Entrevista: Marcos Túlio, presidente do Confea
O mercado de trabalho dos engenheiros carece hoje de 20 mil profissionais. Os números são do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea). Para o presidente da entidade, Marcos Túlio de Melo, a falta de planejamento resultante do abandono da cultura técnica nas últimas décadas é o principal responsável por esse quadro. Em entrevista ao Jornal da Fisenge, Marcos Túlio aponta as iniciativas que estão sendo tomadas no sentido de valorizar a profissão de engenheiro.
Que razões o senhor atribui a essa escassez de profissionais no mercado?
Nos últimos anos, em função das poucas perspectivas de desenvolvimento do país, áreas como a de engenharia, por exemplo, deixaram de atrair os jovens em idade de prestar vestibular. Ao contrário dos anos 60 e 70, quando o planejamento e o crescimento fizeram da Engenharia e suas especializações uma das cadeiras mais procuradas, o que se registrou nas últimas décadas foi à falta de estímulos suficientes para que o interesse pela área tecnológica continuasse em crescimento. Acredito que essa falta de planejamento, resultado do abandono da cultura técnica, seja a principal razão da carência de profissionais brasileiros especializados.
Este é um grande problema para o Brasil, não?
Para se ter uma idéia, atualmente, 70% dos nossos formandos em engenharia migram para outras áreas de atividade. Isso tem provocado que empresas multinacionais se instalem no país trazendo engenheiros de fora para instalar projetos cuja tecnologia não dominamos. Na comparação com outros países, levantamentos dão conta que atualmente temos cerca de 600 mil engenheiros atuantes. A estes somam 20 mil, por ano, saídos das faculdades. Nossos índices indicam seis engenheiros em cada mil trabalhadores. Estados Unidos e o Japão têm 25 engenheiros para cada mil trabalhadores e a França, 15 por mil. A China forma cerca de 300 mil engenheiros ao ano, a Índia, 400 mil e a Coréia do Sul, 80 mil, ou seja, nesse último caso, mais de quatro vezes o número brasileiro.
Como o Confea está lidando com essa questão?
O Confea integra um grupo de 17 instituições do setor público responsáveis pelo programa Inova Engenharia, uma análise acompanhada de diagnóstico sobre o atual cenário econômico do país e a engenharia brasileira. Lançado em maio, esse estudo já surte efeitos como o estímulo aos investimentos em inovação tecnológica, além do surgimento de iniciativas visando à modernização da educação em engenharia no Brasil. O Governo Federal, através da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência de fomento do Ministério da Ciência e Tecnologia, ampliou recentemente o aporte de recursos para o setor com o Programa de Subvenção Econômica a Empresas, prevendo a concessão de empréstimos não reembolsáveis, no valor total de R$ 510 milhões, para projetos de inovação tecnológica. Especificamente para apoiar o processo de modernização do ensino da engenharia, a Finep anunciou o Promoção e Valorização das Engenharias (Promove) com investimento de R$ 40 milhões, destinado a reforçar a interação entre faculdades de engenharia, setor empresarial e escolas do nível médio e técnico. Mais de 100 projetos estão sendo analisados para contratação até o início de janeiro.
E como esta situação está sendo encarada no meio acadêmico?
No setor educacional, novas diretrizes curriculares para a engenharia estão em andamento para flexibilizar os cursos de ensino superior. Elas enfatizam o empreendedorismo e introduzem novos elementos ao perfil do formando, como formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, capacidade de absorver e desenvolver novas tecnologias, em atendimento às demandas da sociedade. Uma resolução do Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura (Confea) possibilitou a incorporação de novas atribuições e especializações ao diploma de engenheiro, reconhecendo competências e habilidades obtidas em cursos regulares, até então não previstas, como técnico ambientalista, consultoria, treinamento, manutenção, auditoria e arbitragem, entre outras. As escolas precisam se preparar para isso. A velocidade das mudanças tecnológicas não permite mais que os engenheiros façam hoje os mesmos serviços que faziam no início de sua vida profissional. O mercado de trabalho não aceita mais um profissional de uma ferramenta só. No entanto, essas mudanças nas áreas da engenharia brasileira e de inovação tecnológica exigem mais dinheiro público. O documento Inova Engenharia avalia os níveis atuais de desenvolvimento econômico e social do Brasil e apresenta alternativas que possibilitam ao país investir em políticas voltadas a transformar o conhecimento científico em inovações capazes de gerar riquezas.
Fonte: Jornal da Fisenge, edição de dezembro
Este artigo foi publicado no website da Fisenge [http://www.fisenge.org.br/] em 08/01/2008 às 14:36 na seção Mercado.

