A comunidade científica brasileira irá se juntar ao movimento mundial em defesa da ciência e irá organizar a Marcha pela Ciência no Brasil no próximo sábado (22), em mais de 15 cidades, como São Paulo (SP), Natal (RN), Rio de Janeiro (RJ) e Petrolina (PE).

De acordo com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a adesão ao movimento é importante em um momento no qual a atividade científica é ameaçada com mudanças em políticas públicas, redução e desvio de verbas, além da partidarização política da ciência e da tomada de decisões políticas levam em consideração as evidências científicas.

“Esperamos, ainda, que as sociedades científicas também convidem seus associados e amigos a participar do evento, que deverá dar início a um grande movimento planetário pela ciência como um bem comum de toda a humanidade”, afirmou Helena Nader, presidente da SBPC.

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Do Jornal da Ciência

Marcha pela Ciência no Brasil é neste sábado. Participe!

Mais de 15 cidades brasileiras estão organizando manifestações satélite e, somente em São Paulo, cerca de 1500 pessoas já confirmaram presença. A presidente da SBPC, Helena Nader, reitera que o apoio de todos torna-se fundamental em um momento em que a atividade científica sofre ameaças como mudanças em políticas públicas, redução e desvio de verbas e de financiamentos públicos

Toda a comunidade científica está convocada para marchar em defesa da ciência neste sábado, dia 22 de abril. A Marcha pela Ciência será realizada em mais de 400 cidades em todos os continentes, sobretudo nos Estados Unidos, onde começou a iniciativa, e Europa. A SBPC ressalta que é fundamental da adesão de todos os estados brasileiros à manifestação, em um momento em que a atividade científica sofre ameaças como mudanças em políticas públicas, redução e desvio de verbas e de financiamentos públicos, partidarização política da ciência e tomada de decisões políticas que não levam em consideração as evidências científicas.

No Brasil, a marcha será realizada em mais de 15 cidades, como São Paulo, Natal (RN), Rio de Janeiro e Petrolina (PE). A expectativa é que a Marcha no Brasil tenha adesão massiva em todos os estados. Em São Paulo, cerca de 1500 pessoas já confirmaram presença na manifestação, que parte do Lago da Batata, a partir das 14h.

Organizada por cientistas e entusiastas que reivindicam maior reconhecimento da sociedade e dos governantes, a mobilização teve início nos Estados Unidos e já ultrapassa a marca de 400 marchas satélites em diversos países, envolvendo instituições de ponta em ciência e educação.

A data escolhida para o manifesto, 22 de abril, coincide com o Dia Internacional da Terra, e representa a união dos cientistas e da sociedade em geral pela valorização das pesquisas na manutenção de políticas públicas e o incentivo para o desenvolvimento de soluções inovadoras e sustentáveis.

Reunindo o maior número possível de instituições e parceiros, a Marcha pela Ciência pretende disseminar a ideia de que a ciência é fundamental para a construção de políticas e regulamentos de interesse público.

No dia 30 de março, a SBPC divulgou uma carta de sua presidente, Helena Nader, convocando toda a comunidade científica a participar da manifestação. Na carta, Nader ressalta que o objetivo é reunir pessoas de toda a comunidade científica e acadêmica, e todos os interessados na ciência como um bem comum para a melhoria da qualidade de vida de todos, e como o melhor instrumento para a evolução do conhecimento humano.

“Esperamos, ainda, que as sociedades científicas também convidem seus associados e amigos a participar do evento, que deverá dar início a um grande movimento planetário pela ciência como um bem comum de toda a humanidade”, afirmou.

Mapa da Marcha pela Ciência no Brasil

Um grupo organizado no Facebook, com o nome Marcha pela Ciência no Brasil, criou um mapa dinâmico das marchas pela ciência no Brasil, com informações como o website do evento, horário e local.

“O principal objetivo deste mapa é motivar outras cidades a aderirem e, também, manter as atividades de forma organizada e fácil de conferir”, conta Tatiana Rappoport, professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que atua na organização da Marcha carioca.

O mapa (que pode ser acessado aqui) foi feito por ela e pelo divulgador científico e pesquisador colaborador da Unicamp, Roberto Takata. Os organizadores das marchas pelo País só precisam dar o nome da cidade que automaticamente o serviço plota no mapa junto com outras informações fornecidas, conforme explica Takata.

Até o momento, 15 cidades divulgaram no mapa sua adesão ao movimento no dia 22 de abril:

Belém (PA) – 10h – Theatro da Paz;

Belo Horizonte (MG) – 10h – Praça da Liberdade;

Boa Vista (RR) – 18h -Praça das Águas;

Brasília (DF) – 14h – Museu Nacional da República;

Diamantina (MG) – 8h – Praça Barão Guacuí;

Goiânia (GO) – 16h – Praça Universitária;

Ilhéus(BA) – 10h00 – Cais Consciência.

Manaus (AM) – 10h30 – Musa do Largo;

Natal (RN) – 16h – Parque da Cidade;

Pato Branco (PR) – 15h – Praça da Cidade;

Petrolina (PE) – 9h – Praça do Bambuzinho;

Petrópolis (RJ) – 10h – Centro Histórico;

Porto Alegre (RS) – 11h – Redenção – Pq. da Farroupilha;

Rio de Janeiro (RJ) – 10h – Museu Nacional;

São Paulo (SP) 14h – Largo da Batata;

Petrópolis (RJ) – 10h – Centro Histórico;

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Reunidos em torno do ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira economistas, artistas, professores, advogados, sindicalistas, entre outros profissionais, lançaram o manifesto “Projeto Brasil Nação”, que conta com centenas de assinaturas, entre elas as do jurista Fabio Konder Comparato, do escritor Raduam Nassar, do crítico e historiador Alfredo Bosi, do economista Paulo Singer, do físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, do cantor Chico Buarque de Hollanda, do líder do MST João Pedro Stédile, entre outros.

“A missão do Projeto Brasil Nação é pensar o Brasil, é ajudar a refundar a nação brasileira, é unir os brasileiros em torno das ideias de nação e desenvolvimento – não apenas do ponto de vista econômico, mas de forma integral: desenvolvimento político, social, cultural, ambiental; em síntese, desenvolvimento humano”, afirma o documento.

Na “crise sem precedentes” do país, o manifesto aponta desemprego a níveis assustadores, uma indústria esmagada pelos juros mais altos do mundo e pelo câmbio sobreapreciado, e a destruição do patrimônio nacional, com recuos nas regras de conteúdo local, na indústria naval, na infraestrutura, na construção civil, o esquartejamento da Petrobras, o esvaziamento do BNDES. Também destaca cortes na ciência, cultura, educação e tecnologia, e as ameaças a direitos sociais, entre eles na saúde e na Previdência.

“A desigualdade volta a aumentar, após um período de ascensão dos mais pobres. A sociedade se divide e se radicaliza, abrindo espaço para o ódio e o preconceito. No conjunto, são as ideias de nação e da solidariedade nacional que estão em jogo. Todo esse retrocesso tem apoio de uma coalizão de classes financeiro-rentista que estimula o país a incorrer em déficits em conta-corrente, facilitando assim, de um lado, a apreciação cambial de longo prazo e a perda de competitividade de nossas empresas, e, de outro, a ocupação de nosso mercado interno pelas multinacionais, os financiamentos externos e o comércio desigual.”

Ao contrário da mídia e do governo, que atribuem a crise a erros fiscais, os signatários acusam a “armadilha de juros altos e de câmbio apreciado que inviabiliza o investimento privado. Houve, na sua avaliação, um ataque deliberado, “desfechado num momento em que o Brasil se projetava como nação, se unindo a países fora da órbita exclusiva de Washington. Buscava alianças com países em desenvolvimento e com seus vizinhos do continente, realizando uma política externa de autonomia e cooperação. O país construía projetos com autonomia no campo do petróleo, da defesa, das relações internacionais, realizava políticas de ascensão social, reduzia desigualdades, em que pesem os efeitos danosos da manutenção dos juros altos e do câmbio apreciado.”

O documento propõe cinco diretrizes para políticas públicas de economia que pretendam levar o país ao desenvolvimento econômico com estabilidade de preços, estabilidade financeira e diminuição da desigualdade:

regra fiscal que permita a atuação contracíclica do gasto público, e assegure prioridade à educação e à saúde;
taxa básica de juros em nível mais baixo, compatível com o praticado por economias de estatura e grau de desenvolvimento semelhantes aos do Brasil
superávit na conta corrente do balanço de pagamentos que é necessário para que a taxa de câmbio seja competitiva
retomada do investimento público em nível capaz de estimular a economia e garantir investimento rentável para empresários e salários que reflitam uma política de redução da desigualdade
reforma tributária que torne os impostos progressivos
Os cinco pontos econômicos do Projeto Brasil, de acordo com o manifesto, “são seus instrumentos – não os únicos instrumentos, mas aqueles que mostram que há uma alternativa viável e responsável para o Brasil. São políticas que atendem a todas as classes exceto a dos rentistas.”

O manifesto está no blog do ex-ministro, aberto a assinaturas e adesões.

Confira abaixo seu conteúdo na íntegra:

 Manifesto do Projeto Brasil Nação

O Brasil vive uma crise sem precedentes. O desemprego atinge níveis assustadores. Endividadas, empresas cortam investimentos e vagas. A indústria definha, esmagada pelos juros reais mais altos do mundo e pelo câmbio sobreapreciado. Patrimônios construídos ao longo de décadas são desnacionalizados.

Mudanças nas regras de conteúdo local atingem a produção nacional. A indústria naval, que havia renascido, decai. Na infraestrutura e na construção civil, o quadro é de recuo. Ciência, cultura, educação e tecnologia sofrem cortes.

Programas e direitos sociais estão ameaçados. Na saúde e na Previdência, os mais pobres, os mais velhos, os mais vulneráveis são alvo de abandono.

A desigualdade volta a aumentar, após um período de ascensão dos mais pobres. A sociedade se divide e se radicaliza, abrindo espaço para o ódio e o preconceito.

No conjunto, são as ideias de nação e da solidariedade nacional que estão em jogo. Todo esse retrocesso tem apoio de uma coalizão de classes financeiro-rentista que estimula o país a incorrer em deficits em conta corrente, facilitando assim, de um lado, a apreciação cambial de longo prazo e a perda de competitividade de nossas empresas, e, de outro, a ocupação de nosso mercado interno pelas multinacionais, os financiamentos externos e o comércio desigual.

Esse ataque foi desfechado num momento em que o Brasil se projetava como nação, se unindo a países fora da órbita exclusiva de Washington. Buscava alianças com países em desenvolvimento e com seus vizinhos do continente, realizando uma política externa de autonomia e cooperação. O país construía projetos com autonomia no campo do petróleo, da defesa, das relações internacionais, realizava políticas de ascensão social, reduzia desigualdades, em que pesem os efeitos danosos da manutenção dos juros altos e do câmbio apreciado.

Para o governo, a causa da grande recessão atual é a irresponsabilidade fiscal; para nós, o que ocorre é uma armadilha de juros altos e de câmbio apreciado que inviabiliza o investimento privado. A política macroeconômica que o governo impõe à nação apenas agravou a recessão. Quanto aos juros altíssimos, alega que são “naturais”, decorrendo dos déficits fiscais, quando, na verdade, permaneceram muito altos mesmo no período em que o país atingiu suas metas de superávit primário (1999-2012).

Buscando reduzir o Estado a qualquer custo, o governo corta gastos e investimentos públicos, esvazia o BNDES, esquarteja a Petrobrás, desnacionaliza serviços públicos, oferece grandes obras públicas apenas a empresas estrangeiras, abandona a política de conteúdo nacional, enfraquece a indústria nacional e os programas de defesa do país, e liberaliza a venda de terras a estrangeiros, inclusive em áreas sensíveis ao interesse nacional.

Privatizar e desnacionalizar monopólios serve apenas para aumentar os ganhos de rentistas nacionais e estrangeiros e endividar o país.

O governo antinacional e antipopular conta com o fim da recessão para se declarar vitorioso. A recuperação econômica virá em algum momento, mas não significará a retomada do desenvolvimento, com ascensão das famílias e avanço das empresas. Ao contrário, o desmonte do país só levará à dependência colonial e ao empobrecimento dos cidadãos, minando qualquer projeto de desenvolvimento.

Para voltar a crescer de forma consistente, com inclusão e independência, temos que nos unir, reconstruir nossa nação e definir um projeto nacional. Um projeto que esteja baseado nas nossas necessidades, potencialidades e no que queremos ser no futuro. Um projeto que seja fruto de um amplo debate.
É isto que propomos neste manifesto: o resgate do Brasil, a construção nacional.

Temos todas as condições para isso. Temos milhões de cidadãos criativos, que compõem uma sociedade rica e diversificada. Temos música, poesia, ciência, cinema, literatura, arte, esporte – vitais para a construção de nossa identidade.

Temos riquezas naturais, um parque produtivo amplo e sofisticado, dimensão continental, a maior biodiversidade do mundo. Temos posição e peso estratégicos no planeta. Temos histórico de cooperação multilateral, em defesa da autodeterminação dos povos e da não intervenção.

O governo reacionário e carente de legitimidade não tem um projeto para o Brasil. Nem pode tê-lo, porque a ideia de construção nacional é inexistente no liberalismo econômico e na financeirização planetária.

Cabe a nós repensarmos o Brasil para projetar o seu futuro – hoje bloqueado, fadado à extinção do empresariado privado industrial e à miséria dos cidadãos.
Nossos pilares são: autonomia nacional, democracia, liberdade individual, desenvolvimento econômico, diminuição da desigualdade, segurança e proteção do ambiente – os pilares de um regime desenvolvimentista e social.

Para termos autonomia nacional, precisamos de uma política externa independente, que valorize um maior entendimento entre os países em desenvolvimento e um mundo multipolar.
Para termos democracia, precisamos recuperar a credibilidade e a transparência dos poderes da República. Precisamos garantir diversidade e pluralidade nos meios de comunicação. Precisamos reduzir o custo das campanhas eleitorais, e diminuir a influência do poder econômico no processo político, para evitar que as instituições sejam cooptadas pelos interesses dos mais ricos.

Para termos Justiça precisamos de um Poder Judiciário que atue nos limites da Constituição e seja eficaz no exercício de seu papel. Para termos segurança, precisamos de uma polícia capacitada, agindo de acordo com os direitos humanos.

Para termos liberdade, precisamos que cada cidadão se julgue responsável pelo interesse público.

Precisamos estimular a cultura, dimensão fundamental para o desenvolvimento humano pleno, protegendo e incentivando as manifestações que incorporem a diversidade dos brasileiros.

Para termos desenvolvimento econômico, precisamos de investimentos públicos (financiados por poupança pública) e principalmente investimentos privados. E para os termos precisamos de uma política fiscal, cambial socialmente responsáveis; precisamos juros baixos e taxa de câmbio competitiva; e precisamos ciência e tecnologia.

Para termos diminuição da desigualdade, precisamos de impostos progressivos e de um Estado de bem-estar social amplo, que garanta de forma universal educação, saúde e renda básica. E precisamos garantir às mulheres, aos negros, aos indígenas e aos LGBT direitos iguais aos dos homens brancos e ricos.
Para termos proteção do ambiente, precisamos cuidar de nossas florestas, economizar energia, desenvolver fontes renováveis e participar do esforço para evitar o aquecimento global.

Neste manifesto inaugural estamos nos limitando a definir as políticas públicas de caráter econômico. Apresentamos, assim, os cinco pontos econômicos do Projeto Brasil Nação.

1 Regra fiscal que permita a atuação contracíclica do gasto público, e assegure prioridade à educação e à saúde
2 Taxa básica de juros em nível mais baixo, compatível com o praticado por economias de estatura e grau de desenvolvimento semelhantes aos do Brasil
3 Superávit na conta corrente do balanço de pagamentos que é necessário para que a taxa de câmbio seja competitiva
4 Retomada do investimento público em nível capaz de estimular a economia e garantir investimento rentável para empresários e salários que reflitam uma política de redução da desigualdade
5 Reforma tributária que torne os impostos progressivos

Esses cinco pontos são metas intermediárias, são políticas que levam ao desenvolvimento econômico com estabilidade de preços, estabilidade financeira e diminuição da desigualdade. São políticas que atendem a todas as classes exceto a dos rentistas.

A missão do Projeto Brasil Nação é pensar o Brasil, é ajudar a refundar a nação brasileira, é unir os brasileiros em torno das ideias de nação e desenvolvimento – não apenas do ponto de vista econômico, mas de forma integral: desenvolvimento político, social, cultural, ambiental; em síntese, desenvolvimento humano. Os cinco pontos econômicos do Projeto Brasil são seus instrumentos – não os únicos instrumentos, mas aqueles que mostram que há uma alternativa viável e responsável para o Brasil.

Estamos hoje, os abaixo assinados, lançando o Projeto Brasil Nação e solicitando que você também seja um dos seus subscritores e defensores.

30 de março de 2017

Fonte: Verônica Couto / SOS Brasil Soberano 

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A vedação do trabalho de menores de 14 anos foi consagrada no país em 1943, com a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Assim como o pagamento de 50% no caso de horas extras. Essas demandas, entretanto, já faziam parte das reivindicações do movimento operário no Brasil desde o início de século 20.

Essas foram algumas das bandeiras da primeira Greve Geral realizada no país, que completa cem anos no mês de julho. Além de questões relacionadas ao ambiente fabril, o movimento operário também pautava assuntos como o controle de preços de alimentos e dos aluguéis.

Localizada principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, a paralisação de 1917 durou mais de um mês e não foi pensada originalmente para ter um caráter geral. Em tempos em que a questão social era tratada como questão de polícia, um dos estopins da generalização da greve foi a morte do operário espanhol José Ineguez Martinez, causada pelas forças policiais.

O enterro de Ineguez ocorreu no Cemitério do Araçá, zona oeste da capital paulista. No dia, milhares de operários atravessaram a cidade ao realizarem uma marcha de bairros da região leste – como Mooca e Belenzinho – até o local.

Para Armando Boito, professor de Ciência Política da Unicamp e estudioso do mundo sindical, a Greve Geral de 1917 é um exemplo e nos ajuda a desmistificar a origem dos direitos trabalhistas. Segundo ele, as condições do movimento sindical – formado por imigrantes que sequer compartilhavam a língua - eram muito mais difíceis que as de hoje. “ No caso do Brasil da Primeira República, há um fator que diferencia demais a classe operária: a língua. Dificultava a unificação. Além disso, havia disparidades muito grandes no que diz respeito, por exemplo, à remuneração”.

Além desta heterogeneidade, as condições políticas não eram favoráveis aos operários.

“A classe operária não tinha nem direito a voto. Era muito perseguida politicamente. As lideranças eram banidas para estados distantes do Brasil, ou expulsas para seus países de origem. Era muito difícil fazer sindicalismo na Primeira República. Apesar disso, os anarcossindicalistas conseguiram colocar em pé o movimento operário, fundaram a Confederação Operária Brasileira em 1906 e organizaram muitas greves”, diz.

O cientista político entende que a classe operária, em algum grau, sempre foi complexa e dividida em todos os países, citando como exemplo a descrição feita pelo historiador britânico Eric Hobsbawn sobre os trabalhadores europeus.

“Como é possível que uma classe tão heterogênea, no nível linguístico, nas condições de trabalho e de remuneração consiga se unificar? Na verdade, foi o movimento operário que criou a ideia e a realidade da classe operária, e não o contrário. É a luta que unifica”, defende.

Boito lembra que a mobilização operária continuou após a Revolução de 1930, inclusive por meio da Aliança Libertadora Nacional, que chegou a ter mais de 500 mil militantes no país. Foi nesse contexto que o então presidente Getúlio Vargas – que também precisava de apoio contra a reação da oligarquia cafeeira - aprovou a legislação trabalhista.

“Vargas sempre apresentou os direitos trabalhistas que vão sendo estabelecidos em seu governo, e finalmente consolidados na CLT de 1943 como uma dádiva do Estado brasileiro, subliminarmente, dele próprio. Isso é mitologia. Quando o governo o Vargas estabelece direitos ele está respondendo a uma pressão real que existe desde o início do século 20 e que se acumulou ao longo das décadas de 10, 20 e 30”, aponta. Nesse contexto, a disputa entre Vargas e as elites cafeeiras teria aberto uma brecha que potencializou as demandas operárias.

Presente

O papel das greves continuou marcando a história do Brasil. Luiz Ribeiro, técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), cita, por exemplo, o papel do movimento sindical na redemocratização do país após a Ditadura Militar.

"A greve é um dos principais instrumentos do trabalhador para se fazer ouvir e expressar suas reivindicações. Quando recuperamos a história de conquista de direito se percebe que, na origem - por exemplo, redução da jornada, garantir piso e salário mínimo - há um movimento grevista. Olhando os processos políticos, como a redemocratização, as greves tiveram um papel essencial", afirma.

Ribeiro explica que há, basicamente, dois tipos de greves: as defensivas e as propositivas.

“Na década de 90 eram muito mais defensivas, para manter direitos ou para que a lei fosse cumprida. A partir de 2003, há uma estabilização do número de greves e elas passam a ter uma característica bem própria: são propositivas, ou seja, que visam ampliação de direitos ou conquistas salariais”, aponta. A explicação para o fenômeno mais recente, entre outros fatores, foi a oferta de vagas, que criava uma tendência em direção ao pleno emprego, favorecendo a luta sindical.

No entanto, para Ribeiro, a próxima greve geral que está sendo puxada pelas centrais sindicais para o próximo dia 28 de abril foge dessa classificação. Na pauta deste ano estão a denúncia das alterações das regras da Previdência - que adia aposentadorias e diminui benefícios - e a defesa de direitos trabalhistas, muitos deles conquistados por meio da luta que tem como marco 1917.

“Nós consideramos a greve chamada para o dia 28 como política, porque reivindica a defesa de direitos universais, de toda a classe trabalhadora. A greve geralmente se relaciona de forma direta com uma empresa. A greve política transcende essa relação imediata, envolve os grandes temas nacionais”, analisa.

Fonte: Brasil de Fato/ Rafael Tatemoto 

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O engenheiro Alan Paes Leme Arthou, ex-coordenador do Programa de Desenvolvimento de Submarino com Propulsão Nuclear da Marinha (Prosub), defende uma política de ampliação e valorização da indústria e da engenharia brasileira. Entre medidas importantes nessa direção, ele cita a inclusão da tecnologia no conceito de conteúdo nacional e a formação de clusters, para melhor aproveitamento dos recursos de infraestrutura local. “Temos um nível de engenharia bom e, na infraestrutura, deve-se pensar o máximo possível nas tendências regionais para fazer clusters”, disse, durante o I Simpósio SOS Brasil Soberano, realizado na sexta-feira (31), no auditório da Faculdade Mackenzie, pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro e pela Federação dos Sindicatos de Engenheiros (Fisenge).

Os clusters são uma concentração de empresas com perfis semelhantes, colaborando entre si e compartilhando recursos. Podem incluir, diz Arthou, escolas técnicas voltadas para aquela linha específica de produção e outras facilidades logísticas, além de pesquisas realizadas em parceria com a indústria. O modelo ideal, na opinião do engenheiro, é aquele adotado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), com vários escritórios regionais. “É preciso buscar eficiência coletiva”, disse. “Um plano de industrialização deve ser pensado em termos regionais, para desenvolver regionalmente o que é possível e conseguir uma malha em rede capaz de distribuir esse conhecimento.”

Ao contrário do Brasil, que não investe na relação entre indústria e unidades de pesquisa, os EUA, segundo Arthou, abriram um centro tecnológico em São Paulo para recrutar e contratar pesquisadores brasileiros. “Quando nós produzímos o boro [elemento químico usado, por exemplo, em reatores nucleares, no freio de nêutron, e em proteção balística], encontramos uma professora da Unicamp que estava fazendo pesquisa nessa área para o Exército dos EUA, com financiamento de Londres”, conta Arthou. “Precisamos ter consciência da engenharia que temos.”

Ex-coordenador do Prosub, um dos mais estratégicos projetos na área de Defesa do país, ele alerta para o impacto econômico do esvaziamento da engenharia brasileira. “O motor da economia está falhando, estamos com pouco sangue”, advertiu. As indústrias instaladas no país, na sua avaliação, têm baixo conteúdo local, e o país tem formado poucos engenheiros por ano, um sinal crítico de baixo desenvolvimento tecnológico nacional.

No Brasil, ele estima que sejam pouco mais de 900 mil engenheiros, menos de 0,5% da população, ou menos de 1% da população economicamente ativa, da ordem de 105 milhões. Por ano, formam-se entre 40 mil e 45 mil profissionais de engenharia, em comparação a mais de 100 mil advogados. “Em 30 anos, teríamos 1,2 milhão de engenheiros. É pouco”, afirmou.

Um dos motivos para essa fragilidade, na sua opinião, é que o Brasil atua basicamente como “hospedeiro de indústrias estrangeiras”, e não investe no desenvolvimento tecnológico local. “Por exemplo, nas métricas do BNDES, não se leva em conta a tecnologia para pontuação de conteúdo nacional. Se a empresa compra um ativo no exterior, pode abater no IR, se for desenvolvê-lo aqui, não. Eu não consigo entender conteúdo nacional sem conteúdo tecnológico.”

Há, contudo, na sua avaliação, um grande potencial na indústria brasileira. A WEG, lembra o engenheiro, não conseguiu financiamento no Brasil para desenvolver um motor de polo permanente, componente necessário para os futuros carros elétrios. Decidiu, então, comprar um laboratório na Europa para realizar o projeto. “Isso é competitividade. Se não tivermos nossa própria indústria, não vamos conseguir chegar lá”. Na Alemanha, 24% da população estão empregados na indústria; 18% nos EUA, e 14% no Brasil. “Temos que defender os nossos interesses.”

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O II Simpósio SOS Brasil Soberano já está programado para o dia 27 de abril, e terá como tema “Engenharia, Tecnologia e a Modelagem da Empresa no Brasil”. Realizado em Salvador, com apoio do Sindicato dos Engenheiros no Estado da Bahia (Senge-BA) e vários parceiros, inclui na programação duas mesas de debates: “O papel das empresas privada e estatal num país soberano”, e “Uso dos recursos naturais no Brasil”.

Além do Senge-BA, são parceiros na iniciativa também a Associação dos Professores Universitários da Bahia (Apub-Sindicato), a Federação de Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior e de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico (Proife), o Crea da Bahia, entre outras entidades. O evento acontece na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, das 9h às 18h.

O II Simpósio SOS Brasil Soberano é parte do projeto do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (Senge-RJ) e da Federação dos Sindicatos de Engenheiros (Fisenge), de construir uma plataforma nacional com políticas voltadas ao fortalecimento da engenharia, da soberania nacional e do desenvolvimento. Para isso, são quatro simpósios, cada um dedicado a um tema, reunindo especialistas, acadêmicos, sindicalistas, parlamentares, representantes da sociedade civil, para construir propostas concretas, em oposição ao programa do governo Temer de ataque às bases da Constituição de 88.

O primeiro simpósio, no último 31 de março, no Rio, teve como tema “Contra a crise, pelo emprego e pela inclusão”, e o terceiro vai tratar de “Quais as reformas e para que reformas?”, em maio, em Belo Horizonte (MG). No final de junho, o IV Simpósio SOS Brasil Soberano, em Curitiba (PR), consolida as propostas que foram apresentadas no evento, e que vão formar também um livro e um filme.

II Simpósio SOS Brasil Soberano
Sindicato dos Engenheiros no Estado da Bahia (Senge-BA)
Data: 27 de abril (quinta-feira)
Hora: 9h às 18h
Local: Escola Politécnica da UFBA
R. Prof. Aristides Novis, 2 – Federação, Salvador – BA

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A necessidade de ampliar as alianças políticas, de modo a fortalecer a resistência ao projeto implantado após o impeachment, foi defendida pela maior parte dos palestrantes do I Simpósio SOS Brasil Soberano, realizado nesta sexta-feira (31/03), no Rio de Janeiro. Os debates de alternativas “Contra a crise, pelo emprego e pela inclusão”, tema do evento, também apontaram a urgência da retomada do investimento público. Especialmente na construção civil, para gerar empregos e estimular a economia, proposta do professor Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, e na tecnologia nacional, para assegurar posições estratégicas na indústria e no mercado internacional, como destacou o engenheiro Alan Paes Leme Arthou, ex-coordenador do Programa de Desenvolvimento de Submarino com Propulsão Nuclear da Marinha (Prosub). Tais medidas, voltadas à proteção de direitos e da soberania nacional, poderiam constituir, na avaliação do ex-ministro de C&T, Roberto Amaral, uma plataforma de unidade na resistência democrática e contra o programa em curso, de desconstrução do Estado.

O encontro foi realizado pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (Senge-RJ) e pela Federação dos Sindicatos de Engenheiros (Fisenge), parte do Dia Nacional de Luta, que levou milhares às ruas contra a reforma da Previdência Social, a lei da terceirização e a reforma trabalhista. Discutiu propostas para o país, com a participação também de deputados federais de partidos do campo progressista (PCdoB, PSOL e Rede), do economista Marcio Pochmann, do historiador Fernando Penna, professor da UFF e ativista do movimento “escola sem mordaça”, e dos jornalistas Luis Nassif e Marcelo Auler.

A instabilidade institucional pautou grande parte das intervenções e também dos questionamentos da plateia. “Precisamos assegurar que haja eleições”, alertou o ex-ministro Roberto Amaral, um dos idealizadores da Frente Brasil Popular. “Este golpe, acima de tudo, foi para implantação de um projeto que havia sido rejeitado nas eleições.” Representa, diz ele, “o interesse do sistema financeiro rentista – nacional e internacional –, destruindo o que resta de tecnologia e know how na engenharia brasileira, e também os pilares da democracia.”

Para o economista Marcio Pochmann, esse grupo que ocupa o poder não aceitará a disputa eleitoral em 2018. “Acho que não há uma saída institucional, tradicional. Os que deram o golpe só têm a oferecer o osso para a sociedade, não vão aceitar a via democrática. Por isso, temos que trabalhar para além da via institucional”, afirmou. Na sua avaliação, se quisermos assegurar as próximas eleições, é necessário “radicalizar” desde já. “Se, de fato, há uma ruptura da ordem democrática, o que podemos fazer, além de denunciar? O que vamos impor de prejuízo a eles?”, questionou.

Como unir pensamentos diferentes?

Para Roberto Amaral, todos têm a tarefa de assegurar a continuidade constitucional. “A direita em nenhum momento entregou de graça o poder no Brasil”, diz, indicando, entre outros, o risco de imposição do parlamentarismo, caso o Judiciário não consiga impedir a candidatura de Lula à Presidência em 2018. Na opinião do ex-ministro de C&T, reunir o apoio de diferentes segmentos sociais em torno de uma plataforma comum é uma das formas de resistir ao risco institucional.

Nesse sentido, vários agentes políticos, de acordo com Amaral, estão buscando construir um programa para o Brasil: além do próprio Simpósio SOS Brasil Soberano promovido pelo Senge-RJ e pela Fisenge, e da Frente Brasil Popular, um grupo de economistas e políticos articulados em torno do ex-ministro Luis Carlos Bresser Pereira, a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (veja aqui o documento divulgado pelo grupo) e o Clube de Engenharia. “No momento, todos têm um papel tático de reunir forças e dar conteúdo político e programático à resistência, ajudar na unidade política e apontar rumos.” Uma plataforma de resistência, na avaliação de Amaral, deve ser construída de baixo para cima, em diálogos com trabalhadores e com a classe média.

“Mas como se constrói uma unidade com quem é muito diferente da gente?”, perguntaram da plateia a Alessandro Molon.“Luta a luta; é a luta que gera a consciência”, respondeu o deputado, propondo a “construção de pontes” por meio do debate de pautas concretas, como a reforma da Previdência ou a desnacionalização do território, que possam unir setores tradicionalmente divergentes. “Por exemplo, a venda de terra a estrangeiros vai mexer com setores que não são progressistas, mas são nacionalistas – e isso nos fortalece; mas eles não vão estar com a gente em outras lutas”, explica. “Estamos fazendo alianças pontuais, mas que lá na frente podem gerar um caldo de cultura, em que as pessoas percebam que determinado resultado eleitoral é decisivo para que o Brasil caminhe para esta ou aquela direção.” Para ele, a hora é de “sermos amplos, genorosos, abertos”.

Esse movimento é particularmente importante num momento que a base do governo tornou-se instável. “Há uma novidade: não há mais centro no Congresso Nacional”, afirmou a deputada Jandira Feghali. “Ele foi polarizado pela direita e vai se deslocar à medida que o núcleo desse governo vá afundando, e que a eleição de 2018 gere temor para grande parte dos parlamentares.” Isso significa, na opinião dela, que há um conjunto de parlamentares que pode votar contra o Executivo em projetos que forem extremamente impopulares e que enfrentem a mobilização das ruas. “Não podemos ter o recorte apenas de direita e esquerda, ou perderemos tudo. Na sociedade, há um pensamento médio que vamos precisar alcançar, porque a sociedade não é majoritariamente nem de esquerda, nem de direita.”

Para Glauber Braga, do PSOL, “é importante resgatar aqueles que estão apartados do processo político”, utilizando, principalmente, os espaços das ruas e das praças. “Devemos estabelecer um diálogo amplo, em que você se abre para ouvir”, diz. A discussão da reforma da Previdência, nessa direção, pode ser, na opinião dele, uma oportunidade de acumular forças.

“É preciso chegar nas massas populares, nos cultos, nas igrejas, achar formas de fazer as pessoas acreditarem que a instituição [política] é importante”, afirmou Jandira Feghali.”Estou no Congresso desde 1991, nunca vi nada tão cruel, tão de costa pra sociedade, como essa proposta da reforma da Previdência.”

Propostas comuns

Além da rejeição às reformas antissociais e de base rentista, outras diretrizes podem promover a convergência de uma oposição ao Executivo. Por exemplo, segundo a deputada Jandira Feghali, está sendo feito um esforço para dar sinergia nos trabalhos de sete frentes parlamentares que atuam no Congresso Nacional com objetivos comuns, entre elas as de engenharia naval e de conteúdo nacional. “Essas iniciativas dificilmente se reunirão, mas poderão ter pontos de intersecção que podem construir um projeto nacional.”

Pochmann observou que o governo Temer tem posto o Brasil na contramão das tendências globais. “A política de conteúdo nacional venceu as eleições nos EUA, com Trump. Seja pela intenção de aplicar US$ 1 trilhão na infraestrutura, ou pelo processo tributário de deslocar encargos trabalhistas para empresas importadoras e para Wall Street, há um avanço das políticas de conteúdo nacional. Jamais imaginaríamos que um governo com o inglês lançasse um projeto chamado Estratégia Industrial, de conteúdo nacional. E aqui o que vemos é uma volta ao passado.”

Esse retrocesso se traduz, entre outros efeitos, na perda de conhecimento local. “Estamos destruindo a tecnologia, e os poucos segmentos da engenharia que têm know how”, criticou Roberto Amaral. “Não compreendem esses rapazes da procuradoria, que aprenderam inglês mas não conhecem história, não leram Grande Sertão, Casa Grande e Senzala… e que vivem no olimpo, que uma empresa não é só capital. A empresa, a partir de um determinado momento, é um fenômeno social.”

O Judiciário também foi criticado pelo jornalista Marcelo Auler, que, no momento, sofre a censura no seu blog de duas reportagens censuradas envolvendo a Lava Jato. “O governo está desmanchando”, acrescentou o jornalista Luis Nassif, do site GGN. “Todo mundo está discutindo um projeto nacional. A minha geração teve a chance de lutar contra a ditadura e agora pela democracia, esse será o nosso legado.”

Contra os cortes de gastos que, no governo federal e nos estados têm atingido os orçamentos de áreas relevantes, como saúde, educação, pesquisa, entre outros, Glauber Braga defendeu a auditoria da dívida pública brasileira, sistema que, conforme ressaltou, tem servido de justificativa recorrente para a retirada de direitos.

Resistir e propor é o binômio chave na atual conjuntura, segundo Duda Quiroga, secretária de Comunicação da CUT. “Estamos chamando a greve geral para 28 de abril mas é fundamental, para além disso, que a gente pense o que se pode fazer para retomar o caminho do emprego, da inclusão. É preciso propor.”

Nesse sentido, o deputado Alessandro Molon acredita que o Simpósio SOS Brasil Soberano, que terá ainda três outras edições, em Salvador (27 de abril), Belo Horizonte e Curitiba, poderá gerar um programa de convergência. “Quem sabe não pode ser a semente de uma unidade das forças progressistas, sobre a qual a gente precisa pensar com seriedade, para interromper este ciclo que querem que se perpetue, e a gente devolva o país aos brasileiros?”

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Reunidos na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, nós, cidadãos das mais diversas visões políticas, representantes de instituições da sociedade civil e de entidades sindicais e empresariais, unificados pela preocupação comum em relação aos destinos do país em momento tão grave de sua história, externamos nossos pontos de vista sobre alguns dos temas mais urgentes da atual conjuntura.

Desde abril último, presenciamos a imposição de um programa de ruptura do pacto social brasileiro, estabelecido pela Constituição de 1988. Por mais que tentem aprová-lo a toque de caixa no Congresso Nacional, salta aos olhos que tal programa não fez parte de qualquer candidatura vitoriosa nas eleições de 2014: nem para o Poder Executivo, nem para o Poder Legislativo. Sendo um governo transitório, falta-lhe, pois, norte, tempo e popularidade para implementar as mudanças de fato exigidas pelo país.

1 – Impõe-se defender a democracia e, sobretudo, as eleições de 2018, para impedir quaisquer formas de perseguição política, cerceamento da liberdade de opinião. Afirmamos, também, ser inaceitável qualquer mudança no regime político e no sistema de governo, que não passe pelo crivo das urnas.

2 – A empresa nacional, a reindustrialização do Brasil e o investimento em ciência e tecnologia devem ser defendidos por qualquer governo comprometido com o desenvolvimento nacional.

3 – A política econômica vigente, de interesse exclusivo do mercado financeiro rentista, nacional e internacional, é responsável pela escalada do desemprego. Leva angústia e desespero a milhões de pessoas, e coloca em risco a estabilidade social. Neste quadro, é insensato propor reformas que têm como objetivo suprimir direitos sociais e trabalhistas conquistados há décadas. Elas não reformam a casa dos brasileiros. Derrubam seus alicerces.

4 – Juros exorbitantes, câmbio apreciado, fragilização deliberada da Petrobrás, justamente quando a companhia descobriu a maior reserva de petróleo do planeta dos últimos 30 anos, abandono da política de conteúdo local que possibilitou a industrialização acelerada do país a partir dos anos 50 do século passado, desconstrução do BNDES, essencial como indutor do desenvolvimento, tudo isso configura um cenário que, se não for revertido, nos remeterá ao passado.

5 – A terceirização, se irrestrita e ilimitada, poderá representar a eliminação de direitos trabalhistas para a parcela mais vulnerável da população brasileira e o rebaixamento dos padrões de civilização e justiça do nosso pacto social.

6 – As mudanças na previdência não podem inviabilizar a aposentadoria de parte substancial da população brasileira e destruir a solidariedade entre gerações, classes sociais e regiões do país.

7 – Ao invés de encarecer o crédito público direcionado para o investimento, excedendo em muito os padrões internacionais que asseguram a integração global competitiva, é preciso trazer a taxa de juros básica para patamares minimamente compatíveis com a média internacional e com a rentabilidade da atividade produtiva e de projetos de infraestrutura, sem o que será difícil e caro evitar a valorização cambial do Real.

8 – Sem taxa de câmbio competitiva, nossa desindustrialização será aprofundada. O real sobrevalorizado inviabiliza investimentos nacionais de longo-prazo e intensifica a transferência de empregos para o exterior.

9 – O rebaixamento do investimento público deve ser revertido. As exigências de conteúdo tecnológico local e nacional, em função de seu potencial indutor do investimento privado local, devem ser mantidas.

10 – Os bancos públicos têm um papel importante no financiamento do investimento privado e na geração de empregos, papel esse que não pode ser prejudicado pela eliminação ou grande encarecimento de suas fontes de recursos, aumentando juros e inviabilizando inversões de maiores risco, prazo e conteúdo tecnológico.

Está claro o propósito da atual política econômica, de estabelecer para o Brasil nas próximas décadas o rumo da subserviência ao estrangeiro, da exclusão social, do desprezo à cidadania e à democracia, em contraposição ao Brasil que almejamos, democrático, soberano, economicamente desenvolvido e socialmente inclusivo.

Nossa democracia não pode ser atropelada por um processo demasiadamente atabalhoado de mudanças nos estatutos legais que regulam nosso pacto social, retirando direitos fundamentais. A pressa é inimiga da legitimidade porque visa bloquear o debate público e, particularmente, tolher a participação dos maiores afetados por essas reformas.

Vivemos um momento delicadíssimo. Nosso país, uma das 10 maiores economias do mundo, não pode se apequenar. Urge resistir ao desmonte em curso, do Estado, da economia e da política. É este o nosso compromisso.

São Paulo, 22 de março de 2017

Aldo Fornazieri (Cientista Político, FESPSP).

Angelo Del Vecchio (Sociólogo).

Antonio Correa de Lacerda (Economista, PUC-SP)

Artur Araujo (Consultor da Federação Nacional dos Engenheiros).

Cesar Prata (Vice-Presidente da ABIMAQ).

Clemente Ganz Lucio (Diretor Técnico do DIEESE).

Clovis Francisco Nascimento Filho (Senge-RJ, Fisenge).

Ennio Candoti (Físico, ex-presidente da SBPC e atual Diretor do Museu da Amazônia).

Franklin Martins (Jornalista, ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social).

Gastão Wagner de Souza Campos (Medicina, Unicamp, presidente da Abrasco).

Gilberto Bercovici (Direito, USP).

Guilherme Estrella (Geólogo, ex-Diretor da Petrobrás).

Hélio Campos Mello (Jornalista, Revista Brasileiros).

João Antonio Moraes (Federação Única dos Petroleiros-FUP).

João Guilherme Vargas Netto (Consultor Sindical). 

Ladislau Dowbor (Economista, PUC-SP).

Lais da Costa Manso (Socióloga)

Luiz Carlos Bresser-Pereira (Ex-Ministro da Fazenda, FGV).

Manuel Domingos Neto (Universidade Federal Ceará).

Márcio Pochmann (Economista, UNICAMP).

Mario Scheffer (FMUSP e Vice-Presidente da ABRASCO).

Murilo Celso de Campos Pinheiro (Presidente do Seesp e do FNE).

Olimpio Alves dos Santos (Senge-RJ e Fisenge).

Otavio Velho (Antropólogo, UFRJ).

Pedro Celestino Pereira (Presidente do Clube de Engenharia-RJ).

Pedro Paulo Zahluth Bastos (Economista, UNICAMP).

Roberto Amaral (ex-Ministro da Ciência e Tecnologia). 

Rodrigo de Morais (Sindicato dos Metalúrgicos de SP). 

Samuel Pinheiro Guimarães (Diplomata, Ex-Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos).

Saturnino Braga (Presidente do Centro Internacional Celso Furtado).

Ubiratan de Paula Santos (Médico e Conselheiro da FESPSP).

William Nozaki (Cientista Político, Coordenador da Cátedra Celso Furtado – FESPSP).

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Para Carlos Lessa, professor da UFRJ e ex-presidente do BNDES, a elaboração de um projeto de soberania deve primeiro responder a pergunta sobre o que é o Brasil hoje. “Nosso país é urbano. 84% da popular é urbana, em 11 regiões metropolitanas está 50% da população brasileira”. Mas continua periférica, já que depende da venda de minérios e de produtos agropecuários, pondera o professor.

Por Ednubia Ghisi (Senge-PR)

Na avaliação de Lessa, há uma coincidência entre a maior indústria e maior categoria organizada: o setor automobilístico. O carro próprio está entre os itens adquiridos nos último período que hoje geram endividamento. “O setor automobilístico cresceu em cima do endividamento das famílias. Se as famílias estão segurando o dinheiro do FGTS para pagar dívida é porque está amedrontada pelo endividamento”, afirmou.

Outra consequência gerada é o inchaço das grandes cidades. Na avaliação do economista, a qualidade de vida nas periferias melhorou em vários aspectos, com exceção do deslocamento dentro da malha urbana.

No lugar do incentivo à indústria automobilística, Carlos Lessa sugere como alternativa potencializar o setor da construção civil, “porque é universal, da metrópole à pequena vida”, e movimenta a mão de obra e a venda de matéria-prima local. Como critério para o real desenvolvimento, aponta a necessidade de haver participação de pequenas empresas e empreiteiras.

Ocupação dos espaços públicos
A construção de identidade nacional, na opinião de Lessa, passa pela apropriação da população pelos espaços públicos. Como exemplo, lembra das 1.300 escolas básicas e dos cerca de 100 centros de convivência “Por que não abrimos esses espaços para uso da comunidade? Se fica disponível sábado e domingo, por que não usá-la?”, sugere.

Aponta ainda a necessidade de socializar a comunidade desde a primeira infância: “As pessoas poderiam ir até lá para ensinar a fazer peteca de pano, papagaio, jogo de botões, ensinar a brincar. Pode parecer brincadeira, mas o brincar é a primeira forma de socialização”. E lança uma proposta para juventude: “A juventude tem um enorme potencial, e pode ser utilização de patrimônio público subutilizado”.

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O presidente do SENGE-RJ, Olímpio Alves dos Santos abriu, na manhã desta sexta-feira (31), o I Simpósio SOS Brasil Soberano. O evento busca soluções práticas para a crise que ocorre no país. Para Olímpio, o principal objetivo é construir uma discussão de projeto de nação. “Precisamos de um projeto de emergência e formular ações que contribuam para a construção de um projeto de Nação. O debate é fundamental para fortalecermos a nossa resistência diante do atual desmonte do Estado”, criticou.

Por Marcelle Pacheco (Senge-RJ)

O presidente da Fisenge e vice-presidente do SENGE-RJ, Clovis Nascimento afirmou que o Brasil vive uma crise sem precedentes na História do país. “É uma crise institucional e política, que partiu de um golpe muito bem engendrado, que traz prejuízos inestimáveis para a sociedade. Nosso objetivo é aprofundar a discussão e formular ações para melhorar as condições de vida da população, defender a engenharia brasileira e a soberania nacional. Esta é mais uma frente de resistência na atual conjuntura”, defende Clovis.

"A jornada de hoje é parte integrante do dia nacional de luta (31/3) contra as reformas e retrocessos", disse um dos coordenadores do projeto, o professor Francisco Teixeira, que também lembrou da menina Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, que morreu vítima de bala perdida dentro da própria escola, na Pavuna, no Rio de Janeiro. 

Também participaram da mesa de abertura Pedro Celestino, presidente do Clube de Engenharia, Newton Augusto Cardoso de Oliveira, coordenador geral da pós-graduação da Faculdade Presbiteriana Mackenzie, e Duda Quiroga, secretária de comunicação da CUT-Rio.

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“O hoje está perdido”. É assim que o ex-ministro Roberto Amaral define o momento em que o Brasil vive. Para ele, não é possível reconstruir o país a curto prazo, nem do ponto de vista econômico, nem do ponto de vista político. Amaral analisou a crise brasileira durante sua participação da mesa "Emprego e processo produtivo" no I Simpósio SOS Brasil Soberano, que aconteceu nesta sexta-feira (31), no Rio de Janeiro.

Em uma profunda análise politica e econômica, Roberto Amaral afirmou que a crise resultante do golpe e um processo político só tem solução na política. Ele acredita que existem três linhas de atuação fundamentais: resistência, desfazer o que foi feito pelo governo golpista e a reconstrução do Estado.

“Esse encontro é uma linha de resistência . Em 1964, nós lamentavelmente fomos surpreendidos pelo golpe de Estado e pelas forças armadas. No dia 01 de abril nos encontramos sem nenhuma organização de resistência. Hoje temos condições de resistência, de organização, e o fundamental: com condições de reflexão. O maior inimigo da ação política é a práxis sem reflexão”, defende.

Marcelle Pacheco (Senge-RJ)

“Esse golpe não foi pura simples a troca de Dilma por Temer. Não foi apenas uma infração constitucional. Foi tudo isso e, acima de tudo, uma mudança de projeto. A implantação de um projeto que havia sido rejeitado nas eleições. Não tem base na soberania popular e, portanto, sem legitimidade. E é um governo que está usando a inexistência de apoio popular como mérito, porque agora acredita que pode fazer o quê quiser”, defende.

 

Tecnologia

O ex-ministro demonstrou preocupação especial com a ciência e tecnologia do Brasil. Segundo ele, o atual governo está destruindo 90% dos investimentos na área.

“Eu sou radical com a questão da ciência e tecnologia. Estão destruindo da mesma forma na época de Fernando Henrique Cardoso (FHC). 90% da pesquisa depende do Estado. E os poucos segmentos que têm tecnologia e know-how estão sendo destruídos. A empresa não é só capital. A empresa é fenômeno social, porque incorpora tecnologia e sociedade”, afirma.

 Eleições em 2018

Amaral demonstrou ainda preocupação com o futuro em curto prazo no Brasil. Para ele, é preciso voltar para as camadas que têm rejeição, falar com classe média com objetivo de refletir um projeto nacional, deter a desmoralização da política e aprofundar uma autocrítica.

“A direita, em momento algum, entregou de graça o poder no Brasil. Vão tentar impedir a eleição. Podemos dormir no presidencialismo e acordar no parlamentarismo”, finaliza.

Roberto Amaral é bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Ceará. É professor adjunto da PUC-RJ e titular da Faculdade Hélio Alonso. Político, foi um dos fundadores do Partido Socialista do Brasil (PSB). Foi Ministro de Ciência e Tecnologia do governo Lula. É um dos idealizadores da Frente Brasil Popular.

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