Sexta, 25 Janeiro 2008 00:00

Cinqüenta transnacionais controlam preço dos alimentos

Segundo dirigente do MST, objetivo das empresas é produzir commodities valorizadas no mercado internacional

 

Por Brasil de Fato (www.brasildefato.com.br)

 

 

“As grandes empresas não querem produzir alimentos, querem produzir lucro. Apenas 50 transnacionais controlam toda a produção agrícola no mundo”. A afirmação é de José Batista de Oliveira, integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

 

De acordo com Oliveira, o problema dos preços dos alimentos, em alta no mundo inteiro, está ligado à especulação e à utilização de parte da terra para produzir etanol:

 

“Por isso, essas grandes empresas, em sua maioria multinacionais, não têm como objetivo alimentar o mundo, mas produzir commodities valorizadas no mercado internacional”, afirma o dirigente do MST.

 

O movimento critica também o modelo agroexportador, implantado no Brasil pelos últimos governos: “O agronegócio é a parceria entre latifúndio, empresas transnacionais da agricultura e o mercado financeiro, que subordina o uso das terras e os recursos naturais brasileiros às necessidades das grandes empresas e à especulação. Se a demanda se mantiver alta, as empresas e os investidores estrangeiros vão seguir comprando fazendas no país, comprometendo a capacidade de produção das nossas terras, exaurindo nossos recursos naturais com práticas técnicas que comprometem o futuro da natureza com a imposição da monocultura, que destrói a biodiversidade e expulsa mão-de-obra do campo”.

 

Leia a seguir a entrevista com José Batista de Oliveira.

 

 

Os preços dos alimentos estão subindo apenas pelo aumento da demanda?

 

José Batista de Oliveira – Não tem nada a ver com a demanda. O preço dos alimentos está subindo por causa do aumento da taxa de lucro média na agricultura na venda de produtos específicos valorizados no mercado internacional, como o etanol. Ao subir o lucro médio, todos os produtores agrícolas têm três opções: migrar para a produção de cana e óleo vegetal, aumentar o preço da sua produção ou desaparecer. Por isso, Fidel Castro (presidente de Cuba) denunciou, com razão, que o estímulo da produção de etanol no Terceiro Mundo aumentaria o preço dos alimentos, não apenas pela diminuição de área plantada ou pela concorrência. Na agricultura, a taxa média de lucro vale para todos os produtos, diferentemente da indústria, na qual a taxa média é dada por ramo de produção.

 

 

As multinacionais podem estar especulando com o preço dos alimentos ou usando o argumento da inflação com outros objetivos para forçarem os países em desenvolvimento a adotarem políticas econômicas exclusivamente de combate à inflação, em detrimento do crescimento da economia?

 

As empresas transnacionais controlam toda a produção das principais commodities e controlam o comércio mundial. Em cada ramo, temos, no máximo, dez empresas que controlam produção, processamento e comércio. Portanto, hoje o preço de cada mercadoria internacionalizada é objeto de especulação. Não tem mais uma relação direta do preço com o custo de produção, que é apenas uma referência. A manipulação maior dessas empresas sobre a produção nacional e comércio internacional é um instrumento para alcançar seus lucros. A influência desse setor sobre a política econômica do governo Lula é por meio do Banco Central, que monitora as taxas de juros e câmbio.

 

 

Que empresas controlam o comércio de commodities da alimentação?

 

O preço e o comércio de soja e das commodities agrícolas em geral são manipulados por conglomerados estrangeiros, como a estadunidense Cargill, a holandesa Bunge, a americana-canadense ADM, a suíça Syngenta, a estadunidense Monsanto, e a francesa Dryfuss. Na área de laticínios, o mercado é manipulado por apenas três: a suíça Nestlé, a italiana Parmalat e a francesa Danone. Na área de venenos e remédios, também são poucas empresas, como a alemã Bayer, a suíça Syngenta, a alemã Basf e a suíça Norvar-tis.

 

 

Qual a relação destas últimas com o comércio de alimentos geneticamente modificados (AGM), conhecidos como transgênicos?

 

Essas empresas querem impor os transgênicos, por meio do qual passam a ter controle absoluto dos agricultores e da taxa de lucro do comércio internacional. Imagine que essas empresas têm a petulância de impor sementes transgênicas modificadas geneticamente para que o agricultor compre um específico produto agrotóxico que vendem. E, além disso, cobram royalties dos agricultores por apenas usarem as sementes deles, que registraram como propriedade privada intelectual.

 

 

Como assim?

 

São os próprios agricultores que produzem as sementes, mas por reproduzirem a soja transgênica da Monsanto, que nem produz tanta semente, precisam pagar royalties todos os anos.

 

 

Até que ponto a produção convencional pode ser aumentada para fazer frente à demanda crescente por alimentos no mundo?

 

As grandes empresas não querem produzir alimentos, querem produzir lucro. Cerca de 50 empresas transnacionais controlam toda a produção agrícola no mundo. Aqui no Brasil, cerca de 50 empresas controlam quase todo o comércio agrícola nacional, sendo 30 transnacionais e 20 brasileiras. Por isso, elas não têm como objetivo alimentar o mundo, mas produzir commodities valorizadas no mercado internacional.

 

 

O Brasil lucra com o agronegócio?

 

O agronegócio é a parceria entre o latifúndio, as empresas transnacionais da agricultura e o mercado financeiro, que subordina o uso das terras e os recursos naturais brasileiros às necessidades das grandes empresas e à especulação. Se a demanda se mantiver alta, as empresas e investidores estrangeiros vão seguir comprando fazendas no país, comprometendo a capacidade de produção das nossas terras, exaurindo nossos recursos naturais com práticas técnicas que comprometem o futuro da natureza, com a imposição da monocultura, que destrói a biodiversidade e expulsa mão-de-obra do campo. Isso é um perigo para nossa soberania nacional, pois os estrangeiros obedecem a interesses de fora e não têm qualquer compromisso com a preservação do meio ambiente, nos explorando ao máximo para depois irem embora com seus lucros.

 

 

Qual o papel da agricultura familiar nesse contexto?

 

Os agricultores familiares passam por uma crise de falta de mercado e de contenção de preços. A população não tem renda para aumentar o consumo de queijo, pão, leite, iogurte, carnes e embutidos produzidos por essa faixa. A pequena agricultura não consegue avançar sem um projeto de desenvolvimento nacional que tenha como centro o fortalecimento do mercado interno, a distribuição de renda, a indústria nacional para sustentar a geração de emprego e a renda para o povo. Precisamos de um novo modelo agrícola baseado na pequena e na média propriedade, na prioridade à produção de alimentos para o mercado interno, na criação de uma nova matriz produtiva no campo, na adoção de técnicas de produção que respeitem o ambiente, sem agrotóxicos.

 

 

Se realmente a demanda está crescendo mais que a produção, os transgênicos passam a ser uma boa opção?

 

Não. Os transgênicos não são simplesmente organismos geneticamente modificados, mas produtos criados em laboratórios que colocam a agricultura nas mãos do mundo financeiro e industrial. Não estamos mais diante da agricultura tradicional, mas de grupos que lançam mãos de transgênicos para controlar as sementes e impor o uso de insumos e venenos que produzem. Os transgênicos passam para as transnacionais o papel dos camponeses e povos originários de fazer o melhoramento das sementes e cultivar. Além disso, não existem estudos que comprovem que esses produtos não causam problemas à saúde.

 

 

Como o movimento avalia a política do governo com relação à reforma agrária em 2007?

 

A política de reforma agrária do governo Lula foi insignificante em comparação à ofensiva do capital na compra de terras e sobre o controle da produção agrícola no país. Os números divulgados neste ano confirmam a nossa avaliação de que a Reforma Agrária deixou de ser uma prioridade do governo Lula, que fez uma opção pela monocultura para exportação do agronegócio, que concentra terra e destrói o ambiente, beneficiando somente empresas estrangeiras e latifundiários. O governo está em dívida com os 150 mil trabalhadores rurais do movimento acampados em todo o país e precisa honrar os seus compromissos históricos com a Reforma Agrária e com o combate à pobreza no campo.

 

 

Se por um lado os números mostram 2007 como o pior ano da gestão Lula, de outro, o MDA afirma que 2007 foi o ano que mais se investiu em qualidade da reforma agrária nos últimos 10 anos. O argumento do MDA procede?

 

O aumento dos investimentos do ministério é importante, mas a Reforma Agrária depende antes de tudo de vontade política e coragem para enfrentar o agronegócio e mudar a política econômica, que beneficia por meio de empréstimos do Banco do Brasil e do BNDES as empresas transnacionais. O governo precisa criar coragem e cumprir a Constituição, que determina que áreas que desrespeitam a legislação trabalhista e ambiental, como fazem os produtores de cana, seja desapropriada e destinada para a Reforma Agrária. A compra e retomada de áreas públicas griladas deve continuar, mas o eixo de uma política fundiária que reverta a concentração de terras no páis é a desapropriação.

 

 

Esses recursos do MDA foram aplicados num modelo de reforma agrária que agrada ao movimento? Se não, quais são as principais críticas ao modelo?

 

O problema não é a forma como o ministério está investindo seus recursos, mas o papel que o governo reserva para o campo e para a agricultura. Em 2007, o governo federal pagou R$ 160,3 bilhões em juros, quatro vezes mais de tudo o que gastou no social e correspondente a 6,3% do PIB (Produto Interno Bruto), passando o dinheiro pago em impostos por toda a sociedade para o mercado financeiro e para especuladores, que investem justamente nas empresas transnacionais da agricultura. O ministro Cassel ignora essa brutal transferência de renda para as empresas do agronegócio quando comemora o investimento realizado no ano passado.

 

 

Qual deve ser a postura do MST frente à lentidão do governo na reforma agrária?

 

O MST e todos os movimentos da Via Campesina do Brasil, vão seguir fazendo luta, com ocupações de terras e protestos para denunciar a destruição ambiental e a concentração de terra pelo avanço do agronegócio. Em 2007, fizemos grandes mobilizações. Vamos seguir no trabalho de conscientização da população e alertar para esse perigo de desnacionalização de nossa agricultura. Infelizmente, nós não conseguimos avançar na resolução dos problemas concretos da classe trabalhadora. Nós esperamos que as mobilizações para o ano que vem aumentem e que essas mobilizações conscientizem o próprio governo Lula.