Capítulo 1 – 1960 a 1986 – da juventude universitária católica ao grupo “Luz”

Por Ubiratan Félix*

Na década de 1960, o Movimento Estudantil (ME) universitário baiano estava praticamente restrito à Universidade Federal da Bahia (UFBA), e a principal entidade organizativa dos estudantes foi a União dos Estudantes da Bahia (UEB). O Diretório Central dos Estudantes (DCE–UFBA) era uma entidade com finalidade de prestação de assistência aos estudantes, principalmente em relação à residência e ao restaurante universitário. 

No movimento estudantil baiano havia duas grandes forças políticas, entre elas o Partidão (Partido Comunista Brasileiro) que tinha entre os seus quadros Jorge Medaur e a JUC (Juventude Universitária Católica - que depois se tornaria a famosa Ação Popular, AP), que tinha Haroldo Lima, Severo, Jorge Leal Gonçalves e Paulo Mendes como lideranças, e eram conhecidos como os “três mosqueteiros da Politécnica”. 

Em 1961, o I Seminário de Reforma Universitária da União Nacional dos Estudantes (UNE) aconteceu em Salvador. Na época, o presidente da UNE era o estudante goiano, Aldo Arantes que, no futuro, seria membro da comissão executiva da AP e do PCdoB e eleito Deputado Federal por duas legislaturas. 

Após o golpe de 1964 com a crise do PCB em nível nacional, surgiram na Bahia as dissidências estudantis do PCB, que se aliavam a POLOP local e nacionalmente, formando um bloco cuja prioridade era a luta “sindical ou específicas dos estudantes”. Por outro lado, o bloco AP/PCdoB defendia que a tarefa central do movimento estudantil era a denúncia do regime fascista de 1964, organizando, inclusive, grandes atos que eram violentamente reprimidos pela ditadura. Esta atuação tinha a finalidade de mostrar às grandes massas operárias e camponesas que não havia ilusão para uma saída democrática. 

No período pós-golpe na Bahia, entre as principais lideranças do bloco AP/PCdoB se destacou José Fidelis Sarno, que assumiu a presidência da UNE em 1965 em substituição a Altino Dantas. Hoje, Fidelis é engenheiro e empresário. Já do bloco POLOP/DISSIDÊNCIAS, podemos destacar o estudante de engenharia química da POLI–UFBA, Pery Falcon, atual dirigente do PT–BA; e pelo PCB, o estudante de arquitetura Sérgio Passarinho, presidente da UEB em 1968 e que seria, em 1982, vereador pelo PMDB de Salvador. 

No inicio da década de 1970, a UNE e a UEB estavam na ilegalidade. O último presidente eleito da UNE foi Honestino Guimarães, considerado desaparecido político. Outros diretores, como José Genoino, estavam na luta armada no Araguaia. Antigos militantes da década de 1960, como Fidelis Sarno, Haroldo Lima, Severo e Jorge Leal Gonçalves estavam na clandestinidade, no exílio, presos ou também contabilizados como desaparecidos políticos. 

Em 1973, estudantes iniciam um movimento de reconstrução do DCE–UFBA e dos diretórios acadêmicos. Eles eram ligados principalmente ao PCdoB/AP, com destaque para Olival Freire, que atualmente é professor de Física da UFBA; e Manoel José, que foi professor da Faculdade de Arquitetura, falecido em 2005. 

No período de 1973 a 1983, a corrente “Viração” (braço estudantil do clandestino PCdoB) hegemonizou o ME baiano e da UFBA. Nesse processo de luta, quadros importantes surgiram, como Luiz Nova (foi Deputado Estadual do PMDB e PCdoB); Vandilson Costa (foi Deputado Estadual do PMDB e PCdoB); Clara Araújo (foi presidente da UNE); Ruy César (foi presidente da UNE); Javier Alfaya (foi presidente da UNE e Deputado Estadual); Lídice da Mata (foi presidente do DCE–UFBA, prefeita de Salvador e atualmente é Deputada Federal); Sidônio Palmeira (foi presidente da UEB e atualmente é empresário do setor publicitário). 

Na oposição ao PCdoB destacava-se a corrente “Combate” com muita inserção em Cruz das Almas, que era liderada por Jersulino Moraes (Binho) que, no futuro, seria Engenheiro Agrônomo, presidente da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado da Bahia (EMATER-BA) e Deputado Estadual pelo PDT; Wilton Cunha (Betânia) que seria secretário de finanças de Vitória da Conquista e Diretor Geral da Secretaria de Educação da Bahia. Também na oposição havia a corrente “Unidade”, que tinha Zulu como sua principal expressão e os membros da União dos Residentes Livres e Comensais (URLC), que tinha forte base de apoio na residência estudantil e usuários do Restaurante Universitário. O seu principal expoente era Lu Cachoeira. 

No início da década de 1980, o PCdoB atingiu o ápice de sua hegemonia no ME baiano, elegendo Lídice da Mata presidente do DCE da UFBA e vereadora, a terceira mais votada de Salvador em 1982 e mais dois ex-militantes eleitos vereadores do movimento estudantil: Jane Vasconcelos e Ney Campelo. Além disso, o partido ainda dirigia o DCE–UFBA e UEB. Dos cinco presidentes da UNE eleitos até 1983, três eram baianos e todos do PCdoB. 

Em 1983, a chapa “Solidariedade” - que reunia militantes estudantis da “Correnteza” (corrente ligada a OCDP, antiga AP – Ação Popular) com o apoio dos independentes - conseguiu, pela primeira vez, derrotar a “Viração”. É importante destacar a atuação do então estudante do Estudante de Medicina Jorge Solla, atual Deputado Federal do PT- BA e Luís Eugenio Portela, atual Professor de Medicina da UFBA. 

Em 1984, a “Viração” retomou o DCE–UFBA, reelegendo em 1985, quando foram apresentadas três chapas: “Transformar” (novo nome da Viração), “Diretas Já” (correntes petistas) e “Luz” (grande novidade do Movimento Estudantil, pois se autoproclama independente, apartidária e tem como principal bandeira à priorização das lutas específicas dos estudantes). A chapa “Luz”, com amplo apoio dos estudantes independentes, dos oriundos de “Combate” e da URLC, fica em segundo lugar derrotando a chapa ligada às correntes do PT. 

Em 1986, o desgaste do PCdoB/Viração é evidente. A chapa ligada à “Correnteza” - corrente estudantil ligada à organização MCR (Movimento Comunista Revolucionário) que atuava no PT - conquista o DCE da Universidade Católica de Salvador (UCSAL). E, na UFBA, a chapa “Luz” tem uma vitória arrasadora, sem o apoio ou simpatia das correntes organizadas do PT. Esta chapa foi liderada pelos estudantes Reinaldo Neto (Engenharia Mecânica e atualmente empresário do setor de manutenção e projetos industriais),Edson Brochado (Engenharia Elétrica), Ronney Greve (Direito), Zé Neto (estudante de Física e atual deputado federal do PT-BA), Zé Luiz (Direito), Zeca Diabo (Veterinária), Rosan (Farmácia), Bonfim (Museologia), entre outros. 

É importante ressaltar o papel que o Engenheiro Agrônomo Jersulino Moraes (ex-líder estudantil da corrente “Combate”) e Luis Cachoeira (sociólogo da Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional - CAR) tiveram na formação da chapa e do grupo “Luz”. A gestão à frente do DCE-UFBA é inovadora e realizam palestra sobre o pacote econômico com Eduardo Suplicy; Festival de Cinema Eisenstein; debate sobre reforma universitária; e avaliação dos docentes pelos discentes, por exemplo. Em vista deste quadro, a chapa “Luz” resolve em 1987 lançar a chapa “FAÇA–SE A LUZ (FIAT LUX)”, única inscrita, configurando fato inédito na história da UFBA e que refletia a desorganização politica da “Viração” e das forças organizadas que atuavam naquele momento no movimento estudantil. 

A chapa “Faça–se a Luz” é liderada por Ubiratan Félix (Engenharia Civil); Edson Valadares (Sociologia); Marquinhos (História); Afonso Florence (História e atual Deputado Federal do PT-BA); Bocão (Física); Paulo Vasconcelos (Medicina); Carlito (Medicina); e André Luís (Engenharia Civil). O Grupo de São Lázaro não apoia a esta construção e prefere se abster da votação. Esta aliança era liderada por Robson “Dinossauro”, Eduardo (atual Professor da UNEB), Amélia Malraux (que foi vice–Reitora da UNEB), André Cafezinho (atual professor da UEFS), assim como a “Caminhando” (José Geraldo G-2 estudante de Sociologia e futuro secretário de Meio Ambiente do Estado da Bahia no Governo Rui Costa do PT e Jorge Solla atual deputado Federal do PT-BA) e da “Correnteza” Nelson Pelegrino (que era estudante de Direito da UFBA e atual deputado federal e Rafael Luchessi, estudante de Economia e atual diretor da Confederação Nacional da Indústria. 

Na gestão “Faça-se Luz” dois grupos foram formados. O primeiro foi liderado por Afonso Florence, Edson Valadares e Robinson Almeida, configurando a composição majoritária que daria origem à corrente “Democracia Socialista” (D.S). O segundo foi liderado por Ubiratan Félix. Embora com força minoritária, o grupo tinha maioria nos diretórios acadêmicos. Entre os quadros estavam Zé Luis, Jadir, Augusto Bocão, Chambinho, Vitor Sarno que, mais tarde, iriam compor o núcleo fundador da futura Articulação Estudantil (A.E), também conhecida como “É preciso ousar”, cujo símbolo é a borboleta. 

 


Capítulo 2 – A crise de hegemonia do grupo “Viração” na UNE
 

A partir da reconstrução da UNE, em 1979, no Congresso de Salvador, a corrente “Viração” - que no Sul se chamava “Caminhando” - hegemonizou o movimento estudantil nacional, elegendo todos os presidentes, Rui César, Aldo Rebelo, Clara Araújo, Javier Alfaya, Renildo Calheiros e Gisele Mendonça. Foi neste congresso de reconstrução que o grupo elegeu, por meio de chapa de unidade, o estudante de comunicação, Rui César. Sua eleição foi fruto de sua eficiente atuação na presidência do DCE–UFBA. Na direção do XXXI Congresso da UNE havia outros candidatos como Valdelio Silva (Viração), Paulo Massoca, Marcelo Barbieri (Refazendo) etc. 

É importante reafirmar que a indicação de Rui César não foi em função de um veto da “Viração” a Valdélio Silva por este ser negro. Este rumor, que foi muito difundido na Bahia na década de 1980, não tem base histórica. Durante a minha gestão na UNE, em 1988, eu tive a oportunidade de conhecer e conversar com diversos dirigentes estudantis como Marcelo Barbieri (que foi Deputado Federal pelo PMDB-SP); José Genoino (foi Deputado Federal pelo PT–SP), José Dirceu (foi Deputado Federal pelo PT–SP); Jean Marc Van Der Weid (presidente da UNE em 1968); Wladimir Palmeira (que foi Presidente da UME–RJ e também Deputado Federal PT–RJ); Luis Guedes (presidente da UNE em 1967); José Serra (presidente da UNE em 1964 e Ex-Governador de São Paulo pelo PSDB); e Candido Vacarreza (baiano que foi Deputado Federal do PT–SP). Destes, todos foram unânimes em reconhecer como natural a indicação de Rui César para Presidente, devido a seu papel na direção e articulação do Congresso de Reconstrução da UNE. 

Em 1984, na eleição de Renildo Calheiros (atual deputado federal do PCdoB–PE), pela primeira vez, a “Viração” foi minoria entre os delegados do Congresso da UNE. Diante deste cenário, a “Viração” compôs uma chapa com a “Caminhando” (corrente estudantil ligada à dissidência do PCdoB, futuro PRC, Partido Revolucionário Comunista) que indicou, entre outros, o vice–presidente José Utizig. Já a “Correnteza” (grupo ligado à OCDP) indicou o estudante de direito da UFBA, Nelson Pelegrino (atual Deputado Federal PT-BA). 

EM 1985, à revelia da “Viração”, o CONEB da UNE realizado em Vitória da Conquista (BA) aprovou eleições diretas para diretoria da UNE. Foram apresentadas as seguintes chapas “UNE LIVRE” (Viração/PCdoB), “Pra Sair Dessa Maré” (“Caminhando”, “Correnteza” e demais correntes do PT), “Pra Arrebentar a Boca do Balão”, entre outras. A eleição foi bastante tumultuada e todas as chapas - com exceção da “UNE LIVRE” - não reconheceram o resultado da eleição devido às denuncias de fraudes “patrocinadas pela Viração” que ocorreram principalmente em São Paulo. 

Na Bahia, a corrente “Luz” que dirigia o DCE–UFBA e o grupo de “São Lázaro”, assim como o que restava das composições “Caminhando” e “Correnteza”, apoiaram a chapa ”Pra Sair Dessa Maré”. Esta aliança permitiu que o pessoal do Grupo Luz aprofundasse a sua relação com o PT. 

A gestão “UNE LIVRE” - presidida pela estudante mineira Gisela Mendonça e atual editora da revista Fórum - não foi reconhecida pela maioria das entidades estudantis brasileiras. Em vista disto, o PCdoB propôs a criação de uma comissão paritária com as forças de oposição para organizar o XXXVIII Congresso da UNE, em Campinas (SP). 

O DCE–UFBA, que era dirigido pela gestão “Faça–se a Luz” teve um papel importante nesse processo representando os DCE’s Independentes do Nordeste. A liderança que representava esta articulação na comissão organizadora era Ubiratan Félix, estudante de engenharia civil da UFBA. 

O congresso de Campinas, realizado em 1987, pôs fim à hegemonia do PCdoB/Viração na direção da UNE. Pela primeira vez, os petistas apresentavam uma chapa unitária representando todas as correntes do partido. A diretoria da UNE era encabeçada pelo estudante de História da UFPA e militante da “Caminhando”, Valmir Santos. Esta corrente tinha, além da presidência, mais cinco diretorias. Já a “Democracia Socialista” compunha a vice–presidência com o estudante gaúcho Milton Pantaleão e mais uma diretoria. A “Articulação Estudantil” tinha a Secretaria-Geral com Eugenio Pasqualini e mais cinco diretorias e a “Convergência Socialista” com duas diretorias. Por fim, o Coletivo Gregório Bezerra conquistou uma diretoria. 

No Congresso de São José dos Campos (SP), em 1988, o PCdoB foi novamente derrotado. Pela primeira vez, houve uma convenção dos delegados petistas para indicar quem encabeçaria a chapa do campo do PT. Foram apresentados dois candidatos: Juliano Corbelini da “Caminhando” e Hamilton Lacerda da “Articulação Estudantil” com apoio da D.S., sendo que o Juliano Corbelini foi o vencedor. 

A “Articulação Estudantil” (AE) tinha oito diretorias, formando a maior força política da UNE. Em uma reunião da Comissão Executiva Nacional da AE foi decidido que seus principais quadros deveriam ocupar a posição de vice nas regionais da UNE, com objetivo de ampliar a influência da corrente nos DCE’s e UEE’s. Desta forma, Hamilton Lacerda foi vice-presidente regional de São Paulo, Bira vice-presidente Regional da Bahia e de Sergipe e Eugenio Pasqualini, vice-presidente da regional de Minas Gerais. 

A partir da sua indicação para vice–regional da UNE, Bira começou a construção da “Articulação Estudantil” na Bahia. No final de 1988, Julio Rocha foi eleito Presidente do DCE–UFBA. Já o DCE–UNEB era dirigido por Carrilho Guanaes e por outros membros da “Articulação Estudantil”, na UESC. Adeilton e outros companheiros da AE dirigiam o DCE, na UCSAL. Por meio do Centro Acadêmico de Direito - que era dirigido por Adriano Romariz, Elder Verçosa, Jânio Coutinho, Marta Simone, Ariadne Murici, entre outros - houve uma composição com o grupo de Serginho São Bernardo que era militante da D.S., com o objetivo de formar uma chapa de unidade do campo PT, que derrotou novamente o PCdoB. 

A partir da UNE, a “Articulação Estudantil” tornou-se a corrente hegemônica no movimento universitário baiano e revelou alguns quadros que, hoje, são pessoas importantes na sociedade baiana como: Paulo Gabriel, que ex-reitor da UFRB (LUZ); Zé Neto, deputado federal do PT–BA (LUZ); Jerônimo Rodrigues, atual secretário estadual de educação da Bahia (AE); Julio Rocha diretor da faculdade de Direito da UFBA; Alexandre Chambinho, advogado e professor universitário.

 
Capítulo 3 – Nasce Articulação Estudantil 

No congresso da UNE de 1987, em Campinas (SP), nasce a corrente Articulação Estudantil (AE), que contou com o apoio do então Deputado Federal do PT–RJ Vladimir Palmeira (Presidente da UME–RJ em 1968) e do então Deputado Estadual do PT–SP José Dirceu (Presidente da UEE–SP em 1968). Dirceu achava importante o surgimento de uma corrente petista no movimento estudantil que tivesse como finalidade a construção do PT como um partido estratégico, já que as correntes que atuavam no PT na época o consideravam um partido tático e eleitoral, sendo que algumas organizações como PRC atuava no paralelamente no PT e no PMDB. Estas organizações, na visão de Dirceu e Palmeira, eram verdadeiros partidos dentro do partido. 

Participaram do núcleo inicial da AE: Luis Martins (estudante de Física, diretor do DCE–UNICAMP e atualmente professor da Universidade Federal de Juiz de Fora); Takemoto (estudante de Engenharia Mecânica e Diretor do DCE–UNICAMP); Hamilton Lacerda (estudante de engenharia elétrica e diretor do DCE–UNICAMP), Kalil Bittar (estudante de Química, Diretor do DCE–UNICAMP e atual empresário do setor de informática); William Alberto (estudante de História, coordenador geral do DCE–USU e ex-Secretário de Educação do Rio de Janeiro); Flavio Dino (estudante de Direito, Presidente do DCE–UFMA e atual Governador do Maranhão pelo PCdoB); José Augusto Góes (estudante de Geografia, diretor da DCE-UFSE e ex-assessor da Presidência da PETROBRAS); Eugenio Pasqualini (estudante de Psicologia da UFMG); Ubiratan Félix (estudante de Engenharia Civil, coordenador geral do DCE-UFBA e atual Presidente do SENGE–BA e vice-presidente da Fisenge). 

A “Articulação Estudantil” defendia a concepção de que o ME era um espaço diferenciado de atuação política, que não era superior tampouco inferior ao movimento operário e camponês. Em vista disto, a AE defendia que a prioridade do movimento estudantil deveria ser as lutas relativas ao acesso e à qualidade da educação universitária, como itens prioritários do Programa Democrático Popular de transformações rumo à sociedade socialista. A Articulação Estudantil trabalhava com conceito de minoria ativa, em contraposição ao conceito de vanguarda (defendido pelo PCdoB e pela quase totalidade das correntes petistas). A minoria ativa dirige o movimento de acordo com os interesses das grandes massas, impulsionando a suas reivindicações para o campo democrático e popular.

As principais bandeiras da Articulação Estudantil eram de reestruturação do movimento estudantil, visto que na sua concepção existia uma crise na organização, oriunda das décadas de 1950 e 1960, que não era condizente com as demandas; bem como as reivindicações dos estudantes da atualidade e a unidade da ação dos militantes petistas no movimento. De forma sintética podemos relacionar como principais propostas: 

 

  • Extinção das UEE´S e criação da UNE´s Regionais; 
  • Ampliação do Conselho Nacional de Entidades Gerais (CONEG) com inclusão das executivas e/ou federações de cursos; 
  • Eleição dos Delegados para o congresso nacional da UNE nas instâncias regionais; 
  • Priorização das lutas “sindicais e/ou especificas dos estudantes”; 
  • Atuação unitária do PT no movimento estudantil, ou seja, as correntes e/ou tendências não deveriam ter expressão externa; 
  • Fortalecimento das instâncias partidárias, como ENEPT (Encontro Nacional dos Estudantes Petistas) e secretarias nacionais, estaduais e municipais de juventude.

 

A corrente teve, ainda, uma atuação relevante até 1993, quando o racha na antiga “Articulação” do PT provocou o surgimento da “Articulação Unidade na Luta” e da “Articulação de Esquerda”. É importante ressaltar que a maioria das lideranças oriundas e/ou atuantes na “Articulação Estudantil” tinha uma grande inclinação pela “Articulação de Esquerda”. Questões relacionadas à luta política e de espaço nos estados fez que muitos destes não se posicionassem e/ou tentassem a neutralidade. 

Com a evolução dos fatos, duas diferentes posições passaram a existir na “Articulação Estudantil”: a primeira defendia que o racha da “Articulação Estudantil” deveria ficar circunscrito ao PT e os militantes deveriam continuar atuando de forma unitária no movimento, independentemente da posição que cada um adotasse no PT (este posicionamento foi adotado pela articulação sindical). A segunda - que terminou majoritária - defendia o fim da “Articulação Estudantil” e que as posições adotadas no PT fossem também assumidas no movimento estudantil. 

Na Bahia, Ubiratan Félix - que já era formado em Engenharia Civil - defendeu a primeira posição, assim como Alexandre Sales Vieira, então vice–presidente Nacional da UNE. Adriano Romariz e Jânio Coutinho defenderam a segunda posição que, no futuro, seria a posição vitoriosa no Brasil e na Bahia. 

 

*Ubiratan Félix Pereira dos Santos (Bira) foi Coordenador Geral do DCE – UFBA em 1987, vice-presidente da UNE em 1988 a 1989, membro da comissão executiva da Articulação Estudantil de 1988 a 1989. Atualmente é professor do IFBA  e Presidente do Sindicato dos Engenheiros da Bahia.

Em artigo, engenheiro resgata trajetória do movimento estudantil baiano

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Encontro realizado no Senge-MG marca início da organização do EREDS 2016

Representantes do Senge Jovem Minas Gerais, do Crea-Minas Jr Núcleo Belo Horizonte e da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares “Alternativas de Produção” se reuniram na sede do Sindicato de Engenheiros no Estado de Minas Gerais (Senge-MG), na terça-feira, 1º de março, para iniciar a organização do Encontro Regional de Engenharia e Desenvolvimento Social (EREDS) 2016, que acontecerá na capital mineira, de 2 a 4 de junho.

O evento tem como público alvo estudantes de graduação de diversas áreas, alunos de pós-graduação, professores, profissionais em geral, empreendedores, comunidade e demais interessados e engloba toda a Região Sudeste do país (Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo).

ENEDS

O Encontro Regional de Engenharia e Desenvolvimento Social (EREDS) acontece desde 2011 e é um desdobramento do ENEDS - Encontro Nacional de Engenharia e Desenvolvimento Social, que é um evento que se propõe a pautar a Engenharia e a formação dos estudantes através de uma ampla discussão sobre o papel da Engenharia no desenvolvimento de uma sociedade mais justa e igualitária. O evento busca evidenciar a relação da Engenharia, em todas as suas áreas de atuação, com o desenvolvimento social, fazendo conexões entre universidade, movimentos sociais e poder público. Em 2015, o XII ENEDS foi realizado entre 12 e 15 de agosto, em Salvador.

Fonte: Senge-MG

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Lideranças de centros acadêmicos dos cursos de engenharias da Capital estão participando de reuniões na sede do sindicato, em Curitiba. Meta é ampliar atividades em favor da cidadania e capacitação profissional neste ano de 2016

Até 19 de fevereiro, os gestores do Programa Senge Jovem estarão promovendo uma série de reuniões, na sede do Sindicato, em Curitiba, com lideranças de entidades estudantis dos cursos de engenharias da Capital.

A ideia dos encontros é aproximar ainda mais os futuros engenheiros do sindicato e buscar parcerias com grupos de extensão, de pesquisas, centros e diretórios acadêmicos, entre outros.

 

Juliana Camargo, presidente do Centro Acadêmico de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (CAEA UFPR), com os sócios-aspirantes e gestores do Senge Jovem, Anderson Souza.

A meta do Projeto Senge Jovem para este ano é ampliar a participação nas semanas acadêmicas, e promover cursos, palestras, participar de projetos sociais e fomentar e compartilhar ações que promovam a cidadania e a capacitação profissional.

A primeira entidade estudantil a participar desse novo ciclo de encontros, iniciado no último dia 1º, foi o Centro Acadêmico de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (CAEA UFPR), representado por sua atual presidente, Juliana Camargo, que cursa o 5º período.

Fonte: Senge-PR

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"Passei um ano sem me olhar no espelho", diz ativista

Filha de operário, Moara Correa Sabóia relata as dificuldades pelas quais passou para entrar no curso de Engenharia Civil da UFMG e se tornar a primeira mulher negra a chegar à vice-presidência da UNE desde a ditadura.

Quando Moara era menina, fugia do próprio reflexo. Enquanto as amigas se revezavam frente aos espelhos no banheiro da escola, Moara lavava as mãos de cabeça baixa. "Aquela arrumadinha no cabelo não fazia sentido para mim. Achava que não ia ficar bonita nunca. Passei um ano sem me olhar no espelho", conta.

Com muito esforço, os tempos de cabeça baixa passaram. Moara Correa Sabóia, de 25 anos, é a primeira mulher negra a chegar à vice-presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE) desde a ditadura. É também aluna cotista e uma das poucas negras no curso de Engenharia Civil da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Para chegar até lá, Moara teve primeiro que fortalecer a sua identidade dentro dos movimentos feministas, negros e operários, onde milita desde os 15 anos.

"Essa coisa de se valorizar, se sentir bonita, foi um processo muito importante e libertador. Parece fútil, mas não é. Mudou a minha relação com o mundo. Se você não se sente bem consigo mesma, não consegue andar de cabeça erguida", afirma.

Apesar de ser filha de militantes – seus pais faziam parte de movimentos operários católicos e de bairro – Moara passou a maior parte da vida alisando o cabelo. O pai, eletricista envolvido com a luta negra, achava um absurdo. A mãe, inspetora escolar, também era contra. Mas não adiantava: Moara recorria a químicas para "abaixar" as madeixas.

"Meu cabelo precisou cair muito até eu decidir me assumir e mantê-lo natural", diz. Foi um dos primeiros passos na recuperação da autoestima, abalada pela consciência precoce das desigualdades sociais e raciais.

"Como meus pais eram ativistas, desde os seis anos eu sabia que o racismo existia e que eu era diferente", conta.

 

Engenheira, filha de peão
Moradora de Contagem, cidade na região metropolitana de Belo Horizonte, Moara sempre estudou em escolas públicas. No ensino médio, já de olho na faculdade, fez um processo de seleção e conseguiu bolsa em um cursinho.

Pouco antes de entrar para a universidade, entretanto, seus pais ficaram desempregados. "Foi muito perrengue. Teve um impacto grande na minha vida, até mesmo na decisão do curso. Achei que a Engenharia Civil me daria mais garantias."

A influência do pai, que trabalhava na construção, também contribuiu para a escolha. Os dois irmãos de Moara seguiram o mesmo caminho. "Meus pais não fizeram universidade. Para o meu pai, que era peão, ver os filhos virarem engenheiros é muito simbólico."

 

"Chorava de cansaço"
Estudante bolsista do Programa Universidade para Todos (Prouni) e cotista, Moara disse que teve dificuldade em se adaptar ao ambiente universitário. Segundo ela, que estudou primeiro na PUC até passar para a UFMG, sua realidade era muito distante da dos outros alunos.

"Tive muita dificuldade de interação e de me reconhecer naquele espaço. Eu estava lá porque tinha uma bolsa, enquanto as outras pessoas pagavam. Depois, na federal, o ambiente era ainda mais elitista e machista."

Para se sustentar durante a faculdade, Moara foi professora de percussão em um projeto social em Contagem. Saia às sete da manhã e só voltava para casa perto da meia noite. Trabalhava de segunda a sábado e, no domingo, tinha que preparar as aulas de música da semana seguinte.

"No começo, eu chorava de cansaço. Eu só queria dormir, mais nada. Enchia a cara de guaraná em pó nas semanas de prova. Aí você começa a se comparar com os outros. Por que é tudo tão difícil na minha vida?", lembra.

Fazer um estágio também não foi fácil. Segundo Moara, mesmo com o mercado da construção civil aquecido, ela era uma das únicas da turma que não conseguia uma vaga. "Eu passava na fase do currículo, mas não ia além das entrevistas."

 

Reconhecimento
Na universidade, Moara se aproximou dos movimentos estudantis, que antes via com reservas. Para ela, eram espaços de disputa de poder entre alunos da classe média branca. "Eu tinha preconceito. Mas, com as cotas e a popularização das universidades, a UNE também mudou."

Com uma rápida ascensão no movimento estudantil, Moara foi eleita vice-presidente em apenas dois anos. Mas foi só após a eleição que percebeu o significado da sua vitória.

"Eu ocupar esse espaço na mesa diretora não foi natural, foi fruto de muita conquista", diz ela, reafirmando o papel dos movimentos sociais. "Se eu estou na universidade, não é só por ter sido estudiosa. Lógico que eu batalhei, mas alguém antes de mim lutou para haver cotas e bolsas, para que eu tivesse essa oportunidade. É uma construção coletiva, e saber disso me dá forças."

Ao ser eleita e receber os abraços chorosos dos estudantes e militantes negros, teve consciência também da importância daquela representatividade alcançada. "Como você vai achar que pode ser engenheiro se não conhece um engenheiro negro? Isso tem um impacto grande na identidade das pessoas."

Para ela, ocupar um lugar de liderança significa também assumir uma responsabilidade com as próximas gerações: "Tenho que lutar para que a vida deles não seja tão difícil quanto a minha."

Fonte: Deutsche Welle/Terra

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