheres urbanas como mulheres rurais. “O orçamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário despencou de R$ 9 bilhões para R$ 1 bilhão. Além disso, os recursos para as políticas de educação infantil, que envolvem também as creches, foram reduzidos em 17% com relação ao que era destinado para esta área em 2014.”.

Diante disso, o cenário é de terra arrasada, avalia Marilane. Além disso, é preciso, observa, ter maior atenção na retomada da atividade econômica daqui alguns anos no Brasil. “Em algum momento isso irá acontecer. E o aumento de receita que advém justamente da ampliação da carga tributária em decorrência do crescimento econômico acabará sendo gasto para as despesas da dívida pública. E não se poderá usar nem um centavo deste dinheiro para as políticas sociais”, diz.

A nova regra fiscal, explica, impõe a redução do tamanho do gasto do governo central na economia, que pode passar de 19,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2017 para 12,4% em 2037. “Se formos por este caminho, estaremos entre os países do mundo que menos investe em políticas sociais. Isso inviabiliza qualquer plano de consolidação e expansão do acesso a direitos sociais, além comprometer os investimentos e o próprio funcionamento da máquina pública.”.

 A economista defende que o papel do Estado seja reforçado e o do mercado seja reduzido. Para ela, abrir mão do papel do Estado significa ampliar as desigualdades de classe, raça e gênero. “Se os cortes nas políticas sociais continuarem acontecendo, num contexto de economia em crescimento, o cenário de miséria, de pobreza e de desigualdades irá piorar, principalmente para as mulheres negras que são as mais afetadas já que figuram entre os que têm o menor nível de emprego e estão entre as maiores taxas de desemprego em nossa economia.”

Para Marilane, o Brasil sairá deste cenário de retrocessos se algumas medidas foram tomadas, como a revogação da Emenda Constitucional (EC) 95, medida adotada pelo governo que limita investimentos públicos por 20 anos no Brasil. “Precisamos, ao contrário, de uma política de elevação dos gastos sociais para ampliar os investimentos públicos e retomar a atividade econômica”, aponta a economista, que, ao falar sobre o cenário de eleições, defende também a mudança imediata do governo e de parlamentares que apoiaram não apenas a EC 95, como a reforma trabalhista e outras retiradas de direitos.

Intercâmbio no Japão

Em outro momento do encontro, a secretária de Comunicação da CUT São Paulo, Adriana Magalhães, apresentou os resultados de sua experiência no Japão, em intercâmbio envolvendo o Brasil e outros países da América Latina entre os dias 13 e 20 de julho.

Um dos aspectos relacionados ao mundo do trabalho que ela abordou foi a realidade das trabalhadoras japonesas. Em 2016, o Japão tinha 28,8 milhões de mulheres trabalhando, o equivalente a 44,3% da população feminina, segundo dados divulgados pelo governo japonês em novembro de 2017. Porém, essas trabalhadoras, da mesma forma que no Brasil, não estão em sua maioria nos espaços de poder.

Além disso, a dirigente relatou que uma das situações que hoje preocupa o movimento sindical japonês é o número de trabalhadores não regulares. Dados do Ministério dos Assuntos Gerais do Japão, de 2016, mostram que existem 20,2 milhões de trabalhadores nesta situação, ocupando 37,5% do total de trabalhadores formais. As mulheres representam 13,7 milhões neste universo de trabalho informal.

“Apesar de o Brasil e o Japão terem uma cultura e história diferentes, temos lutas em comum em defesa da classe trabalhadora. Neste intercâmbio, não trocamos apenas experiências com o movimento sindical do Japão, mas saímos mais fortalecidos para nossa luta no Brasil”, conclui a dirigente.

 

FONTE: CUT / Escritor por Vanessa Ramos

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“Vamos junt@s, companheir@s! Com o seu querer e a minha vontade”. Este é o tema da 5ª Conferência Regional de Mulheres da UNI Américas realizada, nos dias 5 e 6/12, em Medellín, na Colômbias. Participam dirigentes de entidades sindicais de vários países das Américas. Na delegação brasileira, a engenheira química Simone Baía representa a Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge), onde exerce mandato como diretora da mulher. Na tarde do dia 5/12, Simone defendeu a aprovação de uma moção de combate à violência de gênero. “Faço parte de uma federação cuja base tem maioria de homens e temos feito trabalho sistemático de combate à violência de gênero. É fundamental que todas as entidades de classe se engajem, porque direitos trabalhistas são direitos humanos”, iniciou Simone que também destacou que o número de mulheres negras assassinadas aumentou 54% em 10 anos.
De acordo com Simone, é preciso localizar gênero e raça nas disputas do mundo do trabalho e enfrentar pautas ditas de "minoria". “Precisamos ter a compreensão de que essas pautas não são apenas de mulheres, e sim de toda a sociedade baseada por princípios de direitos humanos”, afirmou.

Simone também lembrou da situação de vulnerabilidade de crianças e adolescentes. “O Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada] mostra que 89% das vítimas são pessoas do sexo feminino e com baixa escolaridade, sendo do total 70% crianças e adolescentes. Este é um cenário alarmante que atravessa a vida de muitas meninas”, alertou.

A engenheira ainda fez a relação entre a violência do mundo do trabalho e a violência de gênero. “Geralmente, estas violências são manifestadas na disputa capital e trabalho por melhores salários e distribuição de renda, assim como na garantia de condições de trabalho e bem-estar social. Assédio moral, violação da licença-maternidade e acúmulo de jornada e demais questões do trabalho também são violências de gênero”, concluiu Simone.

Na Colômbia, diretora da Fisenge participa de 5ª Conferência Regional de Mulheres da Uni Américas

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