O Intercept Brasil publicou hoje três reportagens explosivas mostrando discussões internas e atitudes altamente controversas, politizadas e legalmente duvidosas da força-tarefa da Lava Jato, coordenada pelo procurador renomado Deltan Dallagnol, em colaboração com o atual ministro da Justiça, Sergio Moro, celebrado a nível mundial.

Produzidas a partir de arquivos enormes e inéditos – incluindo mensagens privadas, gravações em áudio, vídeos, fotos, documentos judiciais e outros itens – enviados por uma fonte anônima, as três reportagens revelam comportamentos antiéticos e transgressões que o Brasil e o mundo têm o direito de conhecer.

O material publicado hoje no Brasil também foi resumido em duas reportagens em inglês publicadas no Intercept, bem como essa nota dos editores do The Intercept e do The Intercept Brasil.

Esse é apenas o começo do que pretendemos tornar uma investigação jornalística contínua das ações de Moro, do procurador Deltan Dallagnol e da força-tarefa da Lava Jato – além da conduta de inúmeros indivíduos que ainda detêm um enorme poder político e econômico dentro e fora do Brasil.

A importância dessas revelações se explica pelas consequências incomparáveis das ações da Lava Jato em todos esses anos de investigação. Esse escândalo generalizado envolve diversos oligarcas, lideranças políticas, os últimos presidentes e até mesmo líderes internacionais acusados de corrupção.

O mais relevante: a Lava Jato foi a saga investigativa que levou à prisão o ex-presidente Lula no último ano. Uma vez sentenciado por Sergio Moro, sua condenação foi rapidamente confirmada em segunda instância, o tornando inelegível no momento em que todas as pesquisas mostravam que Lula – que terminou o segundo mandato, em 2010, com 87% de aprovação – liderava a corrida eleitoral de 2018. Sua exclusão da eleição, baseada na decisão de Moro, foi uma peça-chave para abrir um caminho para a vitória de Bolsonaro. A importância dessa reportagem aumentou ainda mais depois da nomeação de Moro ao ministério da Justiça.

Moro e os procuradores da Lava Jato são figuras altamente controversas aqui e no mundo – tidos por muitos como heróis anticorrupção e acusados por tantos outros de ser ideólogos clandestinos de direita, disfarçados como homens da lei apolíticos. Seus críticos têm insistido que eles exploraram e abusaram de seus poderes na justiça com o objetivo político de evitar que Lula retornasse à presidência e destruir o PT. Moro e os procuradores têm negado, com a mesma veemência, qualquer aliança ou propósito político, dizendo que estão apenas tentando livrar o Brasil da corrupção.

Mas, até agora, os procuradores da Lava Jato e Moro têm realizado parte de seu trabalho em segredo, impedindo o público de avaliar a validade das acusações contra eles. É isso que torna este acervo tão valioso do ponto de vista jornalístico: pela primeira vez, o público vai tomar conhecimento do que esses juízes e procuradores estavam dizendo e fazendo enquanto pensavam que ninguém estava ouvindo.

As reportagens de hoje mostram, entre outros elementos, que os procuradores da Lava Jato falavam abertamente sobre seu desejo de impedir a vitória eleitoral do PT e tomaram atitudes para atingir esse objetivo; e que o juiz Sergio Moro colaborou de forma secreta e antiéticacom os procuradores da operação para ajudar a montar a acusação contra Lula. Tudo isso apesar das sérias dúvidas internas sobre as provas que fundamentaram essas acusações e enquanto o juiz continuava a fingir ser o árbitro neutro neste jogo.

O único papel do Intercept Brasil na obtenção desse material foi seu recebimento por meio de nossa fonte, que nos contatou há diversas semanas (bem antes da notícia da invasão do celular do ministro Moro, divulgada nesta semana, na qual o ministro afirmou que não houve “captação de conteúdo”) e nos informou de que já havia obtido todas as informações e estava ansiosa para repassá-las a jornalistas.

Informar à sociedade questões de interesse público e expor transgressões foram os princípios que nos guiaram durante essa investigação, e continuarão sendo conforme continuarmos a noticiar a enorme quantidade de dados a que tivemos acesso.

O enorme volume do acervo, assim como o fato de que vários documentos incluem conversas privadas entre agentes públicos, nos obriga a tomar decisões jornalísticas sobre que informações deveriam ser noticiadas e publicadas e quais deveriam permanecer em sigilo.

Ao fazer esses julgamentos, empregamos o padrão usado por jornalistas em democracias ao redor do mundo: as informações que revelam transgressões ou engodos por parte dos poderosos devem ser noticiadas, mas as que são puramente privadas e infringiriam o direito legítimo à privacidade ou outros valores sociais devem ser preservadas.

A bem da verdade, ao produzir reportagens a partir desses arquivos, somos guiados pela mesma argumentação que levou boa parte da sociedade brasileira – aí incluídos alguns jornalistas, comentaristas políticos e ativistas – a aplaudir a publicidade determinada pelo então juiz Moro das conversas telefônicas privadas entre a presidente Dilma Rousseff e seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva (em que discutiam a possibilidade do ex-presidente se tornar ministro da Casa Civil), logo reproduzidas por inúmeros veículos de mídia. A divulgação dessas ligações privadas foi crucial para virar a opinião do público contra o PT, ajudando a preparar o terreno para o impeachment de Dilma em 2016 e a prisão de Lula em 2018. O princípio invocado para justificar essa divulgação foi o mesmo a que estamos aderindo em nossas reportagens sobre esse acervo: o de que uma democracia é mais saudável quando ações de relevância levadas a cabo em segredo por figuras políticas poderosas são reveladas ao público.

Mas a divulgação feita por Moro e diversos veículos da imprensa dos diálogos privados entre Lula e Dilma incluíam não apenas revelações de interesse público, mas também comunicações privadas de Lula sem qualquer relevância para a sociedade – o que levou muitas pessoas a argumentarem que a divulgação tinha o propósito de constranger pessoalmente o ex-presidente. Ao contrário deles, o Intercept decidiu manter reservada qualquer comunicação ou informação relacionada a Moro, Dallagnol e outros indivíduos que seja de natureza puramente privada e, portanto, desprovida de real interesse público.

Nós tomamos medidas para garantir a segurança deste acervo fora do Brasil, para que vários jornalistas possam acessá-lo, assegurando que nenhuma autoridade de qualquer país tenha a capacidade de impedir a publicação dessas informações.

Ao contrário do que tem como regra, o Intercept não solicitou comentários de procuradores e outros envolvidos nas reportagens para evitar que eles atuassem para impedir sua publicação e porque os documentos falam por si. Entramos em contato com as partes mencionadas imediatamente após publicarmos as matérias, que atualizaremos com os comentários assim que forem recebidos.

Tendo em vista o imenso poder dos envolvidos e o grau de sigilo com que eles operam– até agora –, a transparência é crucial para que o Brasil tenha um entendimento claro do que eles realmente fizeram. A liberdade de imprensa existe para jogar luz sobre aquilo que as figuras mais poderosas de nossa sociedade fazem às sombras.

LEIA TODAS AS MATÉRIAS ABAIXO:

Procuradores da Lava Jato tramaram em segredo para impedir entrevista de Lula antes das eleições por medo de que ajudasse a ‘eleger o Haddad’  http://bit.ly/2XKurNa

Deltan Dallagnol duvidava das provas contra Lula e de propina da Petrobras horas antes da denúncia do triplex http://bit.ly/2I5eETY

 
Chats privados revelam colaboração proibida de Sergio Moro com Deltan Dallagnol na Lava Jato http://bit.ly/2WZlsL1

 

 

 

Fonte: The Intercept

Como e por que o Intercept está publicando chats privados sobre a Lava Jato e Sergio Moro

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As exigências cada vez mais complexas de conformidade a normas corporativas supostamente visando maior transparência, também chamadas pelo conceito geral de “compliance”, são a chave para entender não só a operação Lava-Jato mas a nova forma de intervenção política e econômica dos EUA no mundo. No Brasil, como em outros países, atua hoje uma “indústria de compliance”, ou da conformidade, que envolve o recrutamento de procuradores, magistrados e agentes públicos brasileiros para agirem junto a grandes escritórios de advocacia e grupos de lobby internacionais, submetendo empresas em setores estratégicos aos interesses norte-americanos. Caso do petróleo e da energia nuclear no país, explicou o jornalista Luís Nassif, editor do GGN, durante o simpósio “Violação de Soberania – O acordo Lava-Jato/Petrobras/EUA”, realizado no dia 13 de maio, no SINTSAÚDERJ, pelo SOS Brasil Soberano, Senge-RJ, Fisenge, ABJD e pela FUP.

Segundo Nassif, este novo modelo de guerra comercial e política começou a ser construído no início dos anos 2000, tendo sido testado e consolidado no Brasil pelos integrantes da Lava-Jato no Ministério Público e na Justiça Federal do Paraná, de onde vêm, por exemplo, o promotor Dalton Dallagnol, e o ex-juiz, atual ministro da Justiça, Sergio Moro.

De lá para cá, a ‘indústria do compliance” se expandiu e já mobiliza uma grande rede de autoridades. O jornalista cita, entre outros, a ex-ministra do Supremo Tribunal Federal Ellen Gracie, que presidiu a Comissão Especial para a investigação interna da Petrobras e hoje atua no Conselho Jurídico da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e no Conselho de Administração do World Justice Project, um dos maiores grupos de lobby no campo do compliance. Esta ONG norte-americana, criada em 2007, afirma “trabalhar para promover o estado de direito em todo o mundo”, inclusive com um indicador próprio, o Índice de Estado de Direito da WJP, e financiamentos a projetos e articulações envolvendo o ordenamento jurídico em diferentes países, sempre tendo como referência a estrutura normativa dos EUA.

Patrocínio e plano piloto
“A grande pergunta é: o que leva e levou procuradores do mundo inteiro a participarem dessa cooperação internacional, a ponto de deixarem para segundo plano os interesses nacionais; a ponto de se envolverem em questões políticas e partidárias?”, questiona Nassif. Na sua avaliação, tornou-se evidente a influência direta do Departamento de Justiça norte-americano (DoJ) na formação dessa rede.

“Há algum tempo, mapeamos – informação que estava no Wikileaks – um seminário feito em São Paulo com 50 procuradores e juízes de vários lugares, bancado pelo próprio Departamento de Justiça dos EUA”, lembra o jornalista. “E deste encontro saiu a sugestão de montar um plano piloto para, na prática, acostumar os brasileiros e a justiça nacional aos padrões norte-americanos.” A ideia era basear o piloto ou em São Paulo ou Campo Grande ou Curitiba. Ele consistia basicamente de um acordo informal para troca de informações que, num passo seguinte, seria formalizado para utilização dos dados obtidos nos processos. “Isso explica por que”, diz Nassif, “um caso de corrupção que começou em Brasília e tem personagens no Rio de Janeiro vai para o Paraná”.

Projeto Pontes

Segundo a jurista Carol Proner, da Associação Brasileira dos Juristas pela Democracia, essa cooperação internacional “informal e clandestina” se deu com a CIA, o NSA e o FBI. O projeto Pontes, revelado pelo Wikileaks, promove intercâmbio com participação de agentes do judiciário brasileiro para treinamento e acompanhamento pelo sistema americano de combate a corrupção. Teve, no Brasil, participação intensa do então juiz Sergio Moro, do procurador Deltan Dallagnol e demais integrantes da Lava-Jato.

A partir do projeto Pontes, observa Carol, a Operação Lava-Jato ganha um reforço nas técnicas, por exemplo, com o intesificação das delações premiadas e de outras formas de pressão aos indiciados, como as utilizadas nos EUA. A base é recorrente: quando se fala de lawfare, é o uso do direito para defender interesses contrários aos que definem o próprio direito. “A cooperação internacio­nal é um instrumento de dominação. E em matéria de combate à corrupção, uma ingerência indireta, ideológica, política e econômica.”

O advogado e ex-deputado Wadih Damous lembra que, no evento “Lições do Brasil: Combatendo a Corrupção em Meio à Turbulência Política”, promovido pela Atlantic Council na 7ª Cúpula Brasil Anticorrupção, do American Conference Institute, de maio de 2017, o então subsecretário-geral de Justiça adjunto interino dos EUA, Trevor Mc Fadden, fez declarações sobre o acordo informal com os investigadores brasileiros, assim como Kenneth Blanco, ex-vice-procurador-geral adjunto do DoJ e também presente ao evento.

Essas relações diretas foram reconhecidas recentemente e de forma aberta pelo procurador Daniel Kahn, do Departamento de Justiça [DoJ] dos EUA, em entrevista no dia 11 de maio ao jornal O Estado de S. Paulo, quando afirmou o seguinte: “O que é útil no relacionamento, em termos de aspecto positivo, é: como temos um relacionamento bom e forte, podemos chamá-los e dizer se há evidências do que estamos procurando e vice-versa. O que geralmente isso permite é agilizar o processo de obtenção da prova do que se feita de uma maneira mais formal. O bom disso é que, se pudermos ter uma conversa antecipada, podemos começar reunir informalmente a coleta de provas e, em seguida, quando enviamos a solicitação formal, podemos encaminhá-la a um promotor específico no Brasil e eles podem encaminhá-la a um promotor específico aqui. Então, isso funciona muito bem”. Isso significa dizer, ressalta Damous, que, se respeitassem a Constituição e a lei, a investigação não andaria.

Contexto e métodos
A construção dessa “era que une MP e repressão”, segundo Nassif, foi favorecida por alguns principais eventos mundiais e particularmente norte-americanos. Um deles, em 30 de julho de 2002, foi a assinatura nos EUA da Lei Sarbanes Oxley, com o propósito de prevenir e punir escândalos financeiros (entre eles o da Enron, que atingiu violentamente a auditoria Arthur Andersen).

Muito rigorosa, a lei se aplica inclusive às empresas brasileiras que têm títulos (ADRs) negociados em bolsa nos EUA, como Petrobras, Sabesp, Eletrobras, entre dezenas de outras. Pouco tempo depois, o mundo assistiu ao atentado de 11 de setembro, que trouxe o entendimento de que era necessária uma cooperação internacional para combater o terrorismo e as grandes organizações criminosas.

Nesse sentido, duas ações significativas caminharam simultaneamente nos EUA. No Departamento de Estado norte-americano, Nassif destaca a criação, em março de 2003, do DHS (US Department of Homeland Security), um Gabinete de Segurança Interna que concentrou todos os setores que atuavam contra o terror ou a espionagem eletrônica, incluindo alguns departamentos da CIA, do FBI, da NSA. A primeira parceria dessa estrutura no Brasil aconteceu no caso Banestado (objeto de uma CPI em 2003), no qual tiveram papel relevante José Serra, do PSDB de SP, Sergio Moro, e o desembargador João Pedro Gebran Neto (desembargador que seria depois relator do processo de Lula no TRF4). Na ocasião, o DHS já atuou fazendo o “meio de campo” com procuradores e delegados.

Pelo lado do Departamento de Justiça dos EUA, a Seção de Integridade Pública ganhou expressão a partir de 2002/03 para investigar crimes contra a administração pública. Como forma de blindá-la contra interferências políticas, o órgão ganhou uma rede de proteção feita pelo próprio departamento. “É aí que a Lava-Jato vai aprender todo o seu know how”, diz Nassif. “Os métodos dessa seção foram passados integralmente: a delação premiada, as prisões com escândalo, chamando a mídia, os acordos induzindo pessoas suspeitas a darem a narrativa que interessava à investigação… veio tudo daí.”

Também a Lei contra Práticas Corruptas no Exterior (FCPA), de 1997, versão dos EUA para a similar da OCDE, passa a ser empregada para trazer à jurisdição norte-americana os crimes de qualquer parte do mundo que, em algum momento, envolvessem dinheiro que tivesse transitado por algum banco daquele país. “É a parte geopolítica mesmo”, assinala o editor do GGN. Com essa lei, afirmou, citando estudo de um economista francês, a França perdeu negócios no valor de 300 milhões de euros. “Com a crise no sistema bancário norte-americano, O PNB, francês, e outros surgiram como grandes bancos, crescendo financiando empresas nacionais nas suas investidas sobre mercados emergentes, em países da África, Àsia etc. Mas, com a legislação, ficaram com receio, sem querer se arriscar.”

Redes de influência
É nesse contexto que surge o que o jornalista chama de “o grande fator que junta tudo: a indústria do compliance”, com programas para as empresas se adaptarem às normas internacionais. Os escritórios globais de advocacia, com contatos internacionais com juristas e procuradores, tornam-se os donos do caminho das pedras da legalidade.

“Com regras cada vez mais complexas criadas pelo Departamento de Justiça dos EUA, que podem chegam a 500 itens de compliance, quem vai dizer se [a empresa] está adequada ou não é o procurador. Veja o poder que essa figura passa a ter”, diz Nassif. “Os profissionais, dentro desse jogo, ganham acesso a relações globais de prestígio e poder, além de um potencial mercado de trabalho futuro.” Nesse modelo, esses escritórios usariam autoridades de países emergentes como porta de entrada para a indústria de compliance.

O ex-Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, por exemplo, lembra Nassif, sai da PGR e vai integrar o conselho do Atlantic Council, outro poderoso grupo de lobby nos EUA. Figuras que participavam do DoJ em 2015, hoje também estão em grandes escritórios de advocacia. Aliás, a questão da cooperação internacional no Judiciário chamou a atenção do GGN, quando, em fevereiro de 2015, Janot foi a Nova York chefiando uma equipe da Lava-Jato que levou elementos de investigação para o Departamento de Justiça dos EUA.

O colunista do GGN André Araújo estranhou a missão, que, para ele,“não fazia sentido”. Percebeu que, em vez de pessoal da PGR para instrumentalizar uma ação contra a Petrobras, a viagem deveria ter sido pilotada pela AGU (Advocacia-Geral da União), com o propósito de defender estatal. Na ocasião, Nassif acredita que ainda existiam saídas na diplomacia internacional para resolver a questão, mas o governo Dilma Rousseff, na sua opinião, estava “desaparelhado para as armadilhas que vinham pela frente.”

Um mês depois da viagem da equipe da PGR, explodiu o caso da Eletronorte, da Nuclebrás – empresa que detinha a tecnologia brasileira desenvolvida pela Marinha para o enriquecimento de urânio. “Quando vieram com a denúncia”, lembra Nassif, “investigamos onde o Janot tinha estado nos EUA: em Washington, com uma funcionária do Departamento de Justiça que até um ano antes trabalhava para um escritório de advocacia que servia ao setor eletronuclear norte-ameriano.”

A indústria do compliance opera com uma lógica econômica de ataque a alvos estratégicos. É um elemento de geopolítica que usa as normas judiciais e de conformidade como arma. Para ilustrar seu mecanismo, Nassif aponta os exaustivos programas de compliance previstos como obrigações, sempre sob a supervisão norte-americana, no próprio acordo de leniência firmado pela Petrobras com o Departamento de Justiça dos EUA. Sua implementação fere a soberania nacional e a autonomia da estatal, e também representa, para os escritórios de advocacia e demais agentes que dominam esse jogo, um grande negócio.

. O simpósio “Violação de Soberania! O acordo Lava-Jato/Petrobras/Departamento de Justiça dos EUA” foi realizado em 13 de maio, no SINTSAÚDERJ, com a participação do advogado e ex-deputado federal Wadih Damous, da professora de Direito e integrante da ABJD Carol Proner e de Zé Maria Rangel, coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), e do jornalista Luis Nassif, do GGN, com mediação do historiador e professor Francisco Teixeira. Foi organizado pelo Movimento SOS Brasil Soberano, pela Associação Brasileira de Juristas pela Democracia/ABJD, pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro/Senge-RJ, pela Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros/Fisenge e pela FUP. Contou também com a presença de Ricardo Maranhão, da Aepet, e de Raymundo de Oliveira, do Clube de Engenharia

 

Texto: Verônica Couto/SOS Brasil Soberano

Foto: Camila Marins/Fisenge

Indústria do “compliance” como arma de intervenção

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O SOS Brasil Soberano, com a consultoria jurídica da Associação Brasileira dos Juristas pela Democracia (ABJD), traduziu para o português o acordo de leniência fechado pela Petrobras com a Seção de Fraudes da Divisão Criminal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e com a Procuradoria da República para o Distrito Leste do Estado da Virgínia, no âmbito da Operação Lava-Jato. Trata-se de um peça jurídica sui generis no Brasil, disponível até então apenas em inglês, que obriga a estatal a submeter aspectos estratégicos da sua gestão à supervisão estrangeira. O documento será debatido nesta segunda-feira (13 de maio), durante o simpósio “Violação de Soberania! Acordo Lava-Jato/EUA/Petrobras”, às 17h30, no auditório do SINTSAÚDERJ (Praça Floriano, 51, 8º andar, Cinelândia).

O evento terá a participação do advogado e ex-deputado federal Wadih Damous, da professora de Direito e integrante da ABJD Carol Proner e de Zé Maria Rangel (coordenador geral da FUP), com mediação do historiador e professor Francisco Teixeira. É organizado pelo Movimento SOS Brasil Soberano, pela Associação Brasileira de Juristas pela Democracia/ABJD, pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro/Senge-RJ, pela Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros/Fisenge e pela Federação Única dos Petroleiros/FUP.

Clique AQUI fazer o download da versão em português do Acordo de Leniência entre a Petrobras, o Departamento de Justiça dos EUA e a Procuradoria para o Distrito Leste do Estado da Virginia


Fonte: SOS Brasil Soberano

EXCLUSIVO: Conheça o acordo entre a Petrobras, o Departamento de Justiça dos EUA e a Procuradoria do Distrito Leste de Virgínia/EUA

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Nessa sexta, dia 13 de julho, às 15h, ocorrerá uma edição extraordinária do programa “Soberania em Debate”. Com o tema “O fascismo explícito da Lava Jato”, o evento contará com a participação do deputado federal, Wadih Damous que falará sobre o “método fascista de julgar e investigar”. O “Soberania em Debate” é uma iniciativa do Movimento SOS Brasil Soberano idealizado e protagonizado pela Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge) e pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (Senge/RJ).Programa “Soberania em Debate” recebe deputado federal Wadih Damous

A transmissão será pelo Facebook. Enviem suas perguntas para a página: www.facebook.com/sosbrasilsoberano.

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A engenharia brasileira vive a maior crise de sua história.

Empresas de reconhecida capacidade técnica, com expressiva contribuição em obras e serviços para nossa engenharia, encontram-se paralisadas diante dos processos jurídicos a que estão respondendo.

Os profissionais, em especial seus engenheiros, são demitidos aos milhares, as obras são suspensas, enquanto se espera para ver até que ponto essas empresas serão atingidas pelas acusações da Lava Jato.

Estão interrompidos empreendimentos de porte, alguns já em estágio avançado de execução, como as obras do COMPERJ, Angra III, nosso submarino a propulsão nuclear, a refinaria Abreu e Lima no Nordeste, a transposição do São Francisco e muitos outros.

Os prejuízos já chegam a dezenas de bilhões de reais e o desemprego por milhões de trabalhadores.

Os recursos recuperados com grande alarde, como resultado das corrupções descobertas, são uma fração dos prejuízos causados pela interrupção das obras.

Para onde está o Brasil sendo conduzido? Que país vai sobrar ao final desses processos?

Assiste-se à destruição de nossas maiores empresas de engenharia. Diante dos desmandos que houve nessas empresas, exigimos que os responsáveis por eles sejam processados, e os culpados condenados, mas não aceitamos a destruição das empresas de engenharia e o fim de empregos de nossos engenheiros e demais trabalhadores.

É necessário resistir ao desmonte em curso. Todos os setores da economia para os quais o mercado interno é decisivo devem ser chamados a participar dessa resistência.

No quadro geral do desmonte, nos últimos dias foi noticiado que a Petrobras está convidando apenas empresas estrangeiras para licitação da retomada das obras no COMPERJ, num total de 30 empresas.

O lançamento do COMPERJ há alguns anos abrira muitas oportunidades de trabalho e o otimismo inundou o interior do Estado do Rio.

Houve um deslocamento maciço de empresas e trabalhadores para o entorno de Itaboraí, verdadeiro renascimento da região.

Com os processos da Lava Jato, obras já adiantadas foram paralisadas, empresas ficaram sem serviço, trabalhadores foram demitidos. A região está abandonada e virou um deserto e as obras já realizadas se deterioram.

O que está sendo feito no Brasil com nossas empresas de engenharia não está ocorrendo em outros países.

Quando foi reconhecido que a Volkswagen fraudara dados de poluição de seus carros, foi aplicada altíssima multa, dirigentes da empresa foram demitidos e presos.

Entretanto, nenhum carro deixou de ser produzido e nenhum trabalhador perdeu seu emprego. A Alemanha sabe preservar suas riquezas. A Volkswagen é uma riqueza da Alemanha.

No Brasil o comportamento tem sido o oposto. Prendem-se dirigentes, suspendem-se as obras, impede-se que essas empresas participem de outras licitações e trabalhadores são demitidos aos milhares.

Destrói-se um patrimônio nacional constituído por empresas formadas ao longo de décadas e detentoras de importante acervo tecnológico e equipes de profissionais experientes.

O momento é grave. Para superá-lo é urgente construir uma grande aliança da qual participem os engenheiros, os trabalhadores em geral, as empresas compromissadas com a geração de emprego, o movimento sindical que está sentindo a perda de direitos conquistados desde a década de 1930, além de universidades e centros tecnológicos.

O Clube de Engenharia convoca todas as entidades ligadas à engenharia a participarem da resistência ao processo de sucateamento de nossas empresas, que estão sendo vendidas na bacia das almas, no pico da maior crise em décadas.

A retomada do desenvolvimento precisa se dar fortalecendo as empresas e os profissionais de engenharia, sem que haja perda de direitos há muito conquistados.

Os bancos e demais setores rentistas, que vivem dos elevados juros sobre nossa dívida pública, não podem continuar hegemonizando nossa economia e enfraquecendo o setor produtivo, grande gerador de emprego.

Fonte: Clube de Engenharia (RJ), editorial janeiro/ 2017, sugestão de Carlos Ferreira

Empresas brasileiras de engenharia estão sendo sucateadas e vendidas na bacia das almas

 

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Este é o terceiro texto da série especial produzida pelo Politike e pelo OxPol sobre a crise no Brasil.

Por Daniel Buarque

Nos últimos meses, o Brasil se tornou sinônimo de má notícia na imprensa internacional, embora essa mudança negativa tenha começado pouco antes da eleição presidencial de 2014. Após anos estrelando reportagens elogiosas sobre sua economia finalmente estar “decolando”, conforme a revista britânica The Economist proclamou de maneira exageradamente otimista em 2009, o furor em torno do promissor futuro brasileiro parece ter sido substituído por um profundo ceticismo e pessimismo. Ao que parece, o Brasil passa por um período de caos.

De certa forma, essa é uma conclusão plausível. Em 2016, o Brasil entrou oficialmente em sua mais profunda recessão em mais de duas décadas, um cenário intensificado por uma prolongada crise política que pode resultar no impeachment de Dilma Rousseff. Em um curto período de tempo, alguns fatores ajudaram a desestabilizar o País: 1) o governo foi fortemente atingido pelos desdobramentos da Operação Lava Jato; 2) o País registrou mais uma vez o maior número de homicídios do mundo; 3) um surto do vírus zika aterrorizou a população, em especial as gestantes; 4) um desastre ambiental de largas proporções ocorreu em Mariana (MG) em decorrência da negligência de autoridades de fiscalização e da Samarco.

Esse quadro indica que nada parece estar dando certo para o Brasil neste momento. A imagem positiva construída pelos sucessos do País em anos recentes (uma imagem que mostrava o Brasil como uma potência emergente com uma economia vibrante que eventualmente se tornaria uma liderança hemisférica) parece ter se desintegrado com a crise.

Em certa medida, essa impressão negativa sobre a atual imagem do Brasil é apoiada em dados. Entretanto, como explicarei mais adiante, uma interpretação diferente pode ser apresentada quando considerado o cenário em logo prazo.

Segundo uma pesquisa recente, a imagem brasileira despencou com base em como a imprensa internacional retrata o País. Em 2015, diz o estudo I See Brazil, da agência Imagem Corporativa, 72% de todas as menções ao Brasil em veículos estrangeiros de comunicação tiveram conotação negativa. Foi o pior resultado do País desde o início da pesquisa, em 2009. Naquele ano, oito em cada dez artigos mencionando o Brasil tinham uma visão positiva sobre o País. Neste contexto, pode-se usar como exemplo as capas da The Economist, que mostraram o Brasil decolando em 2009, seguido pela perda de equilíbrio do País, e, depois de apenas seis anos, o seu aparente atoleiro.

A pesquisa analisou quase 2 mil artigos publicados por nove diferentes veículos internacionais (La Nación, Clarín, Der Spiegel, El País, Financial Times, The Economist, Le Monde, The New York Times e The Wall Street Journal) que citaram o Brasil em 2015. Então, calculou o ‘I See Brazil Index‘, uma pontuação que indica a qualidade da imagem de um país na mídia internacional. O Brasil ganhou uma pontuação de 1,6/10, sendo o máximo possível 10/10. O desempenho foi o pior já registrado pelo País no índice, inferior aos 3,77/10 registrados no ano anterior.

Em março, após mais uma semana de notícias tóxicas no cenário político nacional, o historiador britânico Kenneth Maxwell argumentou ser difícil enxergar algum sinal de melhora para o Brasil em meio a um tsunami de notícias ruins. O Brasil, ele disse, sediará as Olimpíadas do Rio no pior momento de sua imagem internacional.

A afirmação de Maxwell pode ser verdadeira, mas a crise danificou de forma severa a imagem internacional do Brasil? Embora seja possível argumentar que a ‘tempestade perfeita’ enfrentada pelo País destruirá a “marca Brasil”, nem tudo está perdido para a reputação global brasileira. Eis o motivo: a maioria dos debates acadêmicos sobre nation branding (o estudo que avalia as “marcas” dos países no resto do mundo) e identidade nacional competitive (outro nome dado a este tipo de avaliação das imagens dos países) apontam que a reputação global de uma nação é construída por uma gama de conceitos robustos não facilmente afetados por uma onda de notícias — sejam elas positivas ou negativas.

Ainda que a exposição internacional das falhas e dificuldades enfrentadas pelo Brasil seja obviamente negativa em curto prazo, é importante entender que a amplificação deste ambiente tóxico pela mídia não pode, por si só, alterar a complexa imagem internacional de um país, muito menos sua “marca”. Isto é verdadeiro para todos os países do mundo, o que serve de alívio ao Brasil.

De acordo com o consultor britânico Simon Anholt, a referência mais citada em estudos sobre a reputação internacional de países (e criador da expressão “nation branding”), somente um desastre completo com consequências de longo prazo poderiam realmente mudar a percepção global sobre o Brasil.

Neste sentido, é possível argumentar que o Brasil tem uma marca internacional consolidada, mas o que ela representa? Apesar de o Brasil ter se tornado recentemente uma potência emergente “na moda”, sua imagem central continua distante daquela de estabilidade, força econômica e relevância em assuntos globais.

Os estereótipos pelos quais o Brasil é percebido internacionalmente foram estabelecidos na segunda metade do século XX. Eles permanecem os mesmos desde então, independentemente da atenção positiva recebida pelo País da imprensa estrangeira nos últimos anos.

Segundo esta visão há tempos estabelecida, o Brasil é percebido como um país “decorativo”, um lugar festivo habitado por pessoas amigáveis, mas não uma nação admirada ou seguida em áreas como governança ou economia. “Decorativo, mas não útil”, conforme Anholt descreve. Um País de cultura excelente e de diversão, mas não um local para fazer negócios. Essa imagem “consolidada” tende a ser imune a eventos temporais, como as crises econômica e política.

Dados de ao menos três relevantes pesquisas internacionais sugerem que a crise não está alterando profundamente a percepção global sobre o Brasil.

O Nation Brands Index, índice que compila os 50 países mais admirados do mundo, coloca o Brasil como o 20ª nação mais conhecida do planeta. A cultura brasileira, o seu povo e a beleza natural, afirma o estudo, são altamente bem percebidos no exterior. Entretanto, o resultado é bem diferente quando se trata de enxergar o Brasil como um local para negócios ou relevante em política internacional.

O Best Countries Index traça um quadro similar ao argumentar que o Brasil não é ideal para se viver, mas ainda assim é uma boa opção de lazer. Uma terceira pesquisa sobre a imagem e reputação dos países, realizada pela FutureBrand, mostra que mesmo que enfrentando uma intensa crise, o Brazil mantém a melhor “marca” da América Latina – apesar de sua imagem ser fortemente associada a clichês como futebol, samba, praias e café.

Atualizados anualmente, esses índices não costumam trazer grandes alterações na forma como os países são percebidos ao longo do tempo. Isso indica que a imagem internacional dos países não é tão volátil, ou propensa a mudanças repentinas devido à cobertura negativa da mídia estrangeira. Os estereótipos dos países são mais fortes do que instabilidades políticas ocasionais, por exemplo. Isso é verdade tanto para o Brasil, quanto para a Grécia, um país que passa por uma crise econômica muito mais profunda que a brasileira, mas ainda assim é associado a belezas naturais e a uma cultura globalmente admirada.

Pode parecer que a imagem do Brasil como uma potência emergente promissora está sendo destruída pela atual situação do País, mas a verdade é que essa imagem nunca chegou a se consolidar no imaginário internacional. A reputação brasileira no exterior sempre foi diferente daquela que o País tentou divulgar, ou daquela mostrada nas capas de revistas pelo mundo.

Apesar de a mídia internacional ter abraçado a narrativa de que o País estava “decolando”, e embora essa imagem não seja completamente imune a essas narrativas – que podem começar a afetar o que se pensa de um país caso se repitam por décadas -, a “marca Brasil” parece estar consolidada como um País de turismo, não um local para negócios.

Essa imagem “decorativa” pode soar como terrível, mas é similar à maneira como o mundo enxerga a Itália, por exemplo. Além disso, essa imagem pode ser uma fonte de coisas boas caso o País aprenda a explorá-la. Logo, a cobertura negativa da imprensa global sobre a crise brasileira, não altera fundamentalmente a forma como o mundo percebe o Brasil. Para o bem ou para o mal, a “marca Brasil” é mais estável do que pode parecer nas capas de revistas.

Daniel Buarque é jornalista e escritor com mestrado sobre a imagem internacional do Brasil pelo Brazil Institute do King's College London. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’" e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners. Daniel Buarque is a writer and journalist. He holds a MA in Brazil in Global Perspective from King’s College London. He is the author of four books, including "Brazil, um país do presente" (Brazil, a country of the present), concerning the international image of the country.

Como a crise afeta a imagem global do Brasil

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