Por Ubiratan Félix*

A anunciada construção do BRT em Salvador tem levantado debates que, embora importantes, parecem se desviar do problema central: o BRT, nada mais, é do que um pretexto para realização das suas obras complementares como viadutos, passarelas e manejo de águas fluviais para facilitar a fluidez dos veículos individuais. O custo da infraestrutura do BRT propriamente dito é de apenas 15% do valor total da obra, que está estimado em R$ 820 milhões, um dos projetos mais caros entre as capitais brasileiras. Além disso, a maior parte da demanda por transporte público no trecho onde será implantado o BRT foi absorvida pelo Metrô, evidenciando que não há necessidade real do uso do modal, pelo menos não no trecho pretendido.

Portanto, os dados e problemas causados pelo BRT vão muito além da questão corte de árvores, que parece ter dominado o debate até o momento. A questão é que, manter a discussão sobre o BRT somente na oposição meio ambiente x mobilidade não ajuda a problematizar as reais intenções políticas do prefeito ACM Neto com esta obra que, na realidade, trata-se de um projeto não existe por si só. A implantação do BRT está sendo utilizada para justificar vultosos investimentos em obras viárias que irão melhorar a fluidez automóvel e, dessa forma, servir à classe média que utiliza transporte individual e não aos usuários de transporte público. Cabe também destacar que o BRT não é uma demanda dos donos das empresas de ônibus.

O modal BRT, em si, não é necessariamente ruim para a mobilidade urbana. Ele é uma solução técnica viável quando a origem-destino está em torno de 25.000 passageiros/dia e poderia ser utilizado, por exemplo, na orla de Salvador, de Itapuã ao Rio Vermelho. Adoção de modal elétrico, como o VLT também é possível, embora se deva considerar o custo da energia elétrica, que impactaria negativamente no valor final da tarifa. Neste caso, deveria haver uma cobrança diferenciada no custo de energia para uso do transporte público. Em resumo, porém, o que os especialistas em mobilidade urbana defendem é a integração dos diversos modais em ordem de prioridade decrescente: pedestre, ciclovias, transporte público e transporte individual. É sobre essa ótica que deveríamos estar discutindo a obra do BRT e todas as demais intervenções ligadas à mobilidade em Salvador.

*Ubiratan Felix é engenheiro civil, presidente do Senge-BA e vice-presidente da Fisenge

"É preciso qualificar o debate sobre o BRT de Salvador", afirma vice-presidente da Fisenge

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Em março deste ano, foi dado início às obras do primeiro trecho do BRT (Bus Rapid Transit) em Salvador, sistema rápido de transporte público que, segundo o site da Prefeitura, é moderno, de alta capacidade, com tecnologia 100% nacional e irá atender bairros onde o metrô não chega, ligando o Centro da cidade e a região do Iguatemi. Para a implantação do novo modelo de transporte, será necessário a construção de viadutos, elevados, ciclovias e linhas exclusivas.

O BRT tem um custo estimado de R$ 800 milhões e de acordo com dados do Ministério das Cidades, fornecidos para o movimento Salvador Sobre Trilhos, o valor de cada quilômetro implantado na capital baiana é o triplo de demais cidades brasileiras. Além do alto custo, a questão ambiental também gerou divisão de opiniões entre os soteropolitanos que formularam um abaixo assinado contra a derrubada de árvores na capital e no último domingo se reuniram em um manifesto contra o projeto.

Ainda segundo o site da Prefeitura da cidade, todas as árvores já foram cadastradas, dentre elas 25% a 30% serão remanejadas para outro local no mesmo canteiro ou para outro lugar. E, com uma estrutura leve, o impacto na paisagem será pequeno e preservará as características arquitetônicas da capital. Mas, para o especialista ambiental, Célio Costa Pinto, a situação é diferente, ele explica que Salvador possui poucas áreas verdes e seus vales, onde correm os rios da cidade, foram utilizados para construção de avenidas sem preservação da mata ciliar e, que a legislação ambiental federal permite obras nessas áreas desde que sejam de utilidade pública e não possuam outra alternativa locacional. Entretanto, não são feitos estudos de impacto ambiental para a tomada de decisão. “O BRT (à revelia de sua necessidade de implantação que é questionável) traz esse agravante de retirada de árvores centenárias em APP, expondo mais ainda a bacia hidrográfica à condição de escoamento superficial de chuvas que pode não suportar, além da perda da beleza cênica e qualidade ambiental da cidade” enfatiza Célio.

Devido ao desconforto da população, a implantação do novo modelo de transporte vem sendo questionada enquanto sua eficiência e necessidade. O engenheiro civil e ex-secretário de mobilidade urbana de Salvador, Carlos Batinga, acredita que não existem políticas claras para o transporte coletivo em Salvador, porém o modal BRT é uma importante alternativa para as grandes e médias cidades brasileiras. Para ele, só é possível resolver os problemas de mobilidade urbana através de grandes investimentos em transporte de massa e restrições ao transporte individual motorizado. “Esperemos que o recém concluído Plano de Mobilidade Urbana de Salvador, seja a base para a implantação de uma política eficiente e duradoura para esta área” completa ele.

O Projeto

Além dos bairros entre o Centro de Salvador e a região do Iguatemi, os bairros vizinhos, como o Vale das Pedrinhas, Nordeste de Amaralina, parte de Brotas, Engenho Velho da Federação, Itaigara, Candeal e outros também estão inclusos nas regiões atendidas pelo novo sistema.

A primeira etapa do BRT está sendo construída com recursos da Prefeitura juntamente ao empréstimo realizado pela Caixa Econômica Federal. Terá uma extensão de 2,9 km e ligará o Loteamento Cidade Jardim (Parque da Cidade) ao Iguatemi (Estação de Integração BRT/Metrô). Já a segunda etapa, ligará a Estação da Lapa ao trecho acima e, corresponderá a um percurso de 5,5km. Para esse segundo trecho, a prefeitura contará com recursos federais.

A terceira etapa ainda está em formação e captação de recursos, ela consiste na ampliação do segundo trecho e a ligação entre o Parque da Cidade ao Posto dos Namorados, na Pituba, um percurso de 1,8 km. Para todos os trechos será necessária a construção de viadutos, elevados, ciclovias e linhas exclusivas.

Fonte: Giovana Marques (Ascom Senge-BA)

Implantação do BRT divide opiniões em Salvador

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