O país tem 12,8 milhões de trabalhadores desempregados, 28,4 subutilizados e 4,9 milhões desalentados

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A leve queda na taxa de desemprego, segundo o IBGE, é consequência do aumento do trabalho informal e da subocupação. Desalento atinge 4,9 milhões de brasileiros que cansaram de procurar e não encontrar emprego.

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Foto: Agência Brasil

No trimestre encerrado em maio, o Brasil registrou recorde de trabalhadores e trabalhadoras subutilizados, que trabalham menos de 40 horas ou fazem bicos para sobreviver, e também de desalentados, aqueles que cansaram de procurar emprego sem conseguir recolocação no mercado de trabalho. A taxa de desemprego ficou estável, mas essa também não é uma boa notícia. O que contribuiu para a estabilidade foi o aumento da informalidade.

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua divulgados nesta sexta-feira (28) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O desemprego no Brasil atingiu 13 milhões de trabalhadores e trabalhadoras no trimestre encerrado em maio. Mas, a taxa (12,3%) ficou estável em relação ao trimestre de dezembro de 2018 a fevereiro de 2019 (12,4%) e caiu na comparação com o mesmo trimestre de 2018 (12,7%), em consequência do aumento do trabalho informal, segundo o IBGE.

Bicos

O número de trabalhadores por conta própria, que faz bicos para sobreviver ou abre pequenos negócios, atingiu 24 milhões de brasileiros.

Mais uma vez, o total do que alguns chamam de empreendedores bateu o recorde da série histórica e subiu nas duas comparações: 1,4% (mais 322 mil pessoas) frente ao trimestre anterior e 5,1% (mais 1.170 mil pessoas) frente ao mesmo período de 2018.

“O trabalho por conta própria está sendo usado nas diversas atividades. A indústria, por exemplo, tem uma população ocupada de cerca de 12 milhões de pessoas, sendo que quase 2 milhões estão na indústria têxtil e de confecção, cuja maioria é de costureira que trabalha por conta própria”, destacou a pesquisadora da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, Adriana Beringuy.

Subutilização bate recorde

A taxa de subutilização da força de trabalho (25%), que atinge 28,5 milhões de brasileiros, é recorde da série histórica iniciada em 2012 e registrou alta em comparação ao trimestre anterior (24,6%) e ao trimestre móvel de 2018 (24,6%).
Se comparado ao mesmo trimestre de 2018, o contingente de subutilizados aumentou 4,7%, o que significa que mais 374 mil trabalhadores estão na categoria subutilizados.

A subutilização da força de trabalho é formada pelo total de desempregados (13 milhões), subocupados, que são as pessoas que gostariam e poderiam trabalhar mais horas e não conseguem (7,2 milhões), e a força de trabalho potencial (8,3 milhões).

Desalento é outro recorde negativo

O número de trabalhadores e trabalhadoras desalentados, pessoas que procuram emprego durante muito tempo, não conseguiram e desistiram atingiu 4,9 milhões de brasileiros e também bateu recorde da série histórica e ficou estável em ambas as comparações.

Queda nos rendimentos

Outro resultado negativo para a classe trabalhadora apontado pela pesquisa foi a redução do rendimento médio do trabalhador, que ficou em R$ 2.289, o que representa uma queda de 1,5% na comparação com o trimestre anterior e estabilidade em relação ao mesmo período do ano passado.

 

Fonte: CUT / Escrito por Marize Muniz

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Pesquisa do Ipea registra desemprego elevado, aumento de subocupados e desalentados no primeiro trimestre de 2019.

Regiões Norte e Nordeste apresentam parcelas maiores que a média nacional de desempregados há pelo menos dois anos - Créditos: Pedro Ventura/Agência Brasil

Regiões Norte e Nordeste apresentam parcelas maiores que a média nacional de desempregados há pelo menos dois anos / Pedro Ventura/Agência Brasil

Um contingente de 3,3 milhões de brasileiros estão desempregados há pelo menos 2 anos. Só no primeiro trimestre de 2019, o percentual de desocupados nessa situação era de 24,8%, um crescimento de mais de sete pontos em relação a igual período de 2015 (17,4%). O índice é ainda maior entre as mulheres (28,8%), entre os adultos com mais de 40 anos (27,%) e entre os trabalhadores com ensino médio completo (27,4%).

Os dados sobre mercado de trabalho no primeiro trimestre foram divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD/IBGE) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Segundo o Ipea, a crise econômica mantém a taxa de desemprego elevada e também contribui para permanência no desemprego. De acordo com o PNAD, a desocupação ficou em 12,7% no período, menos 0,4 pontos percentuais em comparação ao ano passado.

O panorama do emprego no Brasil continua dependendo do mercado informal. Porém, a taxa de crescimento anual, considerando-se apenas trabalhadores com carteira assinada, permanece negativa e com variação quase nula. O estudo também registra um movimento transitório favorável ao emprego formal, compreendido como sazonal nos primeiros meses. Nesse sentido, a participação de trabalhadores que contribuem para o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) voltou a subir.

“Ao examinarmos os demais destinos possíveis para um trabalhador que deixa um emprego formal, há um aumento no primeiro trimestre de 2019 para as transições que têm como destino tanto o desemprego como a inatividade”, diz a Carta de Conjuntura do Ipea. As regiões Norte e Nordeste apresentam parcelas ainda maiores que a média nacional de desempregados há pelo menos dois anos, de 28,6% e 27,6%, respectivamente.

Enquanto os chefes de família mais pobres registraram estagnação na renda, as classes mais altas permaneceram com renda domiciliar trinta vezes maior que as baixas. Chama atenção um aumento significativo de famílias que declararam não possuir renda do trabalho (22,71%). A proporção de domicílios com renda muito baixa somam 29,82%. 

Desocupação

A pesquisa do Ipea alerta para o avanço preocupante da permanência no desemprego, principalmente entre jovens. “A situação dos jovens inspira atenção, dada as evidências disponíveis na literatura sobre o prejuízo que uma passagem pelo desemprego no início da carreira profissional traz para sua trajetória, mesmo no médio e longo prazo”.

No cenário de "desalentados" há pelo menos dois anos, trabalhadores de 18 a 24 anos estão entre os grupos mais atingidos. "Desalentados", para esse tipo de classificação, são pessoas que deixaram de procurar emprego porque já não acreditam que irão conseguir.

Com baixo crescimento da ocupação e queda no rendimento real, os jovens configuram 27,3% do total de desempregados. Pelo quinto trimestre consecutivo, os mais jovens e com ensino fundamental incompleto tiveram a maior queda de rendimento (-2,4%).

Os motivos associados ao desalento podem ser referentes à falta de experiência profissional ou qualificação, ausência de trabalho na região, ser considerado muito jovem ou idoso, e não conseguir trabalho adequado.

O Ipea também faz uma análise sobre os efeitos da reforma trabalhista, identificando o perfil das vagas de trabalho no mercado formal. Segundo o Caged, de novembro de 2017 a abril de 2019, foram abertas 507.140 novas vagas de trabalho, das quais 58.630 de contratos de trabalho intermitente, quando a empresa paga por hora trabalhada, e 19.765 de trabalho parcial, em sua maioria no setor de comércio e serviços.

Apesar da geração de emprego, os dados mostram que cerca de 7 milhões faziam parte da população de trabalhadores que se ocupam menos de quarenta horas semanais. A chamada subocupação por insuficiência de horas trabalhadas combinada com a desocupação atingiu em abril deste ano 19,1%, índice acima dos três anos anteriores.

Das vagas de emprego intermitentes e parciais, a maioria foi ocupada por jovens de até 29 anos e trabalhadores com ensino médio completo. "O mercado de trabalho brasileiro segue bastante deteriorado, permeado por altos contingentes de desocupados, desalentados e subocupados", conclui .

 

Fonte: Brasil de Fato / Edição: João Paulo Soares

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Ganho com especulação financeira, incentivado por falta de ação do Estado, desestimula retomada da indústria.

Sem investimento em parques industriais, governo acelera o desemprego

FOTO: MARK F. LEVISAY/CREATIVE COMMONS

O ganho com a especulação financeira, incentivado por falta de ação do governo, tem desestimulado retomada da indústria, estagnando a economia e a alta taxa de desemprego. A análise é de economistas que apontam para um cenário ainda pior com o governo Bolsonaro.

A cada ano a indústria perde importância, no Brasil. Na década de 1980, a participação industrial era de 30% do PIB e, atualmente, é de apenas 10,4%. De acordo com o professor de Economia Marcelo Manzano, boa parte da responsabilidade pela perda de importância da indústria nacional é dos chamados rentistas, que não investem diretamente na produção das indústrias, mas, sim, em papéis, como ações e empréstimos para o governo.

“Na medida em que os donos do capital e do dinheiro preferem esse tipo de investimento, eles deixam de apostar em projetos de expansão produtiva, em projetos industriais e de fortalecimento da indústria”, explicou Manzano, em entrevista ao repórter Jô Miyagui, da TVT.

Em consequência da desindustrialização, cresceu o desemprego. De acordo com o IBGE, de 2013 a 2017, a indústria perdeu 15% dos postos de trabalho, causando o desemprego de 1,3 milhão de trabalhadores. Para o presidente do Instituto Trabalho indústria e Desenvolvimento (TID Brasil), Rafael Marques, a indústria é fundamental para o desenvolvimento de qualquer país. “A indústria sempre vai ser o principal indutor do desenvolvimento pelas conexões que ela tem para produzir. A indústria não é mais um conjunto de fábricas, ela dá ao país soberania e autonomia”, afirmou.

Para que o Brasil volte a se industrializar e criar empregos, a solução é o próprio governo investir em empresas, como a Petrobras e garanta dinheiro através de bancos públicos, afirmam os especialistas.

“Nós precisaríamos de umas sete estatais atuando em diferentes ramos de atividade cumprindo esse papel de holdingsprodutivas, arrastando o setor privado a partir da sua demanda. É fundamental o papel dos bancos públicos. Os bancos privados e o mercado de capitais não têm apetite e não querem correr o risco de investir em projetos industriais que levam tempo para maturar, numa economia com tanta incerteza e insegurança”, acrescenta o professor.

A pesquisa do IBGE mostra que o sudeste tem perdido empresas porque fecharam as portas ou vão para outras regiões. Para Rafael Marques, os seguidos governos do PSDB, em São Paulo, não fizeram nenhuma política industrial para o estado. “Não tiveram um programa que reconhecesse que a indústria paulista passa por uma crise. As empresas do interior têm se migrado para outros estados ou até fechado. São Paulo não as reconheceu”, disse Rafael.

 

Fonte: RBA
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País chegou a ter mais de 9 milhões de empregados no setor em 2013 e fechou 2017 com 7,7 milhões; salário real caiu 15%.

Indústria fecha 1,3 milhão de vagas em 4 anos e reduz salários

Fonte: Brasil de Fato

De 2013 a 2017, a indústria brasileira fechou aproximadamente 1,3 milhão de postos de trabalho, diminuindo em quase 15% o seu efetivo. Só de 2014 a 2017, foram menos 1,1 milhão (-12,5%). De pouco mais de 9,03 milhões de empregados em 2013, o setor foi para 7,695 milhões, de acordo com a Pesquisa Industrial Anual (PIA), divulgada nesta quinta-feira (6) pelo IBGE.
 
No período de 2008 a 2013, houve crescimento contínuo. Nesse intervalo, foram perto de 1,2 milhão de vagas criadas. Assim, o nível de 2017 está próximo, um pouco abaixo, de 10 anos atrás.
 
O levantamento do instituto mostra ainda que, em média, os salários reais sofreram perda de 14,7% desde 2014, variando de -13,9% no setor de transformação a 31,2% na indústria extrativa. O salário médio equivalia a 3,2 salários mínimos. A receita líquida de vendas caiu 7,7%.
 
Os dados mostram que a região Sudeste segue na liderança em termos de participação, mas perdendo um pouco de terreno. Em 2017, era responsável por 58% do valor de transformação industrial (VTI), calculado com base no valor bruto da produção menos os custos da operação – o Sudeste perdeu 4,2 pontos percentuais desde 2008. Em igual período, todas as outras cresceram: o Centro-Oeste avançou 1,9 ponto, para 5,6% e o Sul ganhou 1,3, atingindo 19,6%. A região Nordeste tem 9,9% de participação (tinha 9,7%) e a Norte, 6,9% (eram 6,2%).
 
“Esse deslocamento produtivo em direção ao Centro-Oeste se deu principalmente em razão da migração de plantas agroindustriais que eram dedicadas à fabricação de produtos alimentícios e passaram a participar da produção de biocombustíveis, fazendo com que essa atividade se tornasse uma das três mais relevantes da região”, diz o IBGE.
 
“Entre os destaques do Nordeste, está a fabricação de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis, que assumiu a liderança da indústria do Rio Grande do Norte, com 25,6% do valor de transformação industrial desse estado. No Maranhão, a fabricação de celulose e papel já representa 22,6%, seguida pela extração de petróleo e gás (9,1%) outra estreante entre as três mais. Em Pernambuco, a fabricação de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis se junta à fabricação de veículos, assumindo respectivamente, 11,8% e 10,9% do valor de transformação industrial local”, destaca o IBGE em sua pesquisa.
 
De acordo com o instituto, são 318,3 mil empresas industriais ativas no país, que pagaram R$ 300,4 bilhões em salários em 2017. A receita líquida de vendas somou R$ 3 trilhões. O VTI foi calculado em R$ 1,2 trilhão, sendo 91,3% apenas das indústrias de transformação – e, nessa área, apenas oito empresas responderam por 19%. As empresas com 500 funcionários ou mais representam quase 70% da receita.
 
No recorte por setor, o segmento de produtos alimentícios aumentou sua participação, respondendo por 22,9% da receita líquida, ante 16,1% em 2008.  O setor que inclui veículos automotores, reboques e carrocerias perdeu 2,8 pontos percentuais, passando para de 11,7% para 8,9%.
 
 
Edição: Rede Brasil Atual
Foto: Claudia Peters/Pixabay
 
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43 mil empregos formais foram fechados em março, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Desemprego: Brasil fecha 43 mil vagas formais em março, segundo Caged

Imagem: Kleber Sales/CB/D.A Press

O mercado de trabalho formal apresentou, em todo o país, saldo negativo de 43.196 empregos com carteira assinada em março. Segundo dados divulgados hoje (24), em Brasília, pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), da Secretaria de Trabalho do Ministério da Economia, foram registradas 1.216.177 admissões e 1.304.373 demissões no período.

No mês anterior, o saldo havia ficado positivo, com 173.139 admissões (1.453.284 admissões e 1.280.145 demissões). Com isso, no acumulado do bimestre (fevereiro/março), o saldo está em 129.943.
 
A maior perda registrada em março foi no setor de comércio, que apresentou uma diminuição de 28.803 vagas, seguido de agropecuária (-9.545), construção civil (-7.781), indústria da transformação (-3.080) e serviços industriais de utilidade pública (-662).
 
Três setores tiveram resultados positivos: serviços (4.572), administração pública (1.575) e extrativa mineral (528).
 
Os estados que apresentaram os piores resultados foram Alagoas (-9.636 vagas), São Paulo (-8.007), Rio de Janeiro (-6.986), Pernambuco (-6.286) e Ceará (-4.638).
 
Os que anotaram saldo positivo foram Minas Gerais (5.163), Goiás (2.712), Bahia (2.569), Rio Grande do Sul (2.439), Mato Grosso do Sul (526), Amazonas (157), Roraima (76) e Amapá (48).
 
O salário médio das admissões registradas em março ficou em R$ 1.571,58, valor que, se comparado ao mesmo período do ano anterior, representa perda real de R$ 8,10 (-0,51%).
 
Já o salário médio que era pago no momento da demissão apresenta queda maior, de R$ 29,28 na comparação com março de 2018 – valor que representa perda real de -1,69%.
 
 
Fonte: Agência Brasil
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Estudo mostra migração de trabalhadores com nível superior para empregos que não exigem qualificação. Para a CUT, política recessiva do governo é responsável pela falta de oportunidade aos jovens no mercado.

Aumenta o número de jovens formados em empregos que exigem menor qualificação

Foto: Roberto Parizotti

Mergulhado em uma crise recessiva que estagnou a economia, com altos índices de desemprego, o Brasil não está se mostrando um país promissor para os jovens. É cada vez mais comum trabalhadores e trabalhadoras com formação superior ocuparem as vagas do mercado de trabalho que exigem menor qualificação. Não é raro se deparar com um engenheiro que é obrigado a ter de trabalhar no Uber para pagar as contas.

Aproximadamente 44% dos jovens entre 24 e 35 anos com diploma de faculdade estão nessa condição. Em 2012, a taxa era de 38%, segundo levantamento divulgado nessa quarta-feira (12) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), com base nos dados do quarto trimestre de 2018.

“Um ciclo se rompeu”, avalia Graça Costa, secretária de Relações do Trabalho da CUT. Ela explica que durante os governos dos ex-presidentes Lula e Dilma, o Brasil criou condições para que milhões de brasileiros e brasileiras tivessem acesso ao ensino superior por meio de programas como o ProUni e o Fies e mais oportunidades no mercado de trabalho em funções mais qualificadas.

“Porém, a crise e as medidas recessivas do governo, como a aprovação da terceirização irrestrita, a reforma Trabalhista e o congelamento dos investimentos públicos por 20 anos, jogaram o país na recessão e, com isso, a política de geração de empregos de qualidade para esses jovens foi interrompida”.

A dirigente destaca, ainda, que a reforma Trabalhista trouxe outras formas de contratação que precarizam as relações de trabalho, como o contrato parcial, intermitente e a contratação de Pessoa Jurídica, os chamados PJ’s, caso em que o trabalhador tem de abrir um CNPJ para ser um ‘fornecedor’ da empresa, abrindo mão de seus direitos.

“E os jovens e as mulheres são os primeiros a serem atingidos pelas consequências da precarização. Eles são os primeiros a serem demitidos e submetidos a novos contratos precários de trabalho”, afirma Graça.

A pesquisadora e técnica do Ipea, Maria Andrea Lameiras, aponta para uma outra consequência da crise que atinge o mercado de trabalho e afeta a inclusão dos jovens escolarizados. Segundo ela, as vagas que historicamente são ocupadas por trabalhadores de menor qualificação acabam sendo preenchidas por quem tem formação superior e os trabalhadores sem escolaridade acabam sofrendo com o desemprego ou a informalidade.

“Os trabalhadores formados acabam ocupando vagas de quem não tem escolarização”.

Aumento de escolaridade

A pesquisa do IPEA mostra que o percentual de brasileiros com nível superior passou de 10,2% em 2012 para 13,9% em 2018. Isso significa que o Brasil tem hoje um total de 19,4 milhões de trabalhadores com nível superior. Em 2010, eram 13,1 milhões.

Apesar da inclusão de milhões de jovens no ensino superior, boa parte não consegue vagas no mercado de trabalho na profissão que escolheram estudar. Hoje, 38% dos trabalhadores e trabalhadoras que cursaram a universidade estão exercendo funções de menor qualificação, diz a pesquisadora do Ipea, Maria Andrea Lameiras.

A secretária de Relações do Trabalho da CUT explica que resultado é reflexo da paralisação de diversos setores da economia. “A indústria, que é um setor onde várias atividades exigem nível superior, não cresce desde 2015. Aí, o jovem formado não encontra o trabalho para o qual estudou e tem que se virar de outra maneira”.

A realidade do setor público também é responsável pelo quadro, explica Graça. “A Emenda Constitucional 95, que congelou investimentos públicos, especialmente em saúde e educação, diminuiu consideravelmente o número de concursos. Além disso, com a terceirização, o emprego que deveria seria destinado à mão de obra qualificada desaparece ou se torna precário”.

Pesquisa

A pesquisa sobre os jovens no mercado de trabalho é um recorte do estudo A evolução da população ocupada com nível superior, também do Ipea, feito a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego.

 

Fonte: CUT / Escrito por Andre Accari
Edição: Fisenge

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Pesquisa mostra que, na comparação com as taxas médias de desemprego, negras e jovens entre 18 e 29 anos são os dois grupos mais afetados.

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Foto: EBC

A possibilidade de uma mulher negra ser afetada pelo desemprego é 50% maior do que a média geral da sociedade, segundo o levantamento "A sensibilidade do desemprego às condições da economia para diferentes grupos de trabalhadores", desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O estudo, que tem por base dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), aponta ainda os jovens entre 18 e 29 anos como o outro grupo mais afetado pelas oscilações no mercado de trabalho.

Segundo o pesquisador do Ipea, Miguel Foguel, um dos autores do levantamento, a falta de experiência e a necessidade de conciliar os estudos com o trabalho estão entre os principais obstáculos na conquista de um emprego para os mais novos.

Apesar de a pesquisa não apresentar os motivos que colocam as mulheres negras em condição de maior vulnerabilidade, Foguel analisa, em entrevista à repórter Ana Rosa Carrara, da Rádio Brasil Atual, que a distinção feita pelo estudo contribui para o desenvolvimento de políticas públicas adequadas para cada grupo social e que, no caso das mulheres, é preciso pensar formas que garantam a inserção no mercado de trabalho, com foco na qualidade educacional.  "Isso é uma política geral, a gente tem que melhorar a educação no Brasil", defende.

 

Fonte: CUT / Escrito por RBA

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Trabalhadores criticam falta de transparência na negociação e denunciam impactos para o país, como fechamento de empresas e fim de postos de trabalho, caso o Acordo Bilateral com a União Europeia seja assinado.

Foto: Comunicação Volkswagen do Brasil / Fotos Públicas

Acordo bilateral de livre comércio pode acabar com indústria nacional

Parte interna da fábrica da Volks em Taubaté
 

Um Acordo Bilateral de Livre Comércio entre o Mercosul e a União Europeia pode ser fechado a qualquer momento e acabar com a indústria nacional, deixando milhões de trabalhadores e trabalhadoras desempregados no Brasil. Sem transparência, sem debate com a sociedade e sem a participação dos trabalhadores, o governo acelera a negociação e pretende assinar o acordo até agosto deste ano.

A negociação prevê o fim da cobrança da taxa de 35% de importação dos produtos industrializados da União Europeia aos países que compõe o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) num prazo de 15 anos. Com isso, o Brasil e os países vizinhos oferecem suas commodities, que são os produtos de baixo valor agregado, em troca de bens industrializados e serviços avançados produzidos pelos países do bloco europeu.

O presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM-CUT), e vice-presidente dos Metalúrgicos do ABC, Paulo Cayres, o Paulão, explica que se o Acordo de Livre Comércio for aprovado, poderá ocorrer uma nova invasão de produtos importados no País, com a queda de investimentos na indústria e fechamento de fábricas no Brasil.

Segundo ele, são cerca de seis milhões de postos de trabalho ligados à indústria brasileira que poderão simplesmente desaparecer.

“Não se pode assinar um acordo que coloca em risco os empregos, os direitos dos trabalhadores e os parques industriais dos países do Mercosul”, critica Paulão, que completa: “por isso, exigimos total transparência no processo.”

Ele explica que se o Acordo de Livre Comércio entre os blocos for assinado, não passará a valer imediatamente e os trabalhadores poderão pressionar os parlamentares dos quatro países que compõe o Mercosul a não apoiarem o acordo, uma vez que a matéria ainda precisará ser aprovada pelos parlamentos para virar tratado e entrar em vigor.

Segundo o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wellington Damasceno, responsável pela Política Industrial na entidade, com o fim do imposto de importação, as montadoras de matrizes europeias que estão no Brasil, como a Volkswagen, Mahle e Mercedes, vão preferir produzir automóveis em seus países e mandar os carros para o Brasil prontos.

Para explicar o impacto do acordo na produção automobilística brasileira, o diretor dos Metalúrgicos do ABC usa como exemplo a produção do automóvel Polo, que é feita tanto pela fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, instalada no Brasil, quanto pelas fábricas da Europa.

“Caso esse acordo seja aprovado, eles irão preferir produzir tudo nas fábricas europeias. E sem a produção do Polo, hoje, metade dos trabalhadores da fábrica no ABC seria mandada embora.”

Trabalhadores exigem transparência

O secretário-geral da IndustriAll Global Union, Valter Sanches, critica a falta de transparência na construção do acordo e denuncia que as negociações estão sendo feitas à toque de caixa.

“Não dá para saber como está o andamento de um acordo que está sendo feito às escuras. O que a gente sabe é que se dependesse dos governos do Brasil e da Argentina este acordo já teria sido aprovado no ano passado, na reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Buenos Aires”, afirmou o secretário-geral da IndustriAll Global Union, entidade que representa 50 milhões de trabalhadores e 700 sindicatos em 142 países.

“As negociações de livre-comércio que acontecem de forma obscura, à revelia dos povos, só servem às corporações transnacionais financeirizadas”, critica.

Segundo ele, a União Europeia tem uma tradição de fazer acordos bilaterais e deve intensificar as negociações com os países sul-americanos, sobretudo, neste momento que o bloco europeu se vê ameaçado pelas rupturas unilaterais promovidas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“E para nós o mais importante é defender a participação dos trabalhadores, das organizações sindicais e da sociedade civil nas negociações, ouvindo todas as partes”, defende Sanches.

Já o secretário-adjunto de Relações Internacionais da CUT, Ariovaldo Camargo, denuncia que a estratégia dos negociadores é justamente que os trabalhadores não participem dos debates para que os empresários internacionais tenham facilidades para conhecer e negociar os termos.

“Estamos tentando buscar o acesso aos detalhes do acordo para garantir minimamente o respeito aos direitos dos trabalhadores e a preservação da indústria nacional. Mas, se não há transparência, não há como se estabelecer um diálogo social entre as partes”, diz o dirigente.

Segundo Ariovaldo, as negociações estão sendo aceleradas por causa das eleições deste ano e o governo quer acelerar o processo de desmonte do País. “Temer já destruiu os empregos no Brasil com a reforma trabalhista e agora quer destruir a indústria. Se não houver proteção da indústria nacional e dos empregos não temos nenhuma concordância no avanço deste acordo.”

O governo tem pressa

A negociação entre Mercosul e União Europeia não é recente. As primeiras discussões tiveram início há quase 20 anos e não houve avanço no debate durante todo esse período. Foi no segundo semestre do ano passado que o governo, com sua política privatista de entrega do patrimônio público brasileiro, intensificou as ações para tentar fechar o acordo.

Em entrevista à Reuters, o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, chegou a afirmar que o prazo pretendido pelo governo para fechar o acordo é agosto deste ano. O ministro está em Bruxelas nesta quarta-feira (18) para uma reunião com os chanceleres do Mercosul e um encontro com a comissária de Comércio da Comissão Europeia, Cecília Malmström, e com o Comissário de Agricultura, Phil Hogan, para dar continuidade aos debates sobre o acordo.

 

FONTE: CUT / Escrito por Érica Aragão

 

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O sonho do então estudante Alisson Oliveira, 31 anos, era seguir a carreira científica. Chegou a cursar Física na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo, mas as dificuldades enfrentadas por um pesquisador o desiludiram. Decidiu, então, fazer Engenharia Civil. Em 2009, entrou na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Em 2013, se formou e já saiu empregado.

Escolheu Engenharia porque, naquele momento, ninguém ficava desempregado. Com vagas à disposição, os salários eram altíssimos.
Só que vieram as crises. A política, a econômica e a da própria Engenharia Civil. No fim de 2014, Alisson foi demitido. De lá para cá, nunca mais conseguiu trabalhar na área. Hoje, é motorista de Uber e trabalha de madrugada para conseguir receber aproximadamente um terço do salário de quatro anos atrás.

“Já larguei a área. Estou estudando para concurso e, se der certo vou sair do Brasil”, diz, categórico. Alisson, que trabalhou numa empresa terceirizada que participou da construção da Arena Fonte Nova, vai fazer provas para Petrobras e para o cargo de investigador da Polícia Civil neste domingo (22).
Alisson não está sozinho. Como ele, milhares de engenheiros civis – de recém-formados aos antigos na profissão – passam por uma situação dramática. Depois que o setor vivenciou um crescimento fora do comum entre 2008 e 2014, vieram os altos índices de desemprego e de empresas sendo fechadas.

Só em 2015, o Sindicato dos Engenheiros da Bahia (Senge) homologou 600 demissões no estado. Em 2016, foram 500. Em 2017, o número caiu para 300 – não porque a situação melhorou; mas porque a construção civil já extinguiu tantos cargos e demitiu tanta gente que já não há mais por onde cortar. Uma coisa é certa: os demitidos nos anos anteriores não foram contratados novamente.

E isso é só relacionado aos que passam pelo sindicato, porque, como explica o presidente do Senge, Ubiratan Félix, muitas empresas não fazem isso. “Esse ano está mais tranquilo porque não tem mais quem seja demitido. Houve uma situação muito forte nos últimos tempos de quem ia homologar e não recebia nada porque a empresa entrou em recuperação judicial. O sindicato está acompanhando profissionais desempregados, que estão tendo uma situação difícil de ter até que retirar filho da escola”, diz ele, que também é professor do Instituto Federal da Bahia (Ifba).

Crise nacional
Não há como dissociar a crise na engenharia civil com a crise no país. Como explica o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA-BA), Luiz Edmundo Campos, a situação econômica nacional em 2008 – de crescimento e mais empregos sendo oferecidos – fez com que salários aumentassem. Assim, as pessoas começaram a melhorar de vida. Muita gente comprou carro, apartamento e a engenharia civil ia de vento em popa.
Basicamente, dava para usar uma regra e, a partir dela, compreender como estava o Brasil. O coordenador de Engenharia Civil da Faculdade Pitágoras de Teixeira de Freitas, Faustino Ferreira Filho, diz que o campo é um ‘termômetro da economia’. “E oscila em detrimento das ações públicas de nossos governantes, fomentado pelas grandes empresas do mercado imobiliário e de serviços”.

Naquele momento, era como se o termômetro indicasse que o Brasil tinha a saúde de um jovem atleta da Seleção Brasileira de Vôlei, de Futebol ou de Natação. Nenhum sinal de febre – o que provocou o aumento do interesse pela Engenharia Civil. O que acontece é que um estudante da área passa pelo menos cinco anos na faculdade.

Ou seja – quem entrou em 2008 esperando encontrar um campo pulsante saiu somente em 2013. Aqueles que começaram em 2009 saíram em 2014 já no estopim da crise econômica do país – e isso seguiu com os que fizeram vestibular em 2010, 2011 e 2012.

Em 2008, 625 novos engenheiros civis pediram registro no Crea. Entre 2009 e 2012, o número continuou oscilando entre 500 e 600. É a partir de 2013 que as coisas começam a se inverter: só naquele ano, o mercado ganhou 739 novos engenheiros civis. Em 2017, em plena crise, 1.581 engenheiros saíam da faculdade – praticamente o triplo da quantidade que chegava ao mercado nos anos de maior crescimento da construção.

Esses profissionais foram atraídos pelo salário – o piso nacional é de oito salários mínimos e meio – e pela possibilidade de crescimento. Naquele momento, segundo o presidente do Senge, Ubiratan Félix, o mais comum era que as empresas pagassem bem mais que o piso. Dava até para escolher quem dava mais pelo serviço. Agora, até o piso é raro.

Insustentável
O crescimento foi tão grande que dava para imaginar que aquilo não seria sustentável a longo prazo, para alguns especialistas. Em poucos meses, bairros inteiros nasciam praticamente do nada – como o que aconteceu em pontos da Avenida Paralela. E isso só no que tange ao desenvolvimento imobiliário, que é o mais perceptível para a população. No entanto, a infraestrutura pesada também nunca crescera tanto.

Pelas faculdades, passaram milhares de estudantes que, na avaliação do coordenador, muitas vezes nem tinham afinidade com a área. Os números gigantescos, no fim, eram um indicativo de que algo daria errado. O pior, na verdade, ainda estaria por vir. Para o professor, a própria profissão de engenheiro civil passa por um momento muito delicado – a ética do campo foi colocada em debate.

Pouco tempo atrás, ele chegou a participar de um evento em uma escola, onde apresentou a Engenharia Civil para estudantes do 3º ano. A surpresa veio logo na primeira pergunta de um aluno. “Existe uma cultura de corrupção na profissão de engenharia civil?”, lembra Ferreira. Otimista, tentou explicar para os jovens que a corrupção não está associada a uma profissão específica, mas às pessoas.

Fechamento de empresas
Durante os anos de ouro, a maior parte do mercado local – inclusive construtoras – era subcontratada e empregada por duas ou três grandes empresas baianas. Isso podia acontecer de forma direta ou indireta. “Não tinha como não ter uma repercussão direta nessas empresas”, diz, referindo-se ao cenário atual.

Só para dar uma ideia, de acordo com a Junta Comercial da Bahia (Juceb), em 2008, existiam 1.473 empresas de engenharia civil ativas no estado. O número inclui construtoras, empresas de obras de impermeabilização; serviço de pintura; empresas que trabalham com edificações; empresas que vendem e arrendam máquinas e equipamentos; e empresas que fazem consultorias e projetos da área.

Naquele ano, 266 corporações foram abertas e 47 foram fechadas. Em 2017, a proporção entre novas empresas e aquelas que fecharam as portas passou de 17% para 42% - 354 abertas e 149 fechadas, além de 3.477 ativas. Só este ano, até o dia 11 deste mês, 91 empresas abriram e 55 fecharam – uma proporção de 60,43%.

Hoje, é como se os postos de trabalho tivessem regredido a uma situação um pouco pior do que antes de 2008. Naquele ano, toda a construção civil empregava 133 mil trabalhadores com carteira assinada, de acordo com dados do Sinduscon. Em janeiro de 2018, 118 mil pessoas estavam na mesma condição.

Isso não seria tão grave, como explica o presidente da entidade, Carlos Henrique Passos, se o setor não tivesse conhecido um cenário quase duplicado – em 2013, o número de empregados com carteira assinada batia em 230 mil. Era uma novidade para um campo que, por muito tempo, levava engenheiros a trabalhar no mercado financeiro e até a fazer concursos para auditores fiscais.

E, embora aqui, a crise esteja personificada pelos engenheiros, ela afeta toda a cadeia produtiva de forma geral. Começa com os corretores de imóveis, passa pelos cartórios de imóveis e depois chega aos responsáveis pelos projetos – arquitetos e projetistas. Durante a construção em si, é a vez dos engenheiros e dos operários. Por fim, há a indústria de mobiliário, a publicidade e até os veículos de comunicação – que dependem do mercado imobiliário para a propaganda.

“Nosso ciclo é muito grande. É de cinco anos pelo menos – entre a compra do terreno e o fim de uma obra. As obras só vieram sentir em 2014”, explica Passos. Coincidentemente ou não, o tempo é o mesmo da formação de novos engenheiros.


Jovens engenheiros se deparam com mercado sem contratações
Foram cinco anos até que, finalmente, viesse a formatura, em julho de 2017. No currículo, qualificações importantes: graduação na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, uma das mais renomadas do país, e estágio na construtora Even. Mesmo assim, desde que recebeu o diploma, a engenheira civil baiana Giulia Ghirardi, 23 anos, não conseguiu um emprego.

Ainda em julho, voltou para Salvador. Queria ficar perto da família. Desde então, já fez concursos e distribuiu dezenas de currículos pela cidade. Tentou de pequenas a grandes empresas – mesmo assim, não adiantou. “Quando você não tem quem lhe indique, é muito mais difícil. E eu não tenho ninguém influente na minha família, nem que trabalhe na área atualmente”.

Giulia escolheu a carreira às cegas, porque sabia que gostava de Exatas. Chegou a flertar com a Arquitetura, mas, no fim, decidiu pela Engenharia Civil. Fez vestibular em 2011, mas não foi aprovada na Universidade Federal da Bahia (Ufba). No semestre seguinte, contudo, tentou a vaga na Mackenzie e conseguiu. Como a família do pai é de São Paulo e seu avô tinha sido formado por aquela instituição, pareceu quase um caminho natural.

As mensalidades custavam, em média, R$ 2 mil e, para economizar, morou com uma tia durante boa parte do curso. Quando começou o estágio, conseguiu alugar um apartamento por R$ 1,4 mil. Para ela, não há dúvidas de que o cenário é diferente de quando entrou na faculdade.

Mesmo os colegas que ficaram em São Paulo não têm conseguido trabalhar. Os que estão, de alguma forma, inseridos no mercado de trabalho, não estão fazendo aquilo que querem.

Hoje, Giulia é aluna do mestrado em Gestão e Tecnologia Industrial do Senai-Cimatec. Ela espera que, com isso, possa se destacar mais entre os milhares de engenheiros na mesma situação. “Foi um investimento (financeiro) grandíssimo, que não gosto nem de lembrar. Atualmente, meus pais me ajudam e tenho uma reserva de quando ainda estava trabalhando”. No fundo, ela tem uma certeza que a tranquiliza: a Engenharia Civil é fundamental para o desenvolvimento. Ou seja, mais cedo ou mais tarde, as obras voltam.

Tecnologia
Isso também é o que a professora Tatiana Dumet, diretora da Escola Politécnica da Ufba, defende. Segundo ela, o Brasil ainda tem ‘falta’ de engenheiros. “A gente forma 40 mil engenheiros por ano e deveria estar formando 60 mil para atender as demandas de tecnologia. Mas não quer dizer que vai ter emprego para todo mundo”, reforça.

Uma nova cultura que a Politécnica tem tentado implementar é justamente de criar uma cultura de inovação entre os estudantes – ou seja, que se tornem seus próprios empregadores. A ideia é que, com isso, os jovens saiam desses dois horizontes – de ser funcionário público ou de trabalhar para grandes empresas.

“Existem ciclos na Engenharia, sem sombra de dúvidas. Eu formei em 1988 e já passei por dois ou três”, conta. A realidade atual parece ser a de um ciclo de baixa. Na própria Politénica, os estudantes têm postergado a formatura um ou dois semestres para tentar conseguir o estágio. “Eles estão realmente preocupados e houve uma diminuição de oferta de estágio. Antes, a gente recebia quase que diariamente pedido de indicação”.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Engenheiros (Senge), Ubiratan Félix, durante o boom da construção civil, não era incomum que estagiários recebessem uma bolsa de R$ 1,8 mil. “Os alunos escolhiam. Não é a realidade de hoje, que tem uma super oferta de estudantes e até estágio de graça está difícil”.

Nos últimos vestibulares, a concorrência para Engenharia Civil caiu – o que reflete o interesse dos atuais estudantes de Ensino Médio na área. No auge, na Escola Politécnica, Engenharia Civil chegou a ter 15 candidatos por vaga. Hoje, fica em torno de 6 ou 7.

Mesmo assim, tem gente que não desanima. Apesar de saber de toda a situação do país e de recessão no campo, o estudante Thiago Bozzo, 19, não desistiu da Engenharia Civil. Hoje ele está no 2º semestre do curso e ocupa o cargo de gerente de venda na empresa júnior do curso, a Engetop.
Para Thiago, porém, o futuro ainda é uma incógnita. Na empresa júnior, descobriu que gosta também de gerenciar. Assim, consegue se ver também nessa função. “Tenho, sim, vontade de passar por obra e por construtoras, mas também de ter um futuro no meio empresarial, de negócios. São coisas que me identifico”.

O coordenador do curso de Engenharia Civil da Faculdade Pitágoras de Teixeira de Freitas, Faustino Ferreira Filho, explica que as habilidades de um profissional da área costumam mesmo ser bem vistas no setor empresarial. Ele cita a facilidade de raciocínio rápido, visão espacial e grande potencial de poder de decisão.

“As Engenharias têm uma vasta atuação no mercado de trabalho no Brasil e não se limitam apenas a trabalhos específicos de projetos e construções. Então, mostramos aos futuros profissionais as possibilidades de atuação para que possam utilizar as habilidades adquiridas”.

A ansiedade e o medo nos jovens são compreensíveis. Apesar disso, o engenheiro elétrico e professor da Faculdade Área 1 Wyden Raimundo Menezes diz que ainda vale a pena investir no setor. Para o professor, esses profissionais serão requisitados pelo mercado no futuro.

Mesmo na Engenharia Civil, uma saída é investir nos nichos de constrição. “Um deles é o de apartamentos quarto e sala e outro é o mercado de alto luxo, com apartamentos de R$ 3, 4 milhões que as empresas conseguem vender. Mesmo na crise, existem esses nichos”.

Nem tudo é crise: em algumas engenharias, há vagas e oportunidades
De fato, a crise não é só na Engenharia Civil. A situação não tem sido fácil na Engenharia Elétrica, na Mecânica... Para o professor Frederico Andrade, coordenador do curso de Engenharia Mecânica da Unijorge, uma das áreas que mais sofreu foi a Engenharia de Petróleo e Gás. “O efeito (da crise) sobre a Petrobras e toda a cadeia do petróleo acabou afetando muito”, cita.

No entanto, ele diz que a indústria tem conseguido criar outras alternativas – como a exportação, que é uma das saídas da indústria automotiva brasileira hoje. “Por isso, na Engenharia Mecânica, você tem uma certa retomada um pouco mais rápida do que em outras áreas. A construção civil, por exemplo, depende dessa capacidade de renda do mercado interno e as obras de infraestrutura dependem da capacidade do governo de investir”.

Mas existe algum campo onde há vagas? Para a engenheira elétrica Tainá Andrade, professora e coordenadora dos cursos de Engenharia da Faculdade Ruy Barbosa, o ‘engenheiro consultor’ será uma função cada vez mais comum, já que os empregos com carteira assinada estão mais limitados.

Ela cita os profissionais que fazem estudos.

O que tem despontado na Engenharia, nos últimos anos, são as fábricas inteligentes, a internet das coisas e a indústria 4.0. Todas são opções de carreira. Segundo Tainá, em alguns estados, cursos de engenharia voltados à indústria 4.0 já estão sendo pensados. “Não vai ser só construir prédios residenciais, mas pensar em toda uma estrutura diferente”.

Além disso, entre as carreiras promissoras, ela destaca a de Engenharia de Produção – mais ‘versátil’, o profissional da área pode trabalhar em diferentes ramos. “É possível trabalhar com Engenharia Elétrica, Química, de Produção Civil, Engenharia Ambiental. Na grade, também tem aulas de automação, robótica, qualidade, eletricidade”, exemplifica.

Por Thais Borges - Rede Bahia/Correio 24 horas

FOTO: AKIRA ONUMA / ASCOM SUSIPE

Em crise, engenheiros desempregados viram até motoristas de Uber

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